Por Léo Alves
Desde a época da faculdade escuto o discurso que o jornalismo deve ser pautado pela imparcialidade. Hoje, como professor reproduzo a mesma versão. Mas o tempo de profissão me mostrou que essa imparcialidade parece algo utópico.
A imparcialidade é uma característica do imparcial, que o dicionário define como um adjetivo de dois gêneros: que julga desapaixonadamente; reto, justo e que não sacrifica a sua opinião à própria conveniência.
Sempre que esse tema surge gosto de me perguntar se é realmente possível agir de forma imparcial em algum momento da nossa vida? Antes de sermos jornalistas somos pessoas que possuem arcabouços diferentes. Somos resultado de nossa construção histórica, influenciada por gostos familiares, educação, leituras, filmes, músicas e outro tanto de coisas que formam a nossa personalidade.
Por mais imparcial que tentemos ser, algo de nós possivelmente vai influenciar a nossa construção textual. Se for alguém mais sensível à dor do outro, uma reportagem sobre fome tentará sensibilizar as pessoas para a solução do problema. Talvez sendo um repórter mais “seco” a descrição será mais fria. Nenhum dos dois está errado. É apenas um exemplo de como nos influenciamos por nós mesmos.
Na hora crítica de fechamento de jornal, por exemplo, ao optar por essa ou aquela matéria para ser derrubada o editor vai se basear em sua opinião. Provavelmente alguém que está lendo esse texto vai dizer que essa escolha está baseada em critérios. Se os critérios fossem universais as decisões dos editores seriam iguais. E não são. Editar tem muito de subjetividade. Fazer jornalismo, também.
Não esperava que esse preâmbulo ficasse tão grande. Enfim, vamos ao tema que me levou a voltar a escrever sobre a imparcialidade. Durante as eleições, o Estadão se posicionou. Assumiu apoiar a candidatura de José Serra no artigo “O mal a evitar” (clique e leia).
A (o)posição do jornal paulista, como não poderia deixar de ser, trouxe novamente à tona o tema imparcialidade. A maioria foi contra a exposição do apoio. A justificativa: “O jornalismo tem que ser isento”.
Entre alguns colegas, a opinião de um me chamou atenção. Ele alegou que achava correta a posição do Estadão que teve coragem de assumir seu apoio a Serra. Afinal, segundo ele (o que eu concordo), todos os veículos têm seu alinhamento político. De fato. Uma determinada publicação semanal de grande circulação no país não se posicionou (e precisava), mas todo mundo sabe de que lado estava.
De algum lado toda empresa de comunicação está. O apoio é moeda de troca. Garante bons contratos de publicidade em caso de vitória do candidato apoiado. Mas nem todo mundo tem coragem de assumir como fez o Estadão. A parcialidade da imprensa já não é tão velada. E isso coloca em xeque a credibilidade do jornalismo.
Trem bala (cover)
Há 8 anos
Um comentário:
É ISSO MESMO LÉO. SUA TESE SOBRE IMPARCIALIDADE COADUNA COM MEUS PENSAMENTOS. TENS RAZÃO. ARTIGO ESTREMAMENTE LÚCIDO. UM TEXTO "FILHO DA PAUTA" BEM AO ESTILO DO GRANDE AUTOR. PARABÉNS
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