Há uma diferença básica entre ser jornalista esportivo e jornalista do caderno de cidades. No primeiro, o repórter lida com a paixão. Já o outro, com o pragmatismo.
Quando o jornalista escrever que o time de futebol está jogando mal porque o técnico utiliza tal jogador numa posição que não é a dele, nada no mundo pode mudar por causa disso. O time não vai ter menos torcedores, o técnico não vai se sentir na obrigação de concordar, o jornal não vai vender mais por isso...
Quando o jornalista escreve que o fornecimento de água para a cidade está prejudicado por conta de um vazamento de óleo devido à má gestão da companhia responsável pela área. No mínimo, os governos locais vão ter que se movimentar para evitar que se transforme em uma catástrofe. Neste caso, o jornalista influenciou diretamente na vida de muita gente.
Não chega ser nenhum segredo o que citei acima. Mas é que após dez anos de atuação intensa nas editorias de esportes de veículos da Paraíba, Brasília e São Paulo, e participações pontuais nas demais editorias, desembarco oficialmente em uma editoria de cidades.
A reação dos amigos mais próximos ao saber de minha escolha foi:
- Ixi!! Paulêra, hein?
É, pode ser. Eu planejava para depois de 2010 uma incursão em áreas além do esporte. Veio antes, por linhas tortas. Mas tem sido uma experiência engrandecedora. Pensar o jornal de uma outra maneira. Pensar que não escrevo para pessoas apaixonadas pelo esporte, mas pessoas verdadeiramente preocupadas com a cidade.
Em duas semanas de labuta, me deparei com situações que fizeram a diferença no microuniverso no qual estou inserido nesta cidade.
Veja você que dia desses tropecei com o carro de um amigo em uma obra no centro de Brasília. Conversando com os frequentadores da região, descubro que o trupicão não foi por caso. A tal obra era mal feita. Se não fosse jornalista, ficaria a resmungar pelos cantos a incompetência da companhia de obras.
Mas sou jornalista e lá fui eu apurar. Não foi difícil. Descobri os erros e levei os técnicos em engenharia para mostrar o que estava errado. Vinte e quatro horas depois, com a matéria publicada, dei um sorriso vitorioso de canto de boca ao passar pelo local e ver homens trabalhando no local para evitar acidentes maiores.
A matéria está aqui.
E o relato do trupicão, aqui.
No outro dia, tomando cerveja com um colega, ele me contou que viajaria de carro para a cidade X mas não seguiria pelo caminho tradicional porque lera no jornal que a pista para aquelas bandas estava terrível. Para minha surpresa, era uma outra matéria de minha autoria. Coincidentemente sobre trânsito.
Dei outro risinho de canto de boca. Não foi pela vaidade de estar sendo lido, mas pela satisfação de saber que estou contribuindo para mudar alguma coisa. Coisa que jamais aconteceu quando trabalhava em esportes.
Claro que em esportes existem vantagens insuperáveis, como fato de ir a lugares nos quais você já iria se estivesse de folga. Além de tratar de um tema muito mais leve.
Esporte sempre será uma paixão. Mas por enquanto, estou gostando desse climinha de início de namoro com o pragmatismo.
Um comentário:
Isso é a realidade. No esporte quando você aponta as coisas erradas com a intenção de mudar você é mal interpretado. Dizem logo que o jornalista está querendo agitar o ambiente. Os caras ficam putos. Não concordam e pronto. O lance é que depois de algum tempo você vê que tudo que foi alertado aconteceu. Mas ninguém se lembra. Mesmo você escrevendo sobre o fato para relembrar seus escritos todos vão achar que você é mais um a pegar carona nos erros. Mesmo assim não deixo de relembrar meus escritos. Já em outras editorias, os caras ficam putos, acham que você está querendo tumultuar, mas fazem algo para consertar.
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