20 fevereiro 2010
Desconstruindo o glamour em um plantão noturno
20 dezembro 2009
Entre o pragmatismo e a paixão
07 novembro 2009
With a little help from my friends
24 abril 2009
Retroceder nunca. Render-se, jamais!
Isso acontece muito em TV. A produção tem um super trabalho de fazer uma pauta bem amarradinha para o repórter só finalizar 'para as redes'. Mas alguma coisa no local não está conforme a previsão do produtor. É o suficiente para o preguiçoso ligar para a redação derrubando tudo:
- Olha, o entrevistado disse que tá com a voz rouca e quer que eu fale com o sub-gerente. Vou derrubar a pauta, viu?
Do outro lado, o pobre do produtor se esguela, educadamente, para que o repórter tenha bom senso e deixe de preguiça.
- Não, com o sub-gerente também dá. Pega as informações do gerente e faz a sonora com o sub, não tem problema...
O repórter já fica chateado achando que sabe mais que todo mundo e faz mesmo assim para não perder a razão.
É muito fácil identificar um derrubador de pautas. Aliás, é mais fácil ainda derrubar pautas. Quem nunca derrubou uma pauta que atire a primeira pauta.
Tudo é motivo para desmoroná-la:
Rouquidão, falta de tempo, muito barulho, perigo no local, dor de dente, coqueluche, têtano, difeteria...
Eu mesmo tenho vergonha de dizer que não consegui a informação pedida pelo chefe. Tenho mesmo. Não sou o maior exemplo de profissional, mas, né... Se eu chegar ao ponto de derrubar uma matéria foi porque eu tentei por todos os lados. Falei com o gerente, o sub, o faxineiro, a esposa do faxineiro, o ex-funcionário da empresa, o ex-vizinho do bisneto do fundador da empresa. Aliás, faço até um pouco de marketing pessoal quando vejo que as coisas não tão dando certo e, depois de determinado momento na apuração, começo a informar o editor passo a passo do processo. Até para não ser acusado injustamente.
Certa vez, me pediram para falar com o filho de um cara famoso que havia sido internado após uma overdose. Não fazia a mínima idéia de encontrar o garoto. Liguei para os ex-companheiros de trabalho do drogado, apurei alguma coisa para compor o texto. Liguei para o trabalho do filho, mas não obtive informações. Uma alma bondosa veio do outro canto da redaçào e me passou o telefone do garoto (garoto entre aspas).
Depois de 87 ligações em vão (Claro informa, este número não existe), desisti e avisei que tinha só o miolo do texto. O abre, o depoimento do filho, não havia conseguido e pedi para o chefe ligar naquele número para comprovar que ele não batia bem da cuca (ele que eu digo é o número). O editor entendeu e me pediu apenas dois singelos parágrafos sobre o fato. Alguém se contorceu para tentar falar com o rapaz...e não conseguiu também.
O ato de desconstruir pautas com justificativas tão ridículas gera uma cultura muito inconveniente para as demais gerações. Todo mundo já ouviu um repórter reclamar:
- Meu jornal é o único em que o editor não confia na palavra do repórter.
Certamente porque o reportareado de décadas atrás deve ter mentido tanto e levado tanto furo por causa desse jeito acomodado de ser, que os chefes perderam a confiança em seus subordinados. E a gente sabe que confiança só se dá uma vez, não é verdade?
Bom, graças aos preguiçosos que surgiu essa vertente tào óbvia do jornalismo: o investigativo.
Ora, se é jornalismo, é porque teve apuração.
Se teve apuração, não deixa de ser uma espécie de investigação.
Acontece que tem tanta gente engolindo o oficial - aquela meia verdade (ou meia mentira) que vem nos releases - que o ato de futucar um pouquinho mais a fonte para descobrir o que está por trás daquele texto oficial virou 'jornalismo investigativo'. Engolir o oficial é uma maneira de não derrubar a pauta não deixa de ser uma improvidência.
Ou seja, os mal apurados, os preguiçosos, os parasitas de redações deram aos interessados o direito de se enquadrar no jornalismo investigativo.
Mas é claro que o jornalismo investigativo é muito mais do que correr atrás das notícias fáceis mas disfarçadas. Mas isso é assunto para outro post...Deus sabe lá quando!
03 fevereiro 2009
Quem aceita crítica
Aqueles que mais destilam suas críticas são os que menos aceitam críticas. Sim, os jornalistas são avessos a comentários contra seu próprio trabalho.
Alguma coisa neste sentido já foi dita dois posts atrás, sobre a vaidade jornalística.
Eu mesmo passei por uma situação semelhante há dois anos, aqui neste blog. Fiz um comentário sobre o vencedor do Prêmio Esso de 2006 inocente, sem segundas intenções, sem duplo sentido. Apenas um relato da conquista do prêmio, e recebi um comentário anônimo pedindo para eu me explicar melhor.
Fiquei p*to da vida e rebati o comentário. De réplica e tréplica, o post chegou a 14 comentários, quase um recorde para esse humilde e (agora) esquecido espaço. Em uma das respostas do anônimo, ele disse "Daniel, acompanho o blog há algum tempo e não fiz crítica alguma ao seu texto, apenas pedi para que sua opinião fosse um pouquinho mais aprofundada".
É difícil ver jornalistas que seguram a onda diante de críticas. Eu mesmo, nesta história do Esso, me embananei todo com as idéias e com a pressão dos anônimos. Comecei a escrever errado, a falar besteira, mesmo reforçando que estava apenas contando uma história e não julgando a conquista de ninguém.
Anyway, ainda há os que gostam de brigar. Partem para a agressão verbal, às vezes física, diante dos comentários negativos sobre seu material publicado.
Não entender e não dar ouvidos aos críticos faz parte daquela máxima jornalística cujos problemas do jornal são "os leitores e os anúncios".
Uns quatro anos atrás, mandei um email para um jornal da Paraíba reclamando que a repórter confudiu as bolas e errou informações. Era para falar sobre alhos e ela escreveu sobre bugalhos. O editor do jornal me respondeu rispidamente com as seguintes palavras:
"É incrível como as pessoas gostam de se meter em certos assuntos..."
A culpa era minha por apontar o erro.
Acontece muito com produtos recém-lançados. Há todo um planejamento de marketing, estudo de mercado e tendências do público para que aquele jornal ou programa de TV seja lançado da melhor maneira possível. Aí vem uma cartinha para o editor dizendo que o jornal é apelativo ou sei lá qualquer coisa que não fora prevista no estudo dos marqueteiros.
A redação se desespera com o comentário e nos dias seguintes toda pesquisa de campo pré-lançamento vai por água abaixo. Por quê??? Uma alma bondosa se pronunciou sobre o produto.
Até cinco, oito anos atrás, quando os blogs jornalísticos não eram tão populares, a distância do repórter para o público era infinita. Não se via, não se ouvia, não se lia nada do lado de lá, para quem interessa a notícia. Era preciso contar com a disposição do leitor de escrever uma carta, ir ao correio, mandá-la para a redação e torcer para ser publicada. Se fosse crítica, não seria compreendida.
A história está bem diferente hoje em dia. Graças à internet, o público se sente na obrigação de participar do processo. Não só criticando, mas sugerindo, cobrando, indicando, perguntando, respondendo...
Eu, como jornalista, ainda tenho dificuldades em assimilar as críticas. Mas ainda assim gostaria de contar com elas sempre.
29 outubro 2008
No statements
Foi a segunda vez que passei por essa situação. Fazer campana no saguão de um hotel luxuoso para tentar conversar com a estrela.
Jornalista, que já gosta de reclamar (ainda mais os paulistas), não hesita em desistir facilmente da missão. Mesmo sabendo que a persistência pode render um belo furo internacional.
Depois de passar um dia de paparazzi esperando por Maradona, no Kubitscheck Plaza, em Brasília, há dois anos e meio, encarnei o espírito de repórter de Contigo! ontem, no Hilton São Paulo, para esperar Lewis Hamilton, o próximo campeão da Fórmula 1.
Não sou muito de reclamar de pautas. Me mandou fazer, eu vou lá e tento fazer do meu jeito. Mesmo que não valha muita coisa. É claro que tem umas sugestões que você engole atravessado para não receber seu FGTS integral, mas no cômputo geral, aceito sugestões e não faço corpo mole.
A missão de ontem, no entanto, era para lá de ingrata. Conversar com Lewis Hamilton.
Umas cinco horas antes, ele desembarcara de surpresa em São Paulo para despistar a torcida (temia retaliações por disputar o título contra um brasileiro no Brasil, na última corrida do ano). Deu declarações irônicas e exclusivas ao globoesporte.com sobre a ausência da torcida e se enclausurou em seu nababesco quarto no imponente Hilton Morumbi.
Cheguei por lá às 13h30 quase convencido de que voltaria para redação, lá pelas 21h, sem escrever uma linha de novidade sobre a história.
Aquela monotonia acolchoada no sofá do saguão principal foi quebrada duas horas mais tarde quando Nelsinho Piquet apareceu de óculos escuros e boné. Lacônico, respondeu três perguntas andando apressado em direção ao seu Audi e foi embora.
Bom, pensei, uma matéria nova eu já tenho.
Minutos mais tarde surgiu Heikki Kovalainen, finlandês, parceiro de Hamilton.
Abordar essas figuras "importantes" no meio do nada ou num hall de entrada do hotel é quase como ser interpelado por uma mendigo fedorento na porta de casa. Sim, porque esses pilotos vivem em hotéis pelo mundo e a imprensa sabe exatamente os horários reservados para entrevistas. Eles não ficam distribuindo declarações a quem quer que peça.
No Brasil que rola essa insistência. Talvez porque, me disseram, a Fórmula 1 seja o principal evento da principal cidade do País.
Bueno...timidamente, chamei por Heikki, que se virou assustado, olhou para meu bloquinho na mão esquerda e a caneta, na direita, e disse, em inglês:
- Sim, pois não!
- Ahn... (gaguejei..confesso). I'm journalist, and I was wondering....
O segurança do hotel, um cara de uns 2,35m de altura, aproximadamente, ficou entre nós dois e tentou interromper a conversa.
Antes, perguntei sobre a prova de domingo.
Ele, quase que empurrado pelo segurança, me pediu desculpas por não poder dar entrevista mas disse que será uma corrida interessante.
O tempo se arrastou até às 19h15. De 16h50, depois que Heikki e Nelsinho conversaram comigo, negociei com a redação e chegamos a conclusão que minha matéria seria sobre a truculência dos seguranças do hotel (que sequer permitiam fotos no saguão ou que mostrassem a porta principal, desautorizava os funcionários a passar informações sobre os pilotos e me impedia de abordar os caras no hall de entrada). Decidiram por mim, também, que minha matéria passaria o recibo do furo dado pela internet, com a única declaração dada por Hamilton ao chegar no Brasil.
Escrito o texto, com severas críticas aa atuação dos seguranças, e com a reclusão de Hamilton por toda a tarde, eis que surge no saguão Lewis Hamilton.
Colei nele. Fiquei a dois metros dele por meia hora. Aproveitei uma soneca dos seguranças e fiquei ali esperando ser visto. Aí se sucedeu o grande conflito. Partiria logo para o ataque e faria minhas duas perguntinhas com meu inglês macarrônico, esperaria a sua ida para o carro para conversar já de saída, sem que tivesse que trocar cotoveladas com os seguranças?
Optei, não sei porque, pela segunda opção. Esperei, como disse, trinta minutos por Hamilton sair do saguão para tentar minha entrevistar relâmpago. Saí na cola dele fazendo quinze perguntas em inglês. Ele sequer olhou na minha cara, entrou no banco de trás de sua Mercedes-Benz prateada, fez o sinal de positivo para os fotógrafos e avisou ao pobre repórter plantonista:
- Sem declarações.
Crédito: Ernesto Rodrigues
15 setembro 2008
A vida dos outros
Chama-se Macarrão o modelo de anúncio que ocupa metade da primeira página do jornal e seu valor banca toda a redação do jornal. Num flagrante de contradição que é fazer jornalismo sem a influência do departamento comercial, é possível achar graça no jogo de disse-me-disse em alguns dias na semana.
Em metade da primeira página está estampada a grande oferta de carros nas concessionárias e na outra, a manchete estarrecedora:
- São Paulo enfrenta o maior engarrafamento do ano.
Qual das duas informações têm mais peso para o leitor?
Eu aposto na primeira.
São as nuances da profissão que escolhemos.
Um jornal de Brasília não teve pudor em manchetar que o Supermercado X iniciaria um processo de corte de gastos e demitiria (pasmem!) 80 funcionários. Lá dentro, tinha uma análise sobre a escalada do desemprego no DF e todos esses bla bla blas sociais.
Acontece que láááá dentro, agora eu me reviro à estrutura física da empresa, ao chão da fábrica, a situação era ainda pior. Não só os jornalistas, mas os funcionários do deparamento industrial, marketing, transporte...Mais da metade da empresa foi presa fácil do passaralho que transformou a empresa em jornal de bairro. Ou qualquer coisa parecida.
Isso não estava na manchete, nem na análise.
Um veículo midiático paulista fez uma longa reportagem sobre o aumento no número de contratações de pessoas jurídicas, o que nós, jornalistas, chamamos de frilas.
O detalhe: o repórter era um personagem perfeito para a matéria que ele mesmo escreveu. Havia quatro anos era funcionário sem carteira assinada. Assim como metade da redação...
Recentemente estive próximo do olho de um grande furacão. Plano de Demissão Voluntária na redação. Que de voluntária só tinha o nome. Eu estou longe de ser contemplado por esse programa, mas o fato é que a redação ficou em polvorosa com a especulação do nome das vítimas.
Nesse mesmo dia, nós lá da editoria de esportes, noticiávamos a lista de dispensados do São Paulo, eliminado da Libertadores da América. Não me lembro bem se era do São Paulo. Algum time 'demitia' seus atletas por algum motivo.
Só sei que é assim: sabemos tudo sobre os outros.
Nada sobre nós mesmos.
PS - Dizem (eu escrevi 'dizem') que vai rolar um novo PDV em dezembro. Mas não há ninguém para nos confirmar....
13 agosto 2008
De volta ao tradicional
Aprendemos na faculdade a hierarquizar informações dentro de um texto. Para isso, existe a tal da pirâmide invertida. As informações mais importantes têm de ser aglomeradas nos primeiros parágrafos com o uso do tradicional:
- o quê;
- como;
- quando;
- onde;
- por quê.
É, convenhamos, a maneira mais fácil de se escrever um texto jornalístico. Fazer como um boletim de ocorrência.
"Morreu, ontem, aos 92 anos, o senhor José das Couves*, vítima de um enfarto agudo do miocardio. Das Couves era médico sanitarista e havia contraído a doença de chagas cinco anos atrás, durante uma expedição pela região do Curimataú. Deixa duas viúvas, cinco filhos, 14 netos e oito bisnetos."
Acabou-se. A notícia tá toda ali. Daí você pega o atestado de óbito de Zé das Couves e está quase igual ao texto do jornal. Ocorre o mesmo com notícias policiais.
"Um homem, aparentando ter 33 anos, assaltou ontem a sorveteria Gela Guela*, em Puxinanã. Armado de revólver calibre .38, ele ameaçou os clientes e chegou a agredir o gerente da loja com uma coronhada. No assalto, foram levados 1,5 mil reais em espéciea, além de celulares dos clientes e um computador. A polícia ainda não tem pistas do criminoso".
É possível ler esse tipo de notícia t-o-d-o-s os dias nos jornais do mundo inteiro. E nos boletins de ocorrência do distrito policial mais perto de você.
Pessoalmente, tenho várias restrições a esse tipo de lide. Se eu parar para prestar atenção numa notícia publicada nesse estilo, não avanço mais que o primeiro parágrafo. Também sou da tese que informação demais no parágrafo inicial super-lota a cabeça do leitor (sem querer subestimá-lo), além de desidratar o resto da reportagem.
Os conversadores e/ou adeptos da prática defendem, contudo, que lides assim são comuns em edições semanais dos jornais, quando o leitor não tem tempo para ler um texto mais temperado, com as notícias distribuídas entre os parágrafos e detalhes que vão além do boletim de ocorrência. Esses escritos, já ouvi opiniões nesse sentido, são melhores aproveitados (ou seja, lidos) nas edições dominicais, quando se tem tempo para sentar no sofá e ler o jornal de cabo a rabo.
Para quem tá tomando café, com pressa para levar os filhos no colégio, para depois passar no banco e pagar a multa do Detran porque foi pêgo pelo bafômetro, depois bater o cartão no trabalho às 9h15, a notícia tem que vir assim mastigada mesmo.
Parece simples produzir um abre de página tão direto assim. Mas eu não simplesmente não consigo me adaptar. Penso que todas as histórias tem um ponto mínimo central que liga todas as versões dos fatos.
Um ano atrás, dei dois exemplos (exemplo 1 e exemplo 2) de tentativas frustradas para fugir do lide tradicional. Em algumas vezes, que não foram registradas aqui no blog, eu consegui encontrar um gravetinho no meio da história que esquentava o texto ao ponto de virar uma fogueira. Sem me queimar...até onde eu sei.
Há seis meses trabalhando em uma das mais tradicionais empresas jornalísticas do país, tenho tido dificuldades em manter meu estilo. O que os editores costumam chamar de lide de revista, difuso, com estilo, digamos, heterodoxo de apresentar as informações, não é muito o perfil da empresa.
Em recente cobertura no Rio de Janeiro, tive que ouvir da redação que meu texto estava confuso. É que eu comecei com um detalhe que justificava a informação principal, que estava no segundo parágrafo. Pode até ser chamado de nariz-de-cera, mas o lide continha informações e não era apenas um apêndice. Assim eu entendi. E uma outra pessoa que leu a versão original.
Mas fugia do tradicional. O pai-de-família não teria tempo para ir ao colégio, ao banco e ao trabalho e ler a matéria com aquele abre. Optaram pela pirâmide invertida e as inefáveis cinco perguntas.
Tenho que me adaptar ao estilo, porque não vou conseguir fazer um editor de 50 anos dentro do jornalismo mudar de idéia por minha causa.
Ou então, eu mudo de empresa...
* Os nomes são meramente ilustrativos. Qualquer semelhança com a realidade é uma mera coincidência.
04 julho 2008
Complexo de FHC
Os primeiros meses do mandato de Fernando Henrique Cardoso na presidência surpreenderam aqueles que esperava ver um professor de sociologia colocando em prática tudo que pregara em teses, dissertações, aulas, livros e discursos lá pelos idos das décadas de 1960 e 1970.
De um sociólogo, da 'social democracia brasileira', esperava-se um mandato voltado ao social. Mas não foi bem isso o que rolou.
FHC tem seus méritos, mas extingüir a presença do estado em determinados setores, entregá-los (esses setores) ao capital privado, massacrar a classe média e baixa com mais e mais tributos, fizeram os jornalistas questionarem FHC sobre seu passado teórico.
Eis que o ex-presidente respondeu:
"Esqueçam o que eu escrevi".
Não estou aqui para atacar PSDB, nem defender a política assistencial-esmoléu do atual governo, apenas fazendo uma apresentação ao tema principal deste post.
Vamos trazer a história para um contexto muito mais próximo da nossa realidade. Quando FHC disse o que disse, ele colocou na boca dos chefes (no nosso caso, na redação) tudo o que eles precisavam para esquecer que um dia foram repórteres.
É, tudo bem, nem todo editor foi repórter um dia, mas a carreira dele teve um início e nessa época ele tinha um chefe, no mínimo.
Só pode ser esse o motivo pelo qual os chefes perdem o senso de realidade do cotidiano de um repórter para pedir as coisas mais esdrúxulas do mundo.
Para não comprometer muito, vamos transformar nossa história em uma metáfora futebolística.
Seria algo como se um treinador de um time de futebol falasse:
"Quero que você seja o artilheiro do time. Vai aparecer na hora que a gente mais precisar, tá bom? Quando tiver um escanteio, você mete a bola na área e corre para cabecear. Confio em você, garotinho"
O treinador se esquece que para bater BEM o escanteio na área, é preciso treinar por horas, dias; é preciso repetir o movimento centenas de vezes em dia de jogo, inclusive. O pior é que o comandante se esquece, também, que o jogador só pode bater o escanteio ou só pode cabecear. Mesmo que o time todo seja de baixinhos, o cobrador não pode fazer nada a não ser meter a bola na área e torcer para que um anão, companheiro de equipe, suba mais alto que a zaga adversária e complete para as redes.
E se o cobrador inventar de dizer que é humanamente impossível bater e correr para área, ele passará por um belo de um constragimento perante os companheiros porque o treinador, nos tempos em que era jogador, costumava fazer isso muito bem.
Com um detalhe: "naquela não existia o Google, hein?".
E o pobre do jogador tem que ouvir aquilo e consentir, mesmo sabendo que não passa de uma grande e mal feita lorota.
Cinco anos após me formar em jornalismo, 13 anos após desempenhar a função jornalística pela primeira vez, fico pensando se algum dia eu me tornasse treinador eu cometeria esse descalabro de pedir para esquecer tudo que escrevi e daria tais orientações aos meus comandados?
Bueno, não há sinal algum de que serei editor um dia...ops, perdão, "treinador". Nem tenho essa pretensão, by the way.
Mas encerro esse texto com algumas certezas:
- É muito mais fácil ser chefe só para cobrar.
- Não se tem registro de um jogador (a não ser Didi, num de seus filmes duas décadas atrás) que tenha consiguido marcar um gol batendo o corner e chegando na área para cabecear.
- A chefia jamais vai deixar de pedir por esta jogada. Jamais.
- Fui contaminado (em parte) pelo colaborador Jorge Wilstermann.
25 junho 2008
Punição aos veteranos
Desde que inventaram essa história de país do futuro, uns cinqüenta anos atrás, foi estabelecida a ordem das coisas no Brasil. Ordem, aliás, ao avesso, como deve ser a ordem no Brasil.
Senão, vejamos.
Você passará a vida inteira se dedicando a algo até, depois de 35 anos de prestação de serviços, esperar uma recompensa para passar suas últimas décadas ou últimos anos de vida em paz e com a consciência tranqüila de dever cumprido.
Deveria ser assim.
Mas no Brasil, é preciso trabalhar mais que 35 anos para se aposentar, pagar uma bela parcela de seu salário para garantir uns trocados na velhice, e quando ela (a velhice) chega é preciso continuar pagando para receber.
Aliás, isso é uma das grandes fraudes do atual governo, que continua cinicamente taxando os inativos, quando passou duas décadas esperneando pelo fim do imposto.
Não adianta reclamar. As coisas simplesmente funcionam assim do lado de cá do Equador.
A iniciativa privada também adota o hábito de punir os veteranos, em vez de "premiá-los" pelo tempo de serviço.
Veja o exemplo da empresa para a qual eu dou minha humilde contribuição. Adotou pela segunda vez, após dois anos, o famigerado Plano de Demissão Voluntária (PDV), que de voluntária só tem o nome.
Caras que pelos últimos 20 anos deixaram parte de sua história pessoal naquela redação foram convidados a se retirar com uma bela grana no bolso, é bem verdade, mas seus esforços em fazer um jornal melhor acabaram em demissão.
Não tô defendendo aqui a sacrificação de novatos em detrimento dos veteranos. Mas, um tratamento diferenciado aqueles que fomentaram o nome e o respaldo da empresa perante a sociedade.
Alguém já me disse que relacionamento entre iniciativa privada e funcionário é como namorar com uma mulher gostosa mas de origem desconhecida. Por mais que você goste dela, dê tudo a ela, faça tudo que estiver a seu alcance para agradá-la, a vagabunda pode te dar um pé na bunda a qualquer momento por um motivo desconhecido, porque ela acha que tem sempre alguém que pode fazer mais por ela, por muito menos. (Vide o texto do nosso colaborador andino Jorge Wilstermann, no post abaixo)
20 maio 2008
O deus da pauta
Fui apresentado, nos últimos dias, ao deus da pauta.
Na tarde desta terça-feira, vivi um lapso presencial dele aqui na gigante redação suspensa na qual trabalho atualmente.
Um depoimento qualquer da CPI dos cartões corporartivos foi abruptamente interrompido para a exibição, ao vivo, de imagens aéreas de São Paulo com uma enorme mancha de fumaça preta descolorindo a selva de pedra.
Todos na redação se voltaram para as televisões espalhadas pela redação esperando o pior...ou o melhor mesmo! Quanto pior a notícia, melhor para o jornalista!
A GloboNews preencheu as expectativas: um avião comercial, da empresa Pantanal, caíra sobre um prédio comercial próximo ao aeroporto de Congonhas.
Editores, que já riscavam as páginas normalmente, desfizeram tudo e começaram a separar a página para mais uma tragédia da aviação na capital paulista. Repórteres apanhavam celulares, às pressas, na secretaria da redação, para cair em campo, motoristas alinharam os carros no pátio para transpor o interminável congestionamento.
Cinco ou dez minutos depois de entrar no ar com o flash 'bombástico', a GloboNews anunciou que a fumaça era originada de um incêndio numa loja de colchão. Neste momento, espalhou-se pela redação um sonoro:
Aaaaaaahhhhh
Apesar dos traumas que uma tragédia aérea causa na cidade, nas pessoas e até nos jornalistas, todos aguardavam uma notícia forte, por que não dizer triste, para explorá-la até a última gota de sangue?
Eis, portanto, a ocupação do deus da pauta.
Ele faz o mundo girar em torno de notícias extraordinárias. Como um galanteador campeão mundial de futebol ser encontrado com travestis num motel de duas estrelas. Uma criança ser atirada pela janela pelo próprio pai. Um avião perder o ponto da freada e ir de encontro a um prédio a alguns poucos metros de distância da cabeceira da pista. Ele quer que o presidente deixe sua impressão digital em transações escusas e mal explicadas.
O deus da pauta é quase um facista. Ele gosta de crescer os gigantes. No esporte, ele quer que os grandes se matem numa final eletrizante de campeonato. Não é um facista por completo porque
ele também torce para que os pequenos desmoralizem os grandes, quando eles se cruzam em momentos decisivos.
Por outro lado, já pensando no nosso lado cidadão, o deus da pauta é responsável pela guerra no Iraque, o aquecimento global, o conflito de terra na Região Norte...
É exatamente o deus da pauta que nos faz pensar que o mundo está se acabando!
17 abril 2008
Eu vivo para trabalhar
Todo dia eu faço tudo sempre igual, me sacudo às 8h da manhã....
Desço na banquinha, na Venâncio Aires, sete andares abaixo da minha janela, e compro o JT e o Estadão. Leio o caderno de esportes dos dois de cabo a rabo. Vejo as fofocas em Variedades no JT, folheio as notícias sobre o trânsito e passo para o Estadão. Leio as colunas do caderno de Cultura, as críticas de cinema e passo para Economia. Passo os olhos no noticiário, demoro mais cinco minutos no caderno de cidades e vou para o primeiro caderno. Leio a editoria de Internacional, dou uma bizurada em política e paro nas páginas 2 e 3 para ler Opinião.
Enquanto acesso aa internet, ligo no SporTV para saber o que rolou nos outros jornais. Almoço pensando na pauta do dia e chego no jornal com pelo menos um texto na cabeça.
Depois de oito, nove horas de expediente, volto para casa pensando no que escrevi.
Resumindo: eu vivo para trabalhar.
Dizem que os cariocas são os que melhor sabem viver, porque, sabem exatamente o que fazer quando não estão trabalhando. Vão malhar, vão correr com o cachorro na praia, vão remar na Lagoa Rodrigo de Freitas, vão tomar UM chopp, vão escalar a Pedra da Gávea...opção não falta!
Eu realmente admiro as pessoas que sabem encaixar a vida normal aos horários do trabalho. Porque, no final das contas, todo mundo vive para trabalhar. No meu caso, eu não reclamo porque fico muito satisfeito quando produzo algo novo. E o jornalismo me dá essa possibilidade.
Não é o caso de um cara que trabalha numa empresa de contabilidade, que passa 15 dias preparando um balancete, ou até mesmo um arquiteto - que é uma profissão sensacional - que demora meses produzindo um super-prédio no estilo neo-clássico. Ou até mesmo um bancário, que todo dia salva ou mata vida de um monte de gente, mas faz algo todo dia, nao é verdade, Da Silva?
No jornalismo tem aquela história de que tem que ser "repórter 24 horas por dia". Se cair um avião aqui em cima da banquinha na Venâncio Aires, agora de madrugada, eu vou lá embaixo apurar de qualquer maneira e NÃO vou cobrar hora extra. Muito pelo contrário.
Bom, deixa eu encerrar o assunto de hora extra nesta linha porque isso é muito controverso para jornalistas.
Aliás, se cair um avião na banquinha da Venâncio Aires, minha rotina vai mudar porque vou ter que procurar outro lugar para comprar o jornal.
Anyway, minha vida é regida pela redação. Pelos horários, temas, furos sofridos, entrevistas para cavar...
Todos os dias eu chego aa conclusão de que poderia ter feito muito melhor daquele jeito ou daquele outro. Durmo pensando no texto que vai ser publicado, para no outro dia acordar aas 8 da manhã e começar tudo de novo!
03 março 2008
100% notícia?
Por Pedro Henrique Freire
Pode ser controverso, mas é verdadeiro: jornalistas de redação são apaixonados por notícia. Mas só vão atrás dela por dinheiro. Mais controverso ainda: indignam-se quando o jornal tolera o indesejável em busca da sobrevivência. Pura contradição: trabalham por dinheiro (salário) e contra o que lhes dá dinheiro (parcerias).
Mas tudo isso, em tese, claro. Existem aqueles que vão atrás da notícia porque adoram dar furo, apreciam a adrenalina da investigação ou simplesmente gostam de descobrir, escrever e ver seu nome assinando uma informação exclusiva. Mas nada disso seria possível sem um salário, até para viabilizar a produção.
Falo porque é comum escutar jornalistas sentarem à mesa de um bar para criticar a empresa para qual trabalham. Eu mesmo sou um deles. Mergulho em profunda irritação quando vejo que uma boa pauta foi sacada das páginas “em prol da estabilidade” empresarial. Não acho que devamos esconder a verdade para encher os cofres do jornal.
Por isso, porém, pensando friamente, chego a dizer que somos potenciais “quebradores” de mídias privadas. Arrisco-me a achar que até posso entender a reação de alguns dirigentes.
Lá vai:
Imagine-se trabalhando numa empresa cuja principal parceria pode desmoronar após a primeira “coça” que o tal parceiro levar do jornal. O chefão, aquele que no final diz o que pode ou não ser publicado contra quem sustenta a empresa, lembra que terá dificuldades em sustentar os 100, 500 ou 1000 funcionários que ali trabalham (inclusive você) caso desagrade o tal parceiro. O que ele faz? Arrisca-se?
Duvido. Manda vetar a matéria. Sobretudo se ele não for jornalista, mas, sim, um hábil negociador.
Para nós, que estamos ali no “chão de fábrica”, é difícil entender como um jornal “se vende fácil”. É porque estamos distantes das decisões da empresa. Olhamos só uma parte do processo.
Enrolo tudo isso pra dizer que a natureza do jornalista é combativa, mas somos humanos, com necessidades, limites e desejos. Portanto, ao menos uma vez na vida, iremos colocar a notícia em segundo plano e pensar simplesmente no dinheiro.
***
Temos que ser honestos: nossa profissão é pura sorte. Se hoje você entra numa redação, não pode imaginar que ficará por lá a vida toda. Não pode prever que será um fenômeno do jornalismo a ponto de ganhar rios de dinheiros. Às vezes acontece. Às vezes, não.
Para quem não tem tanta sorte, mesmo depois de tantas cervejas e tantas críticas que fez a sua empresa e elogios à “mídia combatente”, poderá ser seduzido por uma assessoria, que dará estabilidade e qualidade de vida que lhe permitam brincar com seu filho aos domingos, sábados ou buscá-lo na escola no final da tarde.
Humildemente...