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24 julho 2008

Não tem mais bobo no futebol

Na tarde de sexta-feira, 18 de julho, eu estava no trabalho terminando um material impresso para a minha chefe. Enquanto esperava os outros fazerem seus serviços, deixei uma janela aberta para acompanhar o que seria o último jogo do Brasil no pré-olímpico mundial de basquete. Tomamos uma surra da Alemanha e ficamos de fora da terceira Olímpiada seguida. A grande maioria dos comentaristas e repórteres colocava a culpa no mesmo fator: os seis jogadores que, às vésperas da competição, afirmaram que não defenderiam o escrete canarinho nos Jogos Olímpicos da China.

Até alguns minutos atrás, eu procurava pelos sites especializados norte-americanos notícias sobre a saída de um talentoso jogador da NBA para o Olympiakos, da Grécia. E lia também os analistas dos EUA falando sobre as chances da sua seleção em Pequim. A grande maioria acredita piamente o caminho para o ouro será uma estrada pavimentada e de três pistas. Agora, o que esses três assuntos têm em comum, além do basquete? Como, de uma maneira geral, os jornalistas esportivos, sejam aqui ou nos EUA, são mal informados sobre o que acontece em outras áreas, até mesmo dentro do seu metier.

Começamos com o basquete nacional. Nunca na história desse país a seleção fez tão feio. Pior colocação da história em um mundial (17º lugar em 2006) e novamente fora da Olimpíada. Nas transmissões, um bando de ex-atletas pedindo amor à camisa e reclamando dos seis desfalques - três da NBA, dois que jogam na Europa e um da liga nacional. Ninguém vê a cena maior. O esporte, que já foi o segundo em preferência no Brasil, vive uma série de desmandos que impressiona. Da falta de estrutura nos campeonatos de base ao não pagamento do seguro dos atletas. E todo esse desmando com uma verdadeira fábula de dinheiro público escorrendo pelo ralo.

Chega a ser constrangedor a falta de informação dos colegas ao não questionarem as "sumidades" do esporte. O "mão santa" Oscar, que hoje acho que fez mais mal ao basquete do que bem, até babava de raiva com Nenê, Leandrinho e companhia nas transmissões do canal SporTV. Alberto Bial, irmão do apresentador do BBB, pintava um cenário que não se refletia nas quadras da Grécia, onde rolou o pré-olímpico. Dias depois, vejo no site do Lance uma entrevista com Miguel Angelo da Luz, técnico campeão mundial com a seleção feminina em 1994, onde ele elenca uma série de besteiras e não é contestado pelo repórter setorista de basquete.

No caso dos norte-americanos, um fato solta à vista: a falta de conhecimento de como funciona o resto do mundo. Ok, isso não é lá uma surpresa muito grande. Primeiro, eles se mostram atônitos com o Josh Childress ter assinado contrato com o Olympiakos. Alguns prevêem que o rapaz será um "trendsetter" no futuro. Outros não entendem como ele abandonou a maior marca do basquete mundial para jogar na Grécia. Para a Olímpiada, todos contam com o ouro. E nada mais. Esquecem que, desde o time de 2000, ninguém mais conseguiu jogar pelas regras da FIBA, a FIFA do esporte da bola laranja. Desconsideram que pelo menos quatro seleções brigam pelo ouro - além dos EUA, Argentina, Espanha e Grécia estão no páreo.

O que tudo isso tem a ver com o blog? Simples. Com a proximidade da Olimpíada, a começar às 20h08 de 8/8/2008, veremos nas emissoras de televisão aberta e à cabo uma série de impropérios vociferados pelos colegas que cobrirão o evento. Se no basquete, esporte difundido mundialmente, já vemos várias abobrinhas, imagine na esgrima e no badminton! Para diminuir a falta de conhecimento dos seus jornalistas, o que as emissoras fazem? Contratam uma verdadeira legião de ex-atletas para comentar e dar um aspecto mais profissional na cobertura.

É nesse momento que reencontraremos o Servílio de Oliveira para comentar boxe, a Luísa Parente para falar dos saltos do Diego Hypólito e o Gustavo Borges para dizer se o Tiago Pereira realmente tem alguma chance contra o Michael Phelps, entre outros que agora me fogem. Fica claro que somos o país do futebol, mesmo com o Galvão Bueno dizendo que "não existe mais bobo no futebol". A identificação do torcedor com o esporte bretão não é de responsabilidade direta da imprensa, depende de uma série de fatores. O problema é que vivemos em um país que não possui jornalismo esportivo. Somos, literalmente, a pátria das penas de chuteiras.

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PS.: Daniel, eu não te disse que o Brasil não classificaria para Pequim? Droga, devia ter apostado umas Eisenbahn nisso!

14 julho 2008

Heróis brutos

Por Daniel Brito

A olimpíada tá chegando aí.

Época de eternizar mestres do esporte e transformar anônimos fora-de-série em heróis.

É, tudo bem, faz parte da festa. Bateu recorde, fez uma apresentação memorável, superou seu próprio limite, tem todos os motivos para ter o reconhecimento e destaque pelo feito. Assim ocorre nos outros setores da vida cotidiana.

O que eu realmente lamento é a capacidade que os meios de comuncação têm para criar poderosas redomas míticas em torno de figuras que, pessoalmente, não mereciam tanto.

Tem o caso do tenista que foi interpelado, no auge da fama, por uma garota com 15 a 20 quilos acima da média das mulheres com quem ele andava e se beijava, e não teve um pingo de paciência para recusar um autógrafo e soltou: "Sai daqui, sua gorda."

Hoje ele posa de bom moço por aí, na sombra dos seus feitos esportivos. Quem há de se levantar para reclamar dele por isso?

O nosso Felipinho, da Ferrari, por exemplo, contou que deixou de acreditar na pureza de Ayrton Senna quando ele se negou a dar um autógrafo em seu boné. "Desde esse dia eu atendo a todos os fãs por igual", garante Felipinho.

E o campeão da vela que não tem cerimônia alguma em menosprezar qualquer jornalista? Até o momento em que aparece uma câmera de tv para ele abrir um sorriso.

Esse é o lance. O cara é um excelente jogador de basquete? Bueno, então sua imagem seja refletida na mídia como tal e não como "craque, pai de família, atencioso, brincalhão, bonito, gostoso e cheiroso".

Confesso que tem muito de uma motivação pessoal aqui no texto, pelas diversas vezes que fui desprezado, mal tratado, esquecido, desrespeitado pela classe com a qual costumo lidar.

O cara que é campeão é campeão do mundo e ponto final. Não se discute sua condição. No futebol, 20 anos atrás, o craque de um time jamais era contestado. Jamais. Muitos jogadores pagaram o pato pelo craque.

É o que a gente já escreveu aqui sobre a mania de polarizar as situações, meio como em novela. O bonzinho e o malvado.

Quem perde é um zé mané. Quer exemplo melhor que o de Barbosa, goleiro da copa de 1950? Antes de morrer tiveram que fazer 15 mil reportagens mostrando os feitos dele para que fosse reconhecido em vida.

Esse mini-desabafo não cabe em texto algum no jornal que trabalho, ou trabalhei ou vou trabalhar . Mas eu meio que já aprendi a encarnar a figura do jornalista malígno que povoa a mente dos leigos para conversar com alguns.

Alguém ainda tem dúvida se o esporte aliena ou não?

13 abril 2008

Terroristas para os chineses

Por Daniel Brito

Quem reclama do imperialismo norte-americano, mudaria de opinião se o imperialismo dominante fosse o chinês. Olha a confusão no Tibete aí para não me deixar mentir.

Antes que me xinguem de "amigo do rei", deixe-me esclarecer que foi o exemplo mais prático que pude encontrar para entrar no assunto da China. Essa comparação, inclusive serve para um post futuro (todos os posts deste blog ficaram para o futuro. Uma pena...) sobre a briga Record x Globo.

Aliás, se a Olimpíada de 2008 fosse nos Estados Unidos, o mundo pediria boicote ao evento por causa da ingerência norte-americana no Iraque, por exemplo?

Humpf...

Mas o governo chinês já encontrou um culpado para o caso de seus jogos olímpicos ficarem marcados por protestos, revoltas populares e invasões: a imprensa internacional.

A partir do momento que as agências repassam para o resto do planeta as imagens e notícias de tentativa de sabotagem da inocente tocha olímpica nas ruas das cidades mais simbólicas do planeta, elas incentivam mais e mais protestos.

Quando a tocha desfilou escoltada por dezenas de soldados na Inglaterra ou na França, não me lembro bem, uma atleta paraolímpica da China chegou a abraçar a tocha para evitar que alguém tentasse roubá-la de suas mãos. Essa atleta virou heroína para os chineses. O gesto foi bonito, mas no mesmo dia os jornais de lá noticiaram outra história além disso.

Eles preferiram mostrar o lado festivo do evento e criticaram o que chamaram de atitude ''desprezível'' dos grupos pró-Tibete. "Os protestos foram 'irrelevantes e insignificantes'', lembrou uma reportagem, que copio e colo aqui.

Para o governo, controlar os chineses, tudo bem...A começar pela imprensa. Até porque, a maior parte dela é oficial. O grande lance vai ser evitar os gringos, que vêem como combustível as notícias de protesto com amplo destaque pelo mundo afora.