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15 setembro 2008

A vida dos outros

Por Daniel Brito

Chama-se Macarrão o modelo de anúncio que ocupa metade da primeira página do jornal e seu valor banca toda a redação do jornal. Num flagrante de contradição que é fazer jornalismo sem a influência do departamento comercial, é possível achar graça no jogo de disse-me-disse em alguns dias na semana.

Em metade da primeira página está estampada a grande oferta de carros nas concessionárias e na outra, a manchete estarrecedora:

- São Paulo enfrenta o maior engarrafamento do ano.

Qual das duas informações têm mais peso para o leitor?

Eu aposto na primeira.

São as nuances da profissão que escolhemos.

Um jornal de Brasília não teve pudor em manchetar que o Supermercado X iniciaria um processo de corte de gastos e demitiria (pasmem!) 80 funcionários. Lá dentro, tinha uma análise sobre a escalada do desemprego no DF e todos esses bla bla blas sociais.

Acontece que láááá dentro, agora eu me reviro à estrutura física da empresa, ao chão da fábrica, a situação era ainda pior. Não só os jornalistas, mas os funcionários do deparamento industrial, marketing, transporte...Mais da metade da empresa foi presa fácil do passaralho que transformou a empresa em jornal de bairro. Ou qualquer coisa parecida.

Isso não estava na manchete, nem na análise.

Um veículo midiático paulista fez uma longa reportagem sobre o aumento no número de contratações de pessoas jurídicas, o que nós, jornalistas, chamamos de frilas.

O detalhe: o repórter era um personagem perfeito para a matéria que ele mesmo escreveu. Havia quatro anos era funcionário sem carteira assinada. Assim como metade da redação...

Recentemente estive próximo do olho de um grande furacão. Plano de Demissão Voluntária na redação. Que de voluntária só tinha o nome. Eu estou longe de ser contemplado por esse programa, mas o fato é que a redação ficou em polvorosa com a especulação do nome das vítimas.

Nesse mesmo dia, nós lá da editoria de esportes, noticiávamos a lista de dispensados do São Paulo, eliminado da Libertadores da América. Não me lembro bem se era do São Paulo. Algum time 'demitia' seus atletas por algum motivo.

Só sei que é assim: sabemos tudo sobre os outros.
Nada sobre nós mesmos.

PS - Dizem (eu escrevi 'dizem') que vai rolar um novo PDV em dezembro. Mas não há ninguém para nos confirmar....

06 junho 2008

A pior profissão do mundo

Por Jorge Wilstermann*

Temos que parar com essa palhaçadinha de "a melhor profissão do mundo". é sério: jornalismo é a pior profissão do mundo. precisamos fazer comque esse slogan se prolifere, vire grito de guerra nas faculdades efrase de abertura de palestras e livros sobre o tema.

que outra profissão paga tão pouco? nenhuma. não é preciso comparar tabelas. quantos médicos, advogados, engenheiros, dentistas e outras com curso superior você conhece? quantas estão absolutamente f*didas de grana, reclamando o tempo todo, mendigando frilas, xingando o sindicato? quantas?

você há de apontar uma ou outra, talvez meia dúvida de três ou quatro, mas estas nunca serão a regra na profissão delas. e os fins de semana desperdiçados? e os horários absurdos? e os feriados cassados? e os salários de fome em troca de tanto esforço, de tanta dedicação?

plantões tendem a ser (bem) remunerados em quase todas as profissões. menos na pior profissão do mundo. chamamos de "folga" os finais de semana em que não trabalhamos. como se a regra fosse trabalhar nesses dias...

mas a culpa é nossa. nós é que chegamos mais cedo e saímos mais tarde. nós é que vibramos com furos dados e sofremos com furos tomados. nós é que alardeamos toda essa m*rda descrita acima como "a melhor profissão do mundo".

e os chefes aproveitam. chefes de jornal jogam com isso. sabem que tu quer ir pra próxima copa do mundo, pro próximo oscar, pro próximo fórum econômico mundial. sabem que tu quer cobrir as eleições, derrubar o deputado corrupto ou desvendar aquele caso de polícia.

eles sabem. e vão te dando as oportunidades em grãos. e grana nunca. nos permitem uma viagemzinha aqui e outra ali -- e nós vibramos. nos dão um tapinha nas costas aqui e um elogio ali -- e nós exultamos em alegria absoluta pelo reconhecimento divino.

eles sabem que não precisam te dar aumento. sabem que podem te mandar embora a qualquer momento porque na porta do jornal há setecentos outros na fila, loucos para mostrar serviço e desfrutar dos"""prazeres""" da pior profissão do mundo.

jornalismo foi o curso mais procurado do maior vestibular do país no ano passado. é mais gente pronta a tomar nosso lugar, disposta aganhar menos e a se sacrificar mais.

culpa nossa.

deveríamos contar a verdade de uma vez por todas: é a pior profissão do mundo.

* Jorge Wilstermann não é nenhum dos quatro integrantes deste blog. Ele tem 27 anos, é jornalista e, apesar de tudo, não desiste da pior profissão do mundo.