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20 dezembro 2009

Entre o pragmatismo e a paixão

Por Daniel Brito

Há uma diferença básica entre ser jornalista esportivo e jornalista do caderno de cidades. No primeiro, o repórter lida com a paixão. Já o outro, com o pragmatismo.

Quando o jornalista escrever que o time de futebol está jogando mal porque o técnico utiliza tal jogador numa posição que não é a dele, nada no mundo pode mudar por causa disso. O time não vai ter menos torcedores, o técnico não vai se sentir na obrigação de concordar, o jornal não vai vender mais por isso...

Quando o jornalista escreve que o fornecimento de água para a cidade está prejudicado por conta de um vazamento de óleo devido à má gestão da companhia responsável pela área. No mínimo, os governos locais vão ter que se movimentar para evitar que se transforme em uma catástrofe. Neste caso, o jornalista influenciou diretamente na vida de muita gente.

Não chega ser nenhum segredo o que citei acima. Mas é que após dez anos de atuação intensa nas editorias de esportes de veículos da Paraíba, Brasília e São Paulo, e participações pontuais nas demais editorias, desembarco oficialmente em uma editoria de cidades.

A reação dos amigos mais próximos ao saber de minha escolha foi:

- Ixi!! Paulêra, hein?

É, pode ser. Eu planejava para depois de 2010 uma incursão em áreas além do esporte. Veio antes, por linhas tortas. Mas tem sido uma experiência engrandecedora. Pensar o jornal de uma outra maneira. Pensar que não escrevo para pessoas apaixonadas pelo esporte, mas pessoas verdadeiramente preocupadas com a cidade.

Em duas semanas de labuta, me deparei com situações que fizeram a diferença no microuniverso no qual estou inserido nesta cidade.

Veja você que dia desses tropecei com o carro de um amigo em uma obra no centro de Brasília. Conversando com os frequentadores da região, descubro que o trupicão não foi por caso. A tal obra era mal feita. Se não fosse jornalista, ficaria a resmungar pelos cantos a incompetência da companhia de obras.

Mas sou jornalista e lá fui eu apurar. Não foi difícil. Descobri os erros e levei os técnicos em engenharia para mostrar o que estava errado. Vinte e quatro horas depois, com a matéria publicada, dei um sorriso vitorioso de canto de boca ao passar pelo local e ver homens trabalhando no local para evitar acidentes maiores.

A matéria está aqui.
E o relato do trupicão, aqui.

No outro dia, tomando cerveja com um colega, ele me contou que viajaria de carro para a cidade X mas não seguiria pelo caminho tradicional porque lera no jornal que a pista para aquelas bandas estava terrível. Para minha surpresa, era uma outra matéria de minha autoria. Coincidentemente sobre trânsito.

Dei outro risinho de canto de boca. Não foi pela vaidade de estar sendo lido, mas pela satisfação de saber que estou contribuindo para mudar alguma coisa. Coisa que jamais aconteceu quando trabalhava em esportes.

Claro que em esportes existem vantagens insuperáveis, como fato de ir a lugares nos quais você já iria se estivesse de folga. Além de tratar de um tema muito mais leve.

Esporte sempre será uma paixão. Mas por enquanto, estou gostando desse climinha de início de namoro com o pragmatismo.

07 novembro 2009

With a little help from my friends

Por Daniel Brito

Na minha primeira semana como assessor de imprensa, descobri que fui gente boa com muita gente. Sim, porque meu primeiro desafio era promover um evento meio que inusitado em Brasília. Precisava entrar em contato com jornais e TVs do DF para que eles comprassem a minha pauta.

De uma certa maneira, tomei o cuidado de telefonar para aquelas pessoas que poderiam nutrir alguma simpatia por mim. E deu resultado... Dois jornais e quatro emissoras de TV compraram. Quantidade excelente para um assessor de primeira viagem.

Boa parcela do êxito se deveu à minha amizade com a imprensa do DF. Outra parcela era por causa do evento em si.

Não estou dizendo que minha presença era mais importante que o evento, mas vida de assessor tem dessas: se os caras da redação não vão com a cara dele (assessor), adeus espaço na mídia.

Conversando com um amigo sobre isso, ele me lembrou da frase de Nilton Santos, após ser agraciado por uma das centenas de homenagens que recebeu desde que foi bicampeão mundial de futebol, em 1962: "Já pensou se eu tivesse feito m*rda?".

Se ele tivesse feito m*rda, não seria o Nilton Santos.

O grande lance da assessoria, até onde pude perceber em quatro meses na área, é a amizade, o contato mais próximo, 'o poder do algo mais e da alegria' com o pessoal da redação. Sabendo com quem você está lidando, a chance de a pauta ser veiculada aumenta em 100% em relação a uma história vendida para quem você não conhece.

Rola até uma relação de confiança.

O assessor passa uma história exclusiva ao repórter que sabe que vai dar um tratamento diferenciado ao assunto. O repórter aceita as sugestões do assessor porque sabe que o cara nào passaria qualquer baboseira para ele...

Veja o que aconteceu comigo mesmo semanas atrás.

Precisava vender uma história aos veículos de comunicação do estado X na regiào Y do país. Liguei para quatro emissoras de TV e dois jornais além de um site. Uma emissora me atendeu e me deu retorno informando que não poderia fazer a pauta por um motivo qualquer. Ok, foi honesto. Outra pediu para retornar mais tarde e nunca mais me atendeu. Duas nem sequer me transferiram para a editoria responsável. Um jornal não me atendeu, no outro, fui extremamente mal tratado e a pauta foi ignorada.

Não queria abre de página ou cinco minutos de TV. Por não conhecer o pessoal, não consegui sequer vender a pauta. Liguei sugerindo uma matéria curiosa, como quase todas que ofereço, que podia render uma foto-legenda ou uma nota-coberta, no caso das TVs. Só o site publicou. Mais por preguiça do que qualquer outra coisa, porque eles republicaram o release ipsis litteris.

Por ter trabalhado minha vida jornalística inteira dentro das redações, me preocupo em oferecer assuntos que eu mesmo poderia fazer caso um assessor me vendesse quando eu era repórter.

Semanas mais tarde - já dia desses agora - tive que viajar para o esse mesmo lugar X da região Y do país. Previ as mesmas dificuldades e busquei ajuda dos amigos. Um camarada meu, grande amigo, que atua na cidade Z, entrou em contato com um amigo de um grande jornal impresso na tal da cidade X contando quem eu era e se ele poderia me dar um help. Fui super bem atendido, tipo very important person. Outras pessoas envolvidas no evento me colocaram em contato com uma emissora de TV, que desta vez me ouviu e adorou minha sugestão. Resultado: ampla divulgação. Melhor que a encomenda.

Nem parecia a mesma cidade da primeira tentativa.

O assessor de imprensa tem que ter uma lábia maior do que um repórter na hora de vender pautas. Teoricamente, o repórter só precisa vender pauta para um chefe, que é seu editor direto. O assessor precisa acertar a pauta com o cliente, conversar com o chefe da assessoria e iniciar a venda para vários editores de vários veículos.

Às vezes você tem uma pauta super legal na mão e oferece para alguém que você tem certeza que vai dizer sim...mas ouve não! Você vai ter que gastar a mesma energia para vender a pauta para seu segundo nome na lista e assim sucessivamente até encaixar a história em algum lugar.

É um procedimento que o jornalista não tá acostumado a seguir. Já o assessor tem que estar engatilhado a todo momento. Daí a importância de conservar a boa convivência com os coleguinhas de chão de fábrica.

"Com a ajuda dos amigos" dá para ter sucesso em assessoria.

24 abril 2009

Retroceder nunca. Render-se, jamais!

Por Daniel Brito

Isso acontece muito em TV. A produção tem um super trabalho de fazer uma pauta bem amarradinha para o repórter só finalizar 'para as redes'. Mas alguma coisa no local não está conforme a previsão do produtor. É o suficiente para o preguiçoso ligar para a redação derrubando tudo:

- Olha, o entrevistado disse que tá com a voz rouca e quer que eu fale com o sub-gerente. Vou derrubar a pauta, viu?

Do outro lado, o pobre do produtor se esguela, educadamente, para que o repórter tenha bom senso e deixe de preguiça.

- Não, com o sub-gerente também dá. Pega as informações do gerente e faz a sonora com o sub, não tem problema...

O repórter já fica chateado achando que sabe mais que todo mundo e faz mesmo assim para não perder a razão.

É muito fácil identificar um derrubador de pautas. Aliás, é mais fácil ainda derrubar pautas. Quem nunca derrubou uma pauta que atire a primeira pauta.

Tudo é motivo para desmoroná-la:

Rouquidão, falta de tempo, muito barulho, perigo no local, dor de dente, coqueluche, têtano, difeteria...

Eu mesmo tenho vergonha de dizer que não consegui a informação pedida pelo chefe. Tenho mesmo. Não sou o maior exemplo de profissional, mas, né... Se eu chegar ao ponto de derrubar uma matéria foi porque eu tentei por todos os lados. Falei com o gerente, o sub, o faxineiro, a esposa do faxineiro, o ex-funcionário da empresa, o ex-vizinho do bisneto do fundador da empresa. Aliás, faço até um pouco de marketing pessoal quando vejo que as coisas não tão dando certo e, depois de determinado momento na apuração, começo a informar o editor passo a passo do processo. Até para não ser acusado injustamente.

Certa vez, me pediram para falar com o filho de um cara famoso que havia sido internado após uma overdose. Não fazia a mínima idéia de encontrar o garoto. Liguei para os ex-companheiros de trabalho do drogado, apurei alguma coisa para compor o texto. Liguei para o trabalho do filho, mas não obtive informações. Uma alma bondosa veio do outro canto da redaçào e me passou o telefone do garoto (garoto entre aspas).

Depois de 87 ligações em vão (Claro informa, este número não existe), desisti e avisei que tinha só o miolo do texto. O abre, o depoimento do filho, não havia conseguido e pedi para o chefe ligar naquele número para comprovar que ele não batia bem da cuca (ele que eu digo é o número). O editor entendeu e me pediu apenas dois singelos parágrafos sobre o fato. Alguém se contorceu para tentar falar com o rapaz...e não conseguiu também.

O ato de desconstruir pautas com justificativas tão ridículas gera uma cultura muito inconveniente para as demais gerações. Todo mundo já ouviu um repórter reclamar:

- Meu jornal é o único em que o editor não confia na palavra do repórter.

Certamente porque o reportareado de décadas atrás deve ter mentido tanto e levado tanto furo por causa desse jeito acomodado de ser, que os chefes perderam a confiança em seus subordinados. E a gente sabe que confiança só se dá uma vez, não é verdade?

Bom, graças aos preguiçosos que surgiu essa vertente tào óbvia do jornalismo: o investigativo.

Ora, se é jornalismo, é porque teve apuração.

Se teve apuração, não deixa de ser uma espécie de investigação.

Acontece que tem tanta gente engolindo o oficial - aquela meia verdade (ou meia mentira) que vem nos releases - que o ato de futucar um pouquinho mais a fonte para descobrir o que está por trás daquele texto oficial virou 'jornalismo investigativo'. Engolir o oficial é uma maneira de não derrubar a pauta não deixa de ser uma improvidência.

Ou seja, os mal apurados, os preguiçosos, os parasitas de redações deram aos interessados o direito de se enquadrar no jornalismo investigativo.

Mas é claro que o jornalismo investigativo é muito mais do que correr atrás das notícias fáceis mas disfarçadas. Mas isso é assunto para outro post...Deus sabe lá quando!

29 outubro 2008

No statements

Por Daniel Brito

Foi a segunda vez que passei por essa situação. Fazer campana no saguão de um hotel luxuoso para tentar conversar com a estrela.

Jornalista, que já gosta de reclamar (ainda mais os paulistas), não hesita em desistir facilmente da missão. Mesmo sabendo que a persistência pode render um belo furo internacional.

Depois de passar um dia de paparazzi esperando por Maradona, no Kubitscheck Plaza, em Brasília, há dois anos e meio, encarnei o espírito de repórter de Contigo! ontem, no Hilton São Paulo, para esperar Lewis Hamilton, o próximo campeão da Fórmula 1.

Não sou muito de reclamar de pautas. Me mandou fazer, eu vou lá e tento fazer do meu jeito. Mesmo que não valha muita coisa. É claro que tem umas sugestões que você engole atravessado para não receber seu FGTS integral, mas no cômputo geral, aceito sugestões e não faço corpo mole.

A missão de ontem, no entanto, era para lá de ingrata. Conversar com Lewis Hamilton.

Umas cinco horas antes, ele desembarcara de surpresa em São Paulo para despistar a torcida (temia retaliações por disputar o título contra um brasileiro no Brasil, na última corrida do ano). Deu declarações irônicas e exclusivas ao globoesporte.com sobre a ausência da torcida e se enclausurou em seu nababesco quarto no imponente Hilton Morumbi.

Cheguei por lá às 13h30 quase convencido de que voltaria para redação, lá pelas 21h, sem escrever uma linha de novidade sobre a história.

Aquela monotonia acolchoada no sofá do saguão principal foi quebrada duas horas mais tarde quando Nelsinho Piquet apareceu de óculos escuros e boné. Lacônico, respondeu três perguntas andando apressado em direção ao seu Audi e foi embora.

Bom, pensei, uma matéria nova eu já tenho.

Minutos mais tarde surgiu Heikki Kovalainen, finlandês, parceiro de Hamilton.

Abordar essas figuras "importantes" no meio do nada ou num hall de entrada do hotel é quase como ser interpelado por uma mendigo fedorento na porta de casa. Sim, porque esses pilotos vivem em hotéis pelo mundo e a imprensa sabe exatamente os horários reservados para entrevistas. Eles não ficam distribuindo declarações a quem quer que peça.

No Brasil que rola essa insistência. Talvez porque, me disseram, a Fórmula 1 seja o principal evento da principal cidade do País.

Bueno...timidamente, chamei por Heikki, que se virou assustado, olhou para meu bloquinho na mão esquerda e a caneta, na direita, e disse, em inglês:

- Sim, pois não!
- Ahn... (gaguejei..confesso). I'm journalist, and I was wondering....

O segurança do hotel, um cara de uns 2,35m de altura, aproximadamente, ficou entre nós dois e tentou interromper a conversa.

Antes, perguntei sobre a prova de domingo.

Ele, quase que empurrado pelo segurança, me pediu desculpas por não poder dar entrevista mas disse que será uma corrida interessante.

O tempo se arrastou até às 19h15. De 16h50, depois que Heikki e Nelsinho conversaram comigo, negociei com a redação e chegamos a conclusão que minha matéria seria sobre a truculência dos seguranças do hotel (que sequer permitiam fotos no saguão ou que mostrassem a porta principal, desautorizava os funcionários a passar informações sobre os pilotos e me impedia de abordar os caras no hall de entrada). Decidiram por mim, também, que minha matéria passaria o recibo do furo dado pela internet, com a única declaração dada por Hamilton ao chegar no Brasil.

Escrito o texto, com severas críticas aa atuação dos seguranças, e com a reclusão de Hamilton por toda a tarde, eis que surge no saguão Lewis Hamilton.

Colei nele. Fiquei a dois metros dele por meia hora. Aproveitei uma soneca dos seguranças e fiquei ali esperando ser visto. Aí se sucedeu o grande conflito. Partiria logo para o ataque e faria minhas duas perguntinhas com meu inglês macarrônico, esperaria a sua ida para o carro para conversar já de saída, sem que tivesse que trocar cotoveladas com os seguranças?

Optei, não sei porque, pela segunda opção. Esperei, como disse, trinta minutos por Hamilton sair do saguão para tentar minha entrevistar relâmpago. Saí na cola dele fazendo quinze perguntas em inglês. Ele sequer olhou na minha cara, entrou no banco de trás de sua Mercedes-Benz prateada, fez o sinal de positivo para os fotógrafos e avisou ao pobre repórter plantonista:

- Sem declarações.
Crédito: Ernesto Rodrigues


O amigo brasileiro de Hamilton (esq.) vê o piloto inglês entrando na Mercedes-Benz prateada sem dar ouvidos ao repórter Daniel Brito, que é cercado por um assessor de Hamilton (de branco e de óculos) e pelo segurança do hotel (de preto, em terno e gravata)

12 outubro 2008

Jornal para especialistas

Por Daniel Brito

Como se jornalismo fosse uma receita de remédio para dor de barriga, diz-se que futebol (Flamengo ou Corinthians, de preferência), mulher (semi) nua e tragédia vendem jornal.

Então tá certo: vamos fazer a capa do jornal com esses três componentes todos dias?

Tem muita gente que faz. Informação que é bom...tá longe dali!

Aí começa a discussão: mas que tipo de informação?

O desespero nos mercados financeiros? O rombo na economia nos Estados Unidos?

Sim, isto é informação séria, talvez até imprescindível para um jornal. Mas, temo desanpontá-lo, não vende jornal...

Não vende!
O Estadão, a Folha, o Globo, o JB, o Correio Braziliense, o Zero Hora...que mais tem de jornal grande no Brasil? Só esses mesmos, né?

Então...o mainstream da mídia impressa nacional não está vendendo um exemplar a mais por prever o armagedon cada vez que os indicadores seguem a lei da gravidade.

O próprio ombudsman da Folha, na edição de hoje, estranhou:

"Apesar de noticiarmos a hecatombe nos sistemas financeiros do mundo inteiro, nosso fórum de leitores insiste em comentar sobre as eleições municipais e reta final do Campeonato Brasileiro de Futebol".

Ele pediu, inclusive, para que se humanizasse mais as pautas de economia, para que os leitores mudassem um pouco o foco da leitura. E até reconheceu: "O que é complicado para o jornalista, se por no lugar do leitor para 'prever' o que ele gostaria de ler".

(As aspas não foram copiadas ipsis litteris)

Não tem como ignorar a crise econômica.

Mas a impressão que ela deixa é que o jornal não é feito para os leitores comuns, aqueles que já foram chamados de Homer Simpson, mas para os especialistas que usarão as informações publicadas (muitas vezes repassadas por eles mesmos ao jornal) para sustentar teses oblíquas da realidade.

É igual aos repórteres esportivos. Que tratam do futebol como se todas as pessoas do planeta entendessem. Aliás, você já parou para prestar atenção na quantidade de informação que um texto sobre um time qualquer tem? E informação sobre como e onde comprar ingressos para o próximo jogo?

Naaaa...jornalista esportivo tá ali é para entrevistar o craque, a estrela, derrubar treinador. Serviço para o leitor? Que vá buscar na internet mesmo, p*rra!!!!!!!

Tá, mas, retomando à linha central do texto. A crise econômica não vende jornal.

Ah, quer saber de uma coisa?
Horóscopo vende jornal. Palavra cruzada, também.
É sério.

Pergunta pro cara da banquinha.
Ou do IVC mesmo.
Aliás, deixa de publicar uma cruzadinha por um dia.

É o grave problema de (falta de) prioridades, não é verdade. Claro que se não sair a página de ecomia a xiadeira será grande, afinal, seu público também é exigente.

Mas o horóscopo e a cruzadinha jamais estarão na capa do jornal ou sequer vão merecer uma chamadinha lá:

"Não perca na edição de hoje, os astros prevêem uma semana maravilhosa para os piscianos".

Bom, mas entre a crise financeira, as chamadas de cruzadinha e a tríade mulher-futebol-sangue, eu, por exemplo, ficaria com as manchetes sérias.

Em mais uma prova de que jornalista não pensa como leitor comum....

20 maio 2008

O deus da pauta

Por Daniel Brito

Fui apresentado, nos últimos dias, ao deus da pauta.

Na tarde desta terça-feira, vivi um lapso presencial dele aqui na gigante redação suspensa na qual trabalho atualmente.

Um depoimento qualquer da CPI dos cartões corporartivos foi abruptamente interrompido para a exibição, ao vivo, de imagens aéreas de São Paulo com uma enorme mancha de fumaça preta descolorindo a selva de pedra.

Todos na redação se voltaram para as televisões espalhadas pela redação esperando o pior...ou o melhor mesmo! Quanto pior a notícia, melhor para o jornalista!

A GloboNews preencheu as expectativas: um avião comercial, da empresa Pantanal, caíra sobre um prédio comercial próximo ao aeroporto de Congonhas.

Editores, que já riscavam as páginas normalmente, desfizeram tudo e começaram a separar a página para mais uma tragédia da aviação na capital paulista. Repórteres apanhavam celulares, às pressas, na secretaria da redação, para cair em campo, motoristas alinharam os carros no pátio para transpor o interminável congestionamento.

Cinco ou dez minutos depois de entrar no ar com o flash 'bombástico', a GloboNews anunciou que a fumaça era originada de um incêndio numa loja de colchão. Neste momento, espalhou-se pela redação um sonoro:

Aaaaaaahhhhh

Apesar dos traumas que uma tragédia aérea causa na cidade, nas pessoas e até nos jornalistas, todos aguardavam uma notícia forte, por que não dizer triste, para explorá-la até a última gota de sangue?

Eis, portanto, a ocupação do deus da pauta.

Ele faz o mundo girar em torno de notícias extraordinárias. Como um galanteador campeão mundial de futebol ser encontrado com travestis num motel de duas estrelas. Uma criança ser atirada pela janela pelo próprio pai. Um avião perder o ponto da freada e ir de encontro a um prédio a alguns poucos metros de distância da cabeceira da pista. Ele quer que o presidente deixe sua impressão digital em transações escusas e mal explicadas.

O deus da pauta é quase um facista. Ele gosta de crescer os gigantes. No esporte, ele quer que os grandes se matem numa final eletrizante de campeonato. Não é um facista por completo porque
ele também torce para que os pequenos desmoralizem os grandes, quando eles se cruzam em momentos decisivos.

Por outro lado, já pensando no nosso lado cidadão, o deus da pauta é responsável pela guerra no Iraque, o aquecimento global, o conflito de terra na Região Norte...

É exatamente o deus da pauta que nos faz pensar que o mundo está se acabando!