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26 abril 2010

Fim de um microciclo proveitoso

Por Daniel Brito

Encerrou-se na sexta-feira, 23 de abril, meu ciclo na editoria de Cidades do Correio Braziliense. Foram cinco meses de correria tremenda e aprendizado idem que muito vão me ser úteis no desafio que se avizinha.

De dezembro de 2009 até o dia do meu desligamento do jornal passei por experiências incríveis. Os (cada vez menos) poucos leitores deste blog acompanharam uma delas sobre as madrugadas insone na porta da Polícia Federal de Brasília, à espera de alguma tragédia do governador preso, José Roberto Arruda. Texto aqui.

Fora isso, ainda tiveram mais uma madrugada dentro da futura sede da Câmara Legislativa; dias inteiros debaixo de sol em frente à casa de políticos e corruptos (perdão pelo pleonasmo); intermináveis viagens a Luziânia em busca de uma solução para o mistérios dos meninos desaparecidos; fiz ronda pelos becos de Brazlândia em busca de traficantes; almocei em Águas Lindas de Goyaz, uma das cidades mais pobres do país; contei mentiras aos nervosos camelôs de Ceilândia e Taguatinga; abordei sem-tetos que moram embaixo das pontes para reportagens que nunca saíram; vi mendigo chorar; tive grandes discussões com assessores preguiçosos (perdão pelo pleonasmo) da Esplanda dos Ministérios; presenciei várias tragédias de perto; aprendi ainda mais sobre a fantástica história de Brasília; chorei vários leads desconstruídos e esculhambados pelos redatores e subs; vibrei pela terceira, quarta e quinta vezes na carreira por matérias que me levaram a manchete do jornal.

Em cinco meses, vi tanta coisa, publiquei apenas metade delas. Nem se eu quisesse conseguiria colocar tudo aqui. Aprendi que repórter de cidades é quase como bombeiro, fica sempre à espera de uma tragédia. A diferença é que às vezes o repórter pode provocar uma tragédia, às vezes, "um pequeno mal para um bem maior", como filosofava Dostoievski.

Escrever sobre acidentes de carro ou de greve dos servidores federais num mesmo dia foi um desafio que tomei para mim, para desespero e menosprezo de alguns, mas não o considero completado. Acredito que um dia eu possa voltar a trabalhar com essa diversificação de assuntos, não exatamente greve/acidentes (daqui uns 15 anos, who knows?).

Antes, tenho um outro super desafio, e não tenho desculpas para não cumpri-lo bem.

Nesta semana me apresento à Folha de S. Paulo. Retorno à editoria de Esportes, setor no qual me especializei e atuo desde 1996, onde sei exatamente onde pisar e por as mãos para fazer um material muito mais interessante do que fui capaz de produzir em Cidades nesses cinco meses.

Desejo sorte a mim mesmo e agradeço ao Correio por ter me acolhido novamente, mesmo que por pouco tempo.


* Crédito: Iano Andrade
** Legenda: Madrugada na futura sede da Câmara Legislativa do Distrito Federal, ao lado de jornalista da Folha, que dorme na parede em frente a que eu descanso minha cabeça.

27 fevereiro 2009

Duas realidades

Por Daniel Brito

Os jornais dos Estados Unidos agonizam. Os brasileiros, comemoram recordes de vendas. Lá, eles debatem fórmulas de como voltar a atrair os leitores. Aqui, só se pensa em maneiras de conseguir mais dinheiro do governo.

Até o jornal mais influente do mundo, o New York Times, sofre com a crise do mercado. O Chicago Tribune está para pedir concordata. Com ele, iria o Los Angeles Times, que é do mesmo grupo. Bem mesmo, nos Estados Unidos, está o Wall Street Journal. Coincidência ou não, ele é voltado para o mercado financeiro.

O Brasil registra o boom dos jornais populares. Baratos, de leitura fácil, rápida e de conteúdo diversificado. Há alguns anos eles vendem mais que os grandes, Folha, Estado, Globo, e inspiram a criação de mais jornais neste estilo.

Um ex-editor da revista Time, nos Estados Unidos, acredita que o problema dos jornais impresso dos EUA é a internet. Ele propõe deixar de lado esse blablablá de que os impressos precisam mudar e sugere uma criação de um Inews: uma espécie de Ipod de notícias. Não o aparelho em si, mas a venda de notícias por centavos. Você entra no site do NYT e vê uma manchete sobre o Afeganistão que te interessa? Clica lá, paga X centavos pela notícia e lê.

Os leitores estão sendo cada vez mais esquecidos no processo jornalístico "verde-amarelo". O que importa hoje é faturar. Como a iniciativa privada não é suficiente para bater metas orçamentárias, o grosso da receita dos jornais vem dos cofres públicos. Mas essa verba não vem em forma de anúncios, e sim de artigos jornalísticos, reportagens assinadas e tidas como verdadeiras. Muitas vezes são verdadeiras, mas só interessam a quem está pagando. O jornal deixa de prestar um serviço ao leitor e por consequência à cidade, e passa a se transformar num balcão de negócios. Loteando e revendendo linhas do jornal para propaganda do governo.

O NYT escandalizou seu público ao estampar um anúncio na capa do jornal. Jamais o jornal havia permitido o departamento comercial "contaminar" o jornalístico em sua área mais nobre, a capa do jornal. Mas ou era assim, ou rolava demissões. Os jornalistas entenderam. Aparentemente. Já os leitores...

Assim como no Brasil, os jornais do Reino Unido e da Espanha também registraram aumento na tiragem e publicidade nos últimos anos. Diferentemente daqui, eles fazem um trabalho efetivo visando a convergência de mídias. Estão aí as versões on line do Telegraph, do El Mundo e do Guardian para não me deixar mentir. No Brasil, o máximo que se faz é repetir conteúdo do impresso ou apresentar um áudio ou um vídeo na internet (repetitivos) para dizer que está se adaptando à nova realidade.

Como se vê, o cenário jornalístico internacioal está bem polarizado.

Resta saber qual dos lados é mais cruel.

25 dezembro 2008

Da vaidade jornalística

Por Daniel Brito

A maior causa de mortes entre os jornalistas é o suicídio. Quando eles se atiram do alto do próprio ego.

Superestimar a profissão e sua posição dentro dela é quase que uma questão de sobrevivência. Aparece mais quem se vende melhor... (talvez por isso a gente mantenha este blog...ou não!!!!!)

Como jornalista só anda junto, não é raro participar de um papo no qual o assunto principal são as proezas pessoais.

Nesta hora, amigo velho, tudo conta. Desde a sua pergunta feita na coletiva de imprensa cuja resposta acabou virando manchete em todos os jornais, até o caso extremo de derrubar ministro, senador, governador por intermédio de seu esforço de apuração/investigação. Já houve até quem me reclamasse que leitores de jornal não prestam atenção no nome de quem assina as matérias.

O orgulho do furo dado marca a vida do jornalista. Independentemente do tamanho. Foi furo? Vira uma longa história para repórteres mais novos ou amigos de bebedeira pós-plantão. Ou posts...

Dia desses, joguei duas iscas e pesquei dois peixes gigantescos.

Entrei no blog do repórter X e comentei, com desdém, de um furo que ele se gabava de ter publicado naquele dia. Coloquei meu nome lá e tudo mais, mas sem sobrenome e meu outro email. Sem me esconder, fui lá e tasquei:

- Olha, X, se esse 'furo' for uma barrigada, você vai se retratar no jornal.

Eu, como jornalista que sofre do mesmo mal, tinha certeza de que eu estava certo e fui lá na casa do cara provocá-lo. Ele respondeu rispidamente:

- E se eu não estiver errado, Daniel, o que você vai fazer?

Dias mais tarde, o tal do furo virou um tremendo de um track e voltei ao blog do camarada, desta vez com "possidônios" (leia-se: pseudônimos), para cobrar a história. Na primeira vez que comentei, X tentou se justificar. Na segunda, não respondeu. Na terceira, nem autorizou a publicação do comentário.

É difícil admitir que errou.

O outro peixe que peguei foi com um repórter do mesmo veículo de X. Era a primeira vez que conversávamos. Atuamos na mesma área e ele rolou a bola para eu contar a história de um único furo que eu dei na vida.

Inteligentemente (às vezes eu calculo bem meus movimentos. Às vezes) citei minha história sem auto-propaganda, mas no meio da minha explicação o concorrente soltou essa:

- Ah, sim, eu dei esse furo...

Quer dizer, a história eu publiquei primeiro. Ele, duas semanas mais tarde. Mas o repórter rival tomou para si o furo e ainda veio me dizer que era furo dele.

Eu vibrei com essa declaração. Era o argumento que faltava atualizar este blog com a tese da vaidade.

Estou para descobrir qual jornalista não sofre deste mal.

12 outubro 2008

Jornal para especialistas

Por Daniel Brito

Como se jornalismo fosse uma receita de remédio para dor de barriga, diz-se que futebol (Flamengo ou Corinthians, de preferência), mulher (semi) nua e tragédia vendem jornal.

Então tá certo: vamos fazer a capa do jornal com esses três componentes todos dias?

Tem muita gente que faz. Informação que é bom...tá longe dali!

Aí começa a discussão: mas que tipo de informação?

O desespero nos mercados financeiros? O rombo na economia nos Estados Unidos?

Sim, isto é informação séria, talvez até imprescindível para um jornal. Mas, temo desanpontá-lo, não vende jornal...

Não vende!
O Estadão, a Folha, o Globo, o JB, o Correio Braziliense, o Zero Hora...que mais tem de jornal grande no Brasil? Só esses mesmos, né?

Então...o mainstream da mídia impressa nacional não está vendendo um exemplar a mais por prever o armagedon cada vez que os indicadores seguem a lei da gravidade.

O próprio ombudsman da Folha, na edição de hoje, estranhou:

"Apesar de noticiarmos a hecatombe nos sistemas financeiros do mundo inteiro, nosso fórum de leitores insiste em comentar sobre as eleições municipais e reta final do Campeonato Brasileiro de Futebol".

Ele pediu, inclusive, para que se humanizasse mais as pautas de economia, para que os leitores mudassem um pouco o foco da leitura. E até reconheceu: "O que é complicado para o jornalista, se por no lugar do leitor para 'prever' o que ele gostaria de ler".

(As aspas não foram copiadas ipsis litteris)

Não tem como ignorar a crise econômica.

Mas a impressão que ela deixa é que o jornal não é feito para os leitores comuns, aqueles que já foram chamados de Homer Simpson, mas para os especialistas que usarão as informações publicadas (muitas vezes repassadas por eles mesmos ao jornal) para sustentar teses oblíquas da realidade.

É igual aos repórteres esportivos. Que tratam do futebol como se todas as pessoas do planeta entendessem. Aliás, você já parou para prestar atenção na quantidade de informação que um texto sobre um time qualquer tem? E informação sobre como e onde comprar ingressos para o próximo jogo?

Naaaa...jornalista esportivo tá ali é para entrevistar o craque, a estrela, derrubar treinador. Serviço para o leitor? Que vá buscar na internet mesmo, p*rra!!!!!!!

Tá, mas, retomando à linha central do texto. A crise econômica não vende jornal.

Ah, quer saber de uma coisa?
Horóscopo vende jornal. Palavra cruzada, também.
É sério.

Pergunta pro cara da banquinha.
Ou do IVC mesmo.
Aliás, deixa de publicar uma cruzadinha por um dia.

É o grave problema de (falta de) prioridades, não é verdade. Claro que se não sair a página de ecomia a xiadeira será grande, afinal, seu público também é exigente.

Mas o horóscopo e a cruzadinha jamais estarão na capa do jornal ou sequer vão merecer uma chamadinha lá:

"Não perca na edição de hoje, os astros prevêem uma semana maravilhosa para os piscianos".

Bom, mas entre a crise financeira, as chamadas de cruzadinha e a tríade mulher-futebol-sangue, eu, por exemplo, ficaria com as manchetes sérias.

Em mais uma prova de que jornalista não pensa como leitor comum....

29 maio 2008

Os extremos da cobertura de um ídolo

Fazia tempo que eu não conseguia ler a Folha de São Paulo com atenção. Como assessor de uma parlamentar do DF, me preocupo com os quatro jornais diários de circulação local, as duas rádios de notícias, internet, televisão, e por aí vai. Sem contar as demandas naturais de uma assessoria, que está longe de se limitar à simples ponte entre imprensa e assessorado. Na última segunda-feira, esperava no plenário da Câmara Legislativa o início de uma audiência pública organizada pela minha chefe. Para passar o tempo, peguei o jornal paulistano.

O que eu li nas páginas de Esporte há três dias me emocionaram. Depois de anos e anos, a Folha tinha mudado de lado. Um embarque tardio na popularidade de um ídolo ímpar do esporte brasileiro. O jornal, finalmente, fazia uma cobertura honesta do tenista Gustavo Kuerten, o Guga. Foram três páginas redigidas sem exageros, com recursos de edição como opinião de colunistas, lembranças da carreira e boas matérias sobre a partida de despedida do catarinense em Roland Garros.

Durante todo o tempo que Guga ficou no topo, entre os melhores da modalidade, eu comparava duas coberturas, que pra mim estavam em lados totalmente opostos e que tinham como única semelhança o fato de estarem erradas. O grupo gaúcho RBS, que detém o monopólio da imprensa em Santa Catarina, era e é entusiasta demais. Nunca abordava os problemas de contusão, as confusões, os problemas de patrocínio de maneira adequada. Chegaram até, dando uma demonstração de absoluta falta de profissionalismo, a construir uma estátua de bronze do tenista. A família, com noção das coisas, declinou da homenagem.

No outro lado, estava a Folha. Apesar do manezinho da Ilha ser primeiro do mundo por 43 semanas, tricampeão de Roland Garros, o jornal sempre achava um motivo para bater no Guga. Lembro bem do famoso título "Guga troca ouro por dinheiro", quando ele afirmou que não iria aos Jogos Olímpicos de 2000 por não poder usar o uniforme de seu patrocinador. Tanto brigou com o Comitê Olímpico Brasileiro que sua vontade foi respeitada. Afinal, se a CBF pode usar a Nike, por que ele não usaria a Diadora?

Nem tanto ao céu nem à terra, diria o chavão. De todos os veículos, quem conseguiu fazer uma cobertura equilibrada dos 11 anos de Guga no circuito mundial foi o Estadão, onde nosso amigo DB está hoje. O motivo é bem simples. O jornal paulistano era o único que tinha um repórter que cobria tênis há um bom tempo. Os outros veículos foram pegos de surpresa. Até descobrirem como cobrir um esporte considerado elitista, para riquinhos esnobes, levou um bom tempo. Aí todos exageraram na dose. Uns a favor, outros contra. Em comum, o erro de todos.

Sei que fiquei feliz com a maneira como a Folha mudou. Hoje, com outro editor de Esporte, talvez a filosofia tenha mudado. Já a RBS continuou da mesma maneira, errando a mão nos elogios, no ufanismo. Como se Guga fosse um Policarpo Quaresma moderno. Chega a ser bizarro. Mas esses lados revelam que nossa imprensa esportiva muitas vezes não está preparada para novidades como foi o Guga. E que não consegue se ajustar no meio do caminho. Tudo que aconteceu nesses 11 anos é prova de que, na verdade, temos uma imprensa de futebol, quase cega para os tais "esportes olímpicos". O que é uma pena.

25 fevereiro 2008

Vaga hereditária

Por Daniel Brito

O New York Times publicou, na semana que passou, uma matéria sobre o neto do criador da Toyota. Akio Toyoda tem 51 anos, 24 dos quais dedicados à maior montadora de carros do Japão. Seu pai, Suichiro, já era presidente da Toyota, mas nem por isso Akio foi privilegiado na carreira dentro da empresa.

Para começo de conversa, esse japinha estudou muito. Formou-se no Japão, fez MBA em Boston e virou investidor em Nova York. "Ninguém quer ser seu chefe. Mas se você quer trabalhar aqui, que seja pelo caminho normal", avisou o velho Suichiro quando Akio expressou o desejo de integrar a "família Toyota". Aos 27 anos integrou-se ao negócio da família como trainee, diga-se.

Na reportagem, traduzida para o português e publicada no domingo na Folha de São Paulo, o repórter deu um contraponto à declaração do pai ao dizer que o sobrenome facilitou o caminho do garoto na escalada até a diretoria. Ao mesmo tempo que o texto mostra que Akio mostrou muita competência para chegar ao topo porque passou por todos os setores da indústria, "menos na engenharia".

Agora, uma pergunta:
Quem vai criticar a família Toyoda por ter colocado parentes de primeiro grau na fábrica?

Toyota é o carro importado mais vendido nos Estados Unidos, além de ser o veículo mais "popular" do Japão.

Certamente, se o velho Toyota, criador da fábrica há milhares de anos-luz, fosse um vendedor de maçãs, ele colocaria seu filho para trabalhar no ramo, até mesmo para ajudá-lo. Aí as críticas, se é que elas existem hoje, pelo "nepotismo" jamais existiriam. Seria, sim, elogiado por ser um pai atencioso, que faz de tudo para sustentar a família.

Antes que me interpretem mal, é preciso esclarecer que não defendo aqui o nepotismo "tradicional", daquele que vira manchete de jornal porque deputados empregam 12 membros da família em seu gabinete para cada um faturar R$ 5 mil por mês sem pisar no congresso. Nem o nepotismo cruzado, quando os políticos distribuem sua verba de gabinete a parentes de alguém a quem deve um grande favor.

Os pais, naturalmente, servem de inspiração para os filhos. Ronald, filho do Ronaldo Fenômeno quer ser jogador de futebol. João Paulo Diniz, filho de Abílio Diniz, é empresário. Maria Rita é cantora, como foi sua mãe, Elis Regina. Ticiane Pinheiro é modelo, assim como Helô Pinheiro, a garota de Ipanema.... Posso passar o resto do dia aqui citando exemplos.

Ao mesmo tempo que a vocação vem como herança genética, a pressão e a necessidade de mostrar mais que o familiar "famoso" fez são dobradas. Caso contrário, o herdeiro cai no ridículo. Taí Edinho, filho de Pelé, para não me deixar mentir. Isso serve em todas as áreas.

Eu, por exemplo, passei os últimos 12 anos ouvindo que só estava no jornalismo por causa do meu pai, que não é famoso, não tem uma fábrica de carro, nem nada. Apenas dirigiu uma empresa de comunicação na pequenina e heróica Paraíba e me deu um grande incentivo. Aos 15 anos, comecei na rádio. Aos 19, fui para a TV. Fui criado ouvindo que só estava no ar por causa do meu pai. Nunca me importei com isso.

Aos 22 anos, me formei e vim para Brasília. Passei por um portal de internet, dois jornais. Em um deles, o último que estava, meu pai já havia trabalhado como editor dez anos antes de minha chegada. Isso, aliás, foi motivo para eu ouvir a crítica mais criativa e ácida que já fizeram ao meu trabalho. "Existe uma vaga hereditária na editoria de esporte". Nunca deixei de fazer o que sempre gostei de fazer por causa dessa afirmação, nem quis provar nada para o autor. Evitei, inclusive, de repassar a frase ao meu editor porque ele foi um dos mais atingidos com a crítica.

Agora estou de mudança para São Paulo. Vou trabalhar com pessoas que nunca vi antes, não sabem sequer tenho pai, mas que gostaram das reportagens que eu fiz no jornal onde a vaga "é hereditária".