20 fevereiro 2010

Desconstruindo o glamour em um plantão noturno

Por Daniel Brito

O zumbido irritantemente baixo do mosquito ao pé do ouvido abafa o turbilhão de pensamentos na mente do repórter em plena madruga desértica do Planalto Central de um sábado qualquer.

Espremido no banco de trás do carro, com a cabeça mal acomodada em uma muda de roupas de frio, o repórter lembra do começo da carreira e de tudo que projetou para si no jornalismo. E vê nos feixes das luzes de carros que trafegam pelo Setor Policial Sul que, na prática, a teoria é outra.

Quando se é escalado para passar a noite na sede da Polícia Federal, em Brasília, aguardando qualquer informação sobre o governador preso ali dentro, José Roberto Arruda, é preciso ter sangue frio para não desistir da profissão de repórter.

Arruda foi preso em 11 de fevereiro de 2010 por determinação do Superior Tribunal de Justiça (STJ) por tentar obstruir o trabalho da justiça. Arruda é chefe* de (mais) um super esquema de corrupção no governo do Distrito Federal. Ele permaneceu por sete dias em uma cela que na verdade é uma sala de um diretor do Instituto Nacional de Criminalística (INC) com banheiro privativo, ar condicionado, cama confortável. Havia internet e telefone na sala mas ele era proibido de usá-los. Ontem foi transferido para uma cela de verdade, no prédio aos fundos.

Quatro janelas da cela-sala em que estava até ontem dão para o lado de fora do Complexo da Polícia Federal, no Setor Policial Sul. A 250 metros de distância, dezenas de cinegrafistas e fotografos se aglomeravam na grade do complexo para flagrar qualquer movimento aparente do governador preso. As chefias de redações optaram por permanecer com repórteres e fotógrafos por ali de 6h às 21h, aproximadamente.

Apenas o jornal para o qual eu trabalho decidiu botar praça durante as 24h diárias enquanto o detento permanecer por ali. Significa dizer que alguém, todo dia, terá de abrir mão do conforto de seu lar para esperar por qualquer movimento do presidiário. Não precisa ficar na sarjenta ou ao sereno. Pode ir no seu próprio carro e fazer papel de Pedro Bial ('você não perde por espiar') ali de dentro mesmo.

A opção foi baseada na história.

Em 1993, José Carlos Alves dos Santos foi preso nesta mesma PF acusado de participação na farra do Orçamento da União, que gerou a CPI do Orçamento no Congresso. Uma bela madrugada, arrependido por estar vivo e por ter denunciado os 23 deputados que chafurdavam com a grana pública, decidiu por fim à própria vida e meteu a navalha nos pulsos.

Naquela época, ninguém havia pensado em virar madrugadas na porta da PF, mas o plantão começava cedo. Dois fotógrafos chegaram ao local às 6h no exato momento em que Alves dos Santos saía da carceragem da PF direto para a ambulância, lambuzado de sangre. Só o Globo e um outro jornal (que não me recuerdo qual) fizeram a foto.

Ficou a lição para quem levou o furo.

E o escolhido para passar algumas das noites da semana de carnaval fui eu. Fiquei vigilante por ali da noite de quarta-feira de cinzas à manhã de quinta-feira. E hoje também: cheguei à Polícia Federal às 19h45 de sexta-feira, com o dia ainda claro por causa do horário de verão, e saí com o dia igualmente claro, às 7h15, e a cara inchada de mais uma noite mal dormida.

Tecnicamente, o governador detido não pode pregar uma peça e fugir. Ele é barrigudo, sedentário, assaltou os cofres públicos mas não é tão doido de armar uma fuga mirabolante dentro da PF. Nenhum Habeas Corpus pode surgir no meio da madrugada porque ele tem foro privilegiado, portanto só o STF ou o STJ poderiam soltá-lo. O que já ficou claro pelas entrevistas dos ministros que não vai rolar (muito menos de madruga) porque ele pode 'atrapalhar o curso das investigações'.

Pessoas mais próximas a ele garantem que Arruda tem personalidade depressiva e sucumbe a pressões. Cogitou-se que ele poderia até repetir Alves dos Santos e tentar partir dessa para uma melhor (o que renderia um caderno especial). Ou então ele poderia simplesmente passar mal e ser atendido por uma junta médica (o que renderia um abre de página). Ou então, a família, em um gesto para lá de inesperado, poderia armar uma visita surpresa de madrugada (o que renderia um pé de página).

Pois é, mas essas duas noites que passei em campana não renderam nada.

Aliás, renderam bons contatos. Conheci o pessoal de outros jornais e emissoras, trocamos figurinhas e contatos telefônicos. Conversamos sobre as redações e pessoas conhecidas, fizemos piadas sobre a história do detento e tiramos dúvidas sobre pontos do processo em curso.

Mas de notícia, notííííícia mesmo...nada!

Mesmo sabendo que as madrugadas não são nada informativas, é preciso manter a vigilância. Olhos abertos, claro que não em 100% do tempo. Mas a atenção tem de estar voltada para o interior do complexo. Minha estratégia é manter-me acordado por um minuto a cada meia hora. Só para desencargo de consciência.

Foram nesses intervalos que refleti, ao som das muriçocas, sobre a vida de repórter e os sacrifícios que fazemos para manter de pé essa utopia realista de viver de escrever. Eu, particularmente, não penso em desistir... não enquanto eu tiver saúde mental.

Ou não!

* O autor deste post não acredita que Arruda seja suspeito. Acredita que ele seja culpado mesmo!

7 comentários:

Felipe disse...

Sensacional. A melhor parte foi o asterisco no final. Puta merda.

CAra, o José Carlos acabou não morrendo. Não sei se ele morreu anos depois ou se ainda tá vivo. Mas lembro que ele foi preso tambem porque esquartejou a esposa.

E Deus te livre de outra destas.

Abs

RC disse...

Faltou um pouco mais de "suposto" no texto. Hehe.. Fora isso, muito interessante - e trágico.

Leandro Galvão disse...

Arrependido de ter trocado a boa vida e sucesso no CPB para ir fazer CIDADES nesse jornaleco de quinta? A vida é feita de escolhas... :)

Mais sorte da próxima vez.

Sem mais para o momento

Anônimo disse...

É surreal a vontade de divulgar informações desse jornal. Um "furo" sobre os podres do Arruda nunca foi tão quisto.
Há dias lembro-me de ter passado por um semáforo e, pelas mãos dos jornaleiros, lido a seguinte capa: Produção do lixo aumenta no DF. Fato relevante, se não tivesse sido usado para desviar as atenções da população da calorosa investigação da Polícia Federal sobre esses podres conhecidos pela Operação Caixa de Pandora.
Ainda ouço alguém dizer que precisamos passar por isso para sermos jornalistas...
É fim de carreira.
Corujinha.

Paulinho Mesquita disse...

belo texto, briba!
e concordo em tudo com seu asterisco!

Léo Alves disse...

Literalmente se é jornalista 24 horas por dia.

Léo Alves disse...

Literalmente se é jornalista 24 horas por dia.