18 agosto 2007

Operários da Notícia

Por Léo Alves

Há quase quatro anos divido com os alunos da Universidade Estadual da Paraíba a minha (pequena) experiência no jornalismo. Nas aulas, procuro sempre trazer um pouco da rotina de um jornalista.

Conto histórias, escuto as curiosidades dos alunos, mas também observo o comportamento deles.
Confesso que durante esse tempo percebi que parte dos alunos está no jornalismo porque se trata, na visão deles, de uma profissão cheia de privilégios. Pensam apenas no reconhecimento que a profissão pode lhes proporcionar.

Esquecem do ônus.

Para alguns, a notícia é construída sem esforço, sem apuração. Ainda na faculdade se mostram jornalistas preguiçosos em pontecial. Não foi apenas uma aluna que me entregou reportagens copiadas da internet.

Descobri com a ajuda do Google.
Nesse caso a nota não passa de zero.

A maioria aprende a lição.
Pelo menos comigo nunca mais repete o erro.

Mas a preguiça -- iniciada na faculdade -- acaba acompanhando aqueles que decidem se tornar repórter depois de formado.

Aqui em Campina Grande, por exemplo, tenho observado que alguns repórteres dessa safra mais recente não gostam de apurar e, acredite, de escrever.

Preferem se deleitar com os falsos privilégios da profissão. Comento muito com meu editor que hoje em dia faltam operários da notícia. Faltam repórteres que, com apenas uma linha de pauta, consiga trazer para a redação uma excelente matéria.

Os novatos querem tudo mastigado. Uma pauta com as informações para ele apenas organizar o texto (quando muito). Para os preguiçosos “perder tempo apurando uma notícia dá muito trabalho”. Eles esquecem que uma boa matéria só vem com muita apuração.

Porém estão mais preocupados em exibir o crachá de jornalista como fazia aquele personagem de Chico Anísio, o Bozó.

É a vaidade que toma conta de alguns profissionais.

Um trecho do livro “O Reino e o Poder” de Gay Talese explica um pouco o motivo de tantos jornalistas serem picados pela mosca da vaidade:

O jornalista é um aliado importante da ambição, é o acendedor de estrelas. É convidado para festas, cortejado e cumprimentado, tem acesso a telefones que não constam da lista e a muitos estilos de vida. Pode mandar para os Estados Unidos uma matéria provocativa sobre a pobreza na África, sobre distúrbios e ameaças tribais, e depois dar um mergulho na piscina do embaixador. Às vezes, o jornalista pode supor erroneamente que é seu charme, e não a sua utilidade, que lhe rende esses privilégios; mas, em sua maioria, são homens realistas que não se deixam enganar pelo jogo. Eles usam tanto quando são usados”.

Para nosso consolo, ainda existem aqueles que não se deixam enganar pelo jogo.
Para nosso consolo, ainda existem aqueles que passam horas, dias, semanas, apurando, checando, escrevendo.
Tudo para levar ao leitor uma notícia de qualidade.

Para nosso consolo, ainda existem aqueles que encaram o jornalismo como uma profissão.

Esses são os operários da notícia. Que, para nosso consolo, nunca vão deixar de existir.

3 comentários:

Toty Freire disse...

Com certeza os preguiçosos pensam no glamour sem saber que, para alcançá-lo de verdade, precisam livrar-se de toda vaidade e ligar-se à ambição que o levará a uma boa reportagem. Você está certíssimo, grande Léo. Não se fazem mais os "operários" de antigamente. Percebi isso quando conclui meu curso...

Lenildo Ferreira disse...

Dr Léo

Como felizmente consegui dispensa de boa parte das cadeiras, pouco tenho ido à faculdade e, por isso, nunca mais vi vossa senhoria. Mas, passando por aqui, li esse texto que me remeteu às discussões em sala de aula no ano passado.

Aquilo, meu caro, era mais que um debate, uma aula, ou coisa do gênero. Tratava-se de uma sessão de uma espécie de “terapia grupal”, onde todos éramos convidados a refletir sobre os inúmeros vícios que atacam jornalistas, dos quais a vaidade está entre os mais agudos e danosos.

Prazer grande relê-lo.
Um forte abraço

Lenildo Ferreira

Fernando Firmino da Silva disse...

Leo, como sempre vc dando uma aula de jornalismo no blog. Concordo plenamente contigo. Há alunos excelentes e acima da média. Mas há também aqueles que visualizam na profissão apenas uma oportunidade para usufruir da ilusão do prestígio, da proximidade com as fontes poderosas e esquecem que a comunicação deve ser SOCIAL. Aliás tem um comentário no meu blog sobre esse papel importante dos FILHOS DA PAUTA como aula (fora de sala). http://jornalismomovel.blogspot.com/2007/08/trs-blogs-de-jornalismo-dicas.html

abraços

fernando f. silva