Por Pedro Henrique Freire
Pode ser controverso, mas é verdadeiro: jornalistas de redação são apaixonados por notícia. Mas só vão atrás dela por dinheiro. Mais controverso ainda: indignam-se quando o jornal tolera o indesejável em busca da sobrevivência. Pura contradição: trabalham por dinheiro (salário) e contra o que lhes dá dinheiro (parcerias).
Mas tudo isso, em tese, claro. Existem aqueles que vão atrás da notícia porque adoram dar furo, apreciam a adrenalina da investigação ou simplesmente gostam de descobrir, escrever e ver seu nome assinando uma informação exclusiva. Mas nada disso seria possível sem um salário, até para viabilizar a produção.
Falo porque é comum escutar jornalistas sentarem à mesa de um bar para criticar a empresa para qual trabalham. Eu mesmo sou um deles. Mergulho em profunda irritação quando vejo que uma boa pauta foi sacada das páginas “em prol da estabilidade” empresarial. Não acho que devamos esconder a verdade para encher os cofres do jornal.
Por isso, porém, pensando friamente, chego a dizer que somos potenciais “quebradores” de mídias privadas. Arrisco-me a achar que até posso entender a reação de alguns dirigentes.
Lá vai:
Imagine-se trabalhando numa empresa cuja principal parceria pode desmoronar após a primeira “coça” que o tal parceiro levar do jornal. O chefão, aquele que no final diz o que pode ou não ser publicado contra quem sustenta a empresa, lembra que terá dificuldades em sustentar os 100, 500 ou 1000 funcionários que ali trabalham (inclusive você) caso desagrade o tal parceiro. O que ele faz? Arrisca-se?
Duvido. Manda vetar a matéria. Sobretudo se ele não for jornalista, mas, sim, um hábil negociador.
Para nós, que estamos ali no “chão de fábrica”, é difícil entender como um jornal “se vende fácil”. É porque estamos distantes das decisões da empresa. Olhamos só uma parte do processo.
Enrolo tudo isso pra dizer que a natureza do jornalista é combativa, mas somos humanos, com necessidades, limites e desejos. Portanto, ao menos uma vez na vida, iremos colocar a notícia em segundo plano e pensar simplesmente no dinheiro.
***
Temos que ser honestos: nossa profissão é pura sorte. Se hoje você entra numa redação, não pode imaginar que ficará por lá a vida toda. Não pode prever que será um fenômeno do jornalismo a ponto de ganhar rios de dinheiros. Às vezes acontece. Às vezes, não.
Para quem não tem tanta sorte, mesmo depois de tantas cervejas e tantas críticas que fez a sua empresa e elogios à “mídia combatente”, poderá ser seduzido por uma assessoria, que dará estabilidade e qualidade de vida que lhe permitam brincar com seu filho aos domingos, sábados ou buscá-lo na escola no final da tarde.
Humildemente...
5 comentários:
Nao sei nao, mas algo me diz que vc se lembrou de nossas longas conversas a respeito, hein? Qdo tiver um tempinho eu volto aqui para descordar de vc...
valeu!
Bom, vamos lá...
Pelo final:
1 - Sobre Falar mal da empresa enquanto toma-se aquela gelada. Well, fala-se mal da empresa, da namorada, do amigo traíra, do garçom, dos pais...da empresa. É mais legal falar mal do que falar bem de alguém, infelizmente. Ruim seria se além de falar mal, o camarada trabalhasse contra o desenvolvimento da empresa.
2 - Sobre a "venda fácil"e os interesses: Apesar de criticada, a dependência política das empresa é um fato consumado e enternizado, e eu lamento muito. Entendo que há momentos em que os intersses entre ambas as partes se casam, até porque dinheiro é bom e todo mundo gosta como vc mesmo escreveu, grande Predo. O que condeno é a superficialidade do pensamento. É fazer um jornalismo de ocasião. Se o grupo politico A tá no poder agora mas for derrotado na eleição seguinte pelo grupo B, a empresa vai junto para o lado B da força, sem pudor. Será que a UNICA fonte cota publicitaria generosa neste mundo é a do governo?
3 - Jornalismo não é publicidade. Quer fazer propaganda de quem investe no jornal? Faça uma peça publicitária, pague o preço da página e publique. Jornalismo não é balcão de negócios. Espaço em Jornal, rádio, Tevê, internet, não pode ser moeda de troca para sobreviver. Aliás, isso não seria sobreviver, e sim subexistir.
4 - Apesar de "desconcordar" de vários pontos, entendi teu raciocínio. Por trás de tudo isso que vc escreveu, Grande Pedro, está a utopia do jornalismo independente. Vc condena essa prática porque sabe que ela JAMAIS vai existir. Porque ela "quebra" as empresas.
O que, vc tem que concordar comigo, é uma pena!
Meu amigo, o jornalismo é uma farsa. Comece pelo Código de Ética e termine pelas redações. A chacina, digo.
Pouco conhecia de jornalismo. Desconfio até que nem lembrava que existia jornalista, quando lia as matérias.
Não sabia desse mundo de bastidores. Onde tudo funciona. Ou deveria funcionar.
E muito menos que jornalista sente, sofre, adoece, se angustia, pensa e muito sobre essa profissão.
Eita mundo cruel>
Por essas e outras, meu sonho é trabalhar na BBC. rs
ps: há poucos dias, escrevi sobre a questão dos jornalistas-assessores no meu blog. Quando tiver um tempo, dê uma lida e deixe sua opinião. Eu gosto muito desse tipo de discussão.
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