Na sexta-feira passada fui informado pela produção que deveria chegar na segunda às 11h30. Meu horário normal de trabalho é a partir das 14h. Estava escalado para ir a Boa Vista, uma cidade que fica a uns 50 quilômetros de Campina Grande, no cariri paraibano. O assunto era “denúncia no Bolsa Família”. O Sindicato dos Trabalhadores Rurais denunciava que 15 pessoas - em extrema pobreza - tinham sido cortadas do programa. Na pauta que recebi tinha entre parênteses que se pudesse, investigasse a denúncia de que uma esposa de vereador recebia o benefício na cidade. A produção ajeitou tudo direitinho. Marcou com o presidente do Sindicato, que me levaria a uma mulher que foi cortada, e com o Secretário de Ação Social da cidade para explicar o motivo dos cortes. A matéria era interessante, mas necessitava cuidados para não entrar numa briga política, Afinal é ano de eleições.
Quando cheguei em Boa Vista, por volta de 12h30, tive que andar mais 14 quilômetros em estrada de terra até chegar à casa de Rosa Maria. Seguimos o carro do presidente do sindicato. Dona Rosa, 49 anos, um filho pra criar, separada do marido, vive da venda do carvão que faz no quintal da casa, onde mora de favor. Ganha no máximo 70 reais por mês. Quando ganha. Tem meses que o dinheiro não dá nem pra comprar comida. Quando isso ocorre depende da ajuda de vizinhos para comer. Essa era a minha personagem. Há três meses, Dona Rosa não recebia mais o benefício do Bolsa Família.
Depois de entrevistá-la fui até a casa de outra personagem, que logo de cara vi que não renderia pra matéria. Mesmo assim peguei todas as informações e a entrevistei. Estava tranqüilo. Dona Rosa era a personagem perfeita. De volta à cidade, conversei com o presidente do sindicato. Comecei a sondar para confirmar algo que já sabia: ele é adversário político da atual administração de Boa Vista. Na conversa perguntei se ele sabia o nome da mulher do vereador. Disse que não. Pedi para descobrir e me ligar dizendo. Queria mesmo era denunciar esse favorecimento. Com o nome da mulher tentaria conseguir junto ao Ministério do Desenvolvimento Social a lista de beneficiários da cidade. Imaginava que o Secretário de Ação Social fosse esconder o nome a todo custo. Lembrei logo do livro de Lúcio Vaz (A Ética da Malandragem). Nele o jornalista diz que quando for investigar uma denúncia não fale logo dela com a fonte. Essa seria minha estratégia com o secretário. Pensava em perguntar quantas pessoas eram beneficiadas na cidade, os critérios de escolha, sobre o recadastramento e o caso de Dona Rosa. Só depois falaria sobre a denúncia.
Por volta das 15h30, o secretário chegou a Prefeitura de Boa Vista. Veio só atender a nossa equipe. A prefeitura só funciona pela manhã. Perguntou se eu queria ser atendido ali ou na Secretaria. Preferi a segunda opção. Sabia que lá estavam todos os dados. Antes de eu começar a explicar o motivo da minha ida à cidade o secretário me interrompeu.
- Já estou sabendo que você veio aqui por causa das denúncias. Vou lhe mostrar tudo. Minha administração é transparente.
Eu quase caio da cadeira. Não acreditava que o cara fosse me passar tudo de bandeja. Pelas histórias que li, o repórter tem que ter sorte para descobrir os dados da denúncia. Vibrei por dentro. Vi que a matéria iria render melhor que esperava. Procurei agir com naturalidade para mostrar que não estava surpreso. E que estava para apurar as denúncias mesmo. E ele continuou:
- Estou aqui com uma lista de 35 pessoas beneficiadas que são parentes de funcionários da prefeitura.
Bingo de novo. O cara já estava me mostrando a lista de favorecidos. Na cidade, cerca de 380 pessoas recebem o benefício. As 35 representam quase 10% do total, um número considerável. Fiquei até sem jeito de perguntar algo. Mas fui em frente. Peguei o primeiro nome da lista, que ganhava R$ 329,00 e perguntei por que ele recebia o Bolsa Família. O secretário explicou mostrando um documento do Ministério do Desenvolvimento Social, onde afirma que 14% dos beneficiados têm emprego formal. O critério, segundo o documento, é se a pessoa tem renda per capita de até R$ 100,00. O meu personagem tinha cinco pessoas na família, o que dá uma renda per capita de R$ 65,00. Foi a justificativa dele. Esperto, meu cinegrafista começou logo a filmar a lista e eu discretamente anotando os nomes, olhando os valores. Quando passei a folha, vi que uma mulher com renda de R$ 2.655,00 estava na relação. Essa não tinha explicação. O secretário admitiu.
- Eu sou transparente na minha administração (essa era a frase preferida dele, parênteses meu). Realmente essa mulher está irregular, mas só posso fazer alguma coisa depois do recadastramento.
Ainda consegui mais alguns nomes, com valores dos salários e quanto recebe do Bolsa Família. No meio das confirmações, o secretário sai com essa:
- Sim, não adianta você vir aqui e a gente não falar da mulher do vereador. Já estou sabendo disso e vou me defender.
Eu nem havia perguntado. Mais uma vez estava recebendo a denúncia de bandeja. Ele mostrou um ofício onde solicitava desde agosto a exclusão dela, o que não aconteceu. Eu tinha mais um elemento importante para matéria. Tudo isso foi numa conversa em off. Meu medo era de que na hora de gravar, ele não quisesse. Estaria ferrado. Pelo tempo que passamos conversando pedi ao cinegrafista para mudar de fita. Não deu outra. Gravei vinte minutos de entrevista, nos quais ele confirmou tudo que havia me dito em off. É claro que eu não esqueci do caso de Dona Rosa. O secretario explicou que ela foi cortada porque havia informado uma renda de R$ 120,00. Tinha todos os elementos para a minha matéria.
Depois da entrevista fiquei pensando na sorte que tive. Esperava encontrar um monte de dificuldades. Mas em nenhum momento o secretário foi chato. Pelo contrário foi solicito até demais. No final ainda nos trouxe um pedaço de bolo de seu aniversário, que havia sido no dia anterior. Lanchei e voltei pra Campina não só de barriga cheia. As duas folhas de ofício estavam cheias de informações. Quando contei a história na redação ninguém acreditou que tivesse conseguido tudo de bandeja e ainda por cima ter comido do bolo do secretário. Não lembro quem foi que saiu com uma piada sarcástica:
- E se o bolo tivesse envenenado?
Na hora nem me lembrei desse detalhe. Comer um pedaço de bolo era uma atitude política (como gosta de dizer Daniel), de cordialidade.
Cheguei com o texto montado na cabeça. Comecei a matéria com a história de Dona Rosa, depois passei para a denúncia (não usei essa palavra no off) do sindicato, em seguida coloquei a versão do secretário para o caso de Dona Rosa. Depois disso, disse que enquanto Dona Rosa não recebia o dinheiro, outras pessoas que não precisavam estavam no Bolsa Família. Denunciei tudo que sabia. E o melhor: com a entrevista do secretário que disse “que sabia das irregularidades”. A matéria foi ao ar na terça-feira ao meio dia (JPB1) e à noite (JPB2). E repercutiu. Ontem o Ministério do Desenvolvimento Social mandou uma nota, na qual diz que o benefício da mulher do vereador foi cortado. O último saque foi em janeiro. Porém o secretário me mostrou que o cartão novo dela chegou no início do mês. Outro ponto: o marido dela assumiu o mandato em janeiro do ano passado e só agora se toma uma providência. Hoje também o secretário foi procurar uma rádio para pedir direito de resposta da matéria veiculada na TV Paraíba, afirmando que a matéria não foi verdadeira. Não teve o direito porque foi no lugar errado. Ele Deve ter levado um esporro de alguém mais experiente (você sabe de que experiência estou falando né?) da prefeitura por ter falado demais. Ficou tão desorientado que nem foi na tevê. Também se for não vai ter muito o quê argumentar. Temos os vinte minutos de entrevista gravados.
Foi a minha primeira denúncia fora do âmbito esportivo. Dessa vez foi fácil. Agora é se preparar pras bombas que vêm pela frente. Não posso mais contar com a sorte de principiante.
Trem bala (cover)
Há 9 anos
4 comentários:
Leonardo, parabéns pela matéria. Realmente foi bem feita e colaborou muito com a comunidade que precisa saber destas informações. Esta matéria já entra no rol das suas melhores.
Abraços
Fernando Milanni
Leozinhoooooo tb achei suuuuper legal, principalmente pq a pauta foi minha =) há mil anos estava lutando para fazermos, e finalmente saiu! =) Adora esse tipo d ematéria, gosto mais ainda qd o repórter é mil e tras uma matéria melhor do que esperávamos...
Parabéns!
Parabéns mesmo, Da Silva, essas matérias são complicadas. Talvez porque elas realmente podem mudar o destino das pessoas, diferentemente das reportagens de esporte. Eu mesmo estou com uma matéria desse tipo na minha frente, sobre uma figurinha carimbada da política campinense, mas ainda busco argumentos dentro da minha redação para fazê-la. Quisera eu ter a mesma competência/sorte que você...
Meu irmão, que sorte danada foi essa, rapaz? Assim tá danado. Até bolo??!! Eita.
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