Por Jurani Clementino*
O enquadramento estava perfeito, a iluminação sem problemas, os cabelos da repórter estavam comportados, a roupa atendendo ao figurino, mas eis que surge o improvável. Vejam no Youtube.
Uma barata invadiu o estúdio e passeou elegantemente pelo corpo da apresentadora.
Quase meio milhão de pessoas viram o vídeo postado no YouTube. Quem assistiu gostou, repassou, reviu, encaminhou e virou febre na internet. Tem vários títulos entre eles: “Barata pousa em jornalista da Globo durante apresentação”, “Você quer dar uma paulada na barata da apresentadora?” Ou ainda “Barata da Jornalista do JPTV Globo”. O fato é que este vídeo ganhou o gosto popular. Inegavelmente a barata roubou a cena. Invadiu o cenário, pousou na cabeça, desceu pelos cabelos, escorregou suavemente pela roupa da apresentadora, deu uma olhadinha discreta no colo da jovem garota e provocou aflição, angustia medo e gargalhadas em milhares de pessoas.
Mas e alguém aí se atreveria a repetir o que disse a jornalista? Que informação ela passava quando surgiu assim do nada, a barata? Que nota ela estava lendo? Talvez seja a nota policial mais lida, mais repetida, mais vista e, no entanto, a menos compreendida, a menos ouvida, absorvida. Vimos, revimos, mas não vimos. O telejornalismo não cumpriu a sua função. Informou mas não informou. A culpa seria então da barata? Teria sido ela que nos tirou/roubou a atenção?
O fato é que a barata nos dá uma aula de como é complexo fazer jornalismo na TV. Na televisão qualquer detalhe compromete o todo. Perceba que dois momentos marcam o vídeo. O anti e o pós barata. No primeiro temos a tranqüilidade normal do fazer TV. Repórter encerra sua participação, interage com o estúdio, exerce a sua função criando uma perspectiva de continuidade. A partir de então temos o momento barata que desestabiliza a nossa atenção e o pior, o pós barata que transmite a angustia franciscana da outra repórter. Ao mesmo tempo que ela surge como a grande redentora, a salvadora da pátria, a heroína, percebe-se também que ela está visivelmente chocada com a situação da amiga. Mesmo assim compadecida, ela vai dar-lhe a possibilidade de matar o inseto, tirá-lo de seu corpo, livra-se dele ou tão somente externar um grito de socorro, alívio.
O fato é que nada foi tão importante, tão marcante, tão digno de nossa atenção do que a própria barata em si. A apresentadora podia ter noticiado a morte do Presidente da República, a presença do Papa no Brasil, os números da Mega Sena acumulada, tudo o que ela dissesse seria bobagem por causa da barata.
Ainda que fosse no meio da rua. Numa reportagem externa. Em locais onde geralmente estamos sujeitos ao improvável, submetidos aos caprichos da natureza. Mas num estúdio onde controlamos luz, achamos que temos o domínio de todo o ambiente, local que poucas pessoas têm acesso, onde todo mundo fala baixo.... isso seria portanto improvável.
Vamos imaginar, portanto uma situação hipotética: a rua e sua casa. Quando você sai à rua, naturalmente você está sujeito a sujar-se de lama, sofrer um tombo, molhar-se na chuva ou suar com o excesso de calor e inclusive cruzar a rota de vôo de uma barata. Mas dentro de casa fazemos de tudo para isso não acontecer. Limpamos os móveis, organizamos a faxina da cozinha, retiramos qualquer sobra de comida que atraia insetos, eliminamos qualquer possibilidade. Nossa casa, a nossa sala de estar é a nossa vitrine. Queremos receber todo mundo bem e com segurança. Assim também deve ser ume estúdio de televisão. Lá não devem existir em hipótese alguma intrusos. Lá não devem ter baratas.
O lado positivo de tudo isso é que só aprendemos com as nossas falhas. A barata vai ser o tema da minha próxima aula de telejornalismo. Eis a vantagem. Sem a barata não existira aula digna de tanta atenção. Certamente os alunos não teriam tantas perguntas. Seria mais uma experiência chata, cansativa, pedante. Viva, portanto a barata. Viva o imprevisível na arte de fazer telejornalismo ao vivo.
Jurani Clementino é jornalista, trabalhou como produtor e editor de texto em televisão durante quatro anos. Atualmente é professor e mestrando em Desenvolvimento Regional (UEPB/UFCG). Já colaborou com este espaço outras vezes, o que certamente vai se repetir.
Trem bala (cover)
Há 8 anos
3 comentários:
para mim, a barata é injustificável. da a impressao de que o telejornal é feito da área de servico de casa.
A pergunta que vivo dizendo pra todo é que Não é pq a barata apareceu? e sim Pq tinha uma barata alí?
ABSURDO!!
Era melhor ter aparecido um dinossauro, mas uma barata NÃO! como diz o Daniel: injustificável.
Concordo com vc jurani, a notícia nesse caso se torna segundo plano. Assim como já foi em outros casos, que não tinha barata. A sombra da Fátima Bernardes já roubou a cena, o cabelo, os brincos e entre tantos outros exemplos.
Não dá pra justificar aquela cena, nem ao menos entendê-la... Mas, fica o aviso de que fazer TV é muito mais que um bom texto, boas imagens... na verdade a TV é cheia de detalhes.
Se hoje aparecer uma iguana, um rato, uma girafa no estúdio, prometo que não vou me surpreender. Peço o mesmo aos senhores visitantes deste blog.
abraços,
E se essa barata fora um plano minuciosamente preparado para concorrer com a mosca e o Obama? Tudo é possível nestes tempos de plenitude onde chamar a atenção vale tudo, tudo mesmo.
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Fique na paz de Cristo.
A ideologia não se mantém pelo que você domina, mas com o que você pensa e idealiza (LC).
Grande abraço
Luiz Clédio
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