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25 fevereiro 2008

Vaga hereditária

Por Daniel Brito

O New York Times publicou, na semana que passou, uma matéria sobre o neto do criador da Toyota. Akio Toyoda tem 51 anos, 24 dos quais dedicados à maior montadora de carros do Japão. Seu pai, Suichiro, já era presidente da Toyota, mas nem por isso Akio foi privilegiado na carreira dentro da empresa.

Para começo de conversa, esse japinha estudou muito. Formou-se no Japão, fez MBA em Boston e virou investidor em Nova York. "Ninguém quer ser seu chefe. Mas se você quer trabalhar aqui, que seja pelo caminho normal", avisou o velho Suichiro quando Akio expressou o desejo de integrar a "família Toyota". Aos 27 anos integrou-se ao negócio da família como trainee, diga-se.

Na reportagem, traduzida para o português e publicada no domingo na Folha de São Paulo, o repórter deu um contraponto à declaração do pai ao dizer que o sobrenome facilitou o caminho do garoto na escalada até a diretoria. Ao mesmo tempo que o texto mostra que Akio mostrou muita competência para chegar ao topo porque passou por todos os setores da indústria, "menos na engenharia".

Agora, uma pergunta:
Quem vai criticar a família Toyoda por ter colocado parentes de primeiro grau na fábrica?

Toyota é o carro importado mais vendido nos Estados Unidos, além de ser o veículo mais "popular" do Japão.

Certamente, se o velho Toyota, criador da fábrica há milhares de anos-luz, fosse um vendedor de maçãs, ele colocaria seu filho para trabalhar no ramo, até mesmo para ajudá-lo. Aí as críticas, se é que elas existem hoje, pelo "nepotismo" jamais existiriam. Seria, sim, elogiado por ser um pai atencioso, que faz de tudo para sustentar a família.

Antes que me interpretem mal, é preciso esclarecer que não defendo aqui o nepotismo "tradicional", daquele que vira manchete de jornal porque deputados empregam 12 membros da família em seu gabinete para cada um faturar R$ 5 mil por mês sem pisar no congresso. Nem o nepotismo cruzado, quando os políticos distribuem sua verba de gabinete a parentes de alguém a quem deve um grande favor.

Os pais, naturalmente, servem de inspiração para os filhos. Ronald, filho do Ronaldo Fenômeno quer ser jogador de futebol. João Paulo Diniz, filho de Abílio Diniz, é empresário. Maria Rita é cantora, como foi sua mãe, Elis Regina. Ticiane Pinheiro é modelo, assim como Helô Pinheiro, a garota de Ipanema.... Posso passar o resto do dia aqui citando exemplos.

Ao mesmo tempo que a vocação vem como herança genética, a pressão e a necessidade de mostrar mais que o familiar "famoso" fez são dobradas. Caso contrário, o herdeiro cai no ridículo. Taí Edinho, filho de Pelé, para não me deixar mentir. Isso serve em todas as áreas.

Eu, por exemplo, passei os últimos 12 anos ouvindo que só estava no jornalismo por causa do meu pai, que não é famoso, não tem uma fábrica de carro, nem nada. Apenas dirigiu uma empresa de comunicação na pequenina e heróica Paraíba e me deu um grande incentivo. Aos 15 anos, comecei na rádio. Aos 19, fui para a TV. Fui criado ouvindo que só estava no ar por causa do meu pai. Nunca me importei com isso.

Aos 22 anos, me formei e vim para Brasília. Passei por um portal de internet, dois jornais. Em um deles, o último que estava, meu pai já havia trabalhado como editor dez anos antes de minha chegada. Isso, aliás, foi motivo para eu ouvir a crítica mais criativa e ácida que já fizeram ao meu trabalho. "Existe uma vaga hereditária na editoria de esporte". Nunca deixei de fazer o que sempre gostei de fazer por causa dessa afirmação, nem quis provar nada para o autor. Evitei, inclusive, de repassar a frase ao meu editor porque ele foi um dos mais atingidos com a crítica.

Agora estou de mudança para São Paulo. Vou trabalhar com pessoas que nunca vi antes, não sabem sequer tenho pai, mas que gostaram das reportagens que eu fiz no jornal onde a vaga "é hereditária".