26 novembro 2010

Diário de uma cidade em guerra

Por Jurani Clementino*

Lanchonete no centro de Copacabana, oitos horas da manhã. Televisão ligada e segundo dia de operação sendo transmitida ao vivo. Alguém, antes de sair, torna pública a sua indignação:

- A culpa é desses idiotas que votaram em Lula.

Silêncio. O emissor da mensagem se retira. Funcionários se entreolham. Um cliente quebra o silêncio.

- Esse deve ser um imbecil aqui da zona sul que nunca foi a uma favela, que não sabe como as pessoas vivem e que tá “se lixando” pra miséria alheia. No fundo deve financiar essa “merda” toda, consumindo produtos do tráfico.

Não concordo nem discordo. Apenas sorrio. Continuo olhando fixamente para a TV. As (contra)indignações vão sendo externadas. Acabo de tomar o meu café, pago a conta, me retiro. Nas ruas deste bairro da zona sul do Rio, a movimentação é aparentemente normal. Tomo o ônibus em direção a zona norte (depois dos ataques, muitos chamam essa região de zona da morte). A cobradora lê um jornal. Na verdade, quase todo mundo resolveu adquirir um exemplar dos jornais diários. Em todos eles diferentes manchetes para o mesmo assunto: “Guerra ao Tráfico”, “Dia D para o Rio no combate ao tráfico”, “Bundões da Vila Cruzeiro fogem como baratas”. “Deu pra entender quem manda no Rio?”, “O Rio contra ataca”... As charges colocam a imagem do Cristo Redentor com o uniforme da PM, colete a prova de balas, boné; os textos fazem inevitáveis referências ao filme Tropa de Elite, chamam a operação de “guerra de cinema”.

O assunto está também na vida da cobradora do ônibus 485B – Linha PENHA – Via Ilha do Fundão. Ela descreve a agonia de uma senhora (gorda e negra) que foi flagrada por policias, durante a operação de ontem na Vila Cruzeiro, com as duas mãos sujas de gasolina.

- Levanta as mãos!!!

Ordena o policial que formava parte de um grupo de cinco ou seis.

- Não se mexe! Qualquer movimento nós vamos estourar.

A cobradora lembra ainda a forma como os incendiários estão agindo.

- Antes eles pediam para os passageiros descer. Agora não. Tocam fogo no ônibus com a gente e tudo.

Ela é moradora da região da Penha. Vive próximo a área tomada pela operação da polícia ontem e lembra um caso da noite passada:

- A expresso (...) tirou todos os ônibus de circulação. Os bandidos ligaram e ordenaram: “ou tira ou a gente toca fogo em todos eles!”. Ainda queimaram três. Milhares de pessoas ficaram sem condições de voltar pra casa. Os pontos de ônibus estavam lotados. Chovia bastante. A minha sorte é que um colega meu ia passando e gritou: “Ei! Ei!” Quando corri um monte de gente me seguiu. Ele disse: “Não, é só ela. Calma gente, ela é minha vizinha”.

O ônibus que geralmente passa lotado nesse horário da manhã, estava praticamente vazio. Ocupei estrategicamente uma das primeiras poltronas, com acesso a janelas e próxima a porta de desembarque. Durante o percurso, rumo a zona norte, observo o trânsito que me parece fluir tranquilamente. Menos caos do que o habitual. Cerca de quarenta/cinquenta minutos depois, chegando a Ilha do Fundão a cobradora retoma a conversa com o motorista:

- Você acha que vão parar?

- Devem parar alguns. Não todos.

- Nada disso, vamos aguardar, mas se pedir pra parar vão parar todos.

Desembarquei. E agora vou depender de uma decisão ou uma resposta ao imperativo desse sujeito oculto para poder voltar pra casa. Ainda é incerto se terei transporte para retornar a zona sul no final da tarde.

* O autor é jornalista, mestrando em Desenvolvimento Regional (UEPB/UFCG) e está no Rio em intercâmbio na IPPUR/UFRJ.

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