13 janeiro 2006

Assessorias e assessorias

Estive pensando nos últimos dias nos artifícios usados pelas fontes para calar nós jornalistas. Calar não, melhor, somente falar bem delas. O mais comum é oferecer dinheiro. Não estou falando de suborno descarado, quando o cara pergunta quanto o jornalista quer para não publicar tal matéria. Não que esses casos não aconteçam. Porém são mais raros. Falo daquele “cala a boca” oferecido pelos políticos. Esse sim acontece com freqüência. O político dá ao jornalista uma assessoria (não necessariamente de imprensa) e pronto. Ele ganha um jornalista que dificilmente – pra não dizer nunca – vai falar mal dele. Pode parecer radicalismo da minha parte, mas é dessa forma que os políticos agem. Teve um político aqui de Campina Grande que chegou a dizer que “os jornalistas da cidade a gente compra com um jantar”. Se disse é porque já deve ter comprado algum jornalista com um jantar.

A tática arranjar um salário para o jornalista. Na maioria dos casos o assessore sem fazer nada. Mesmo assim são nomeados para o cargo. Existe um caso ainda pior: o dos jornalistas que não têm nomeação e recebem dinheiro de três, quatro, cinco políticos “pra inteirar o leite dos meninos em casa”, como disse Daniel em um post anterior. É claro que esses benefícios são mais concedidos aos jornalistas políticos. Há um outro caso, que abrange as outras áreas, em que o jornalista com emprego num veículo de comunicação (principalmente jornal) usa seu expediente vago para assessorar alguém ou algum órgão. Alguém pode até dizer que isso é normal, que não atrapalha o trabalho, mas não é bem assim. Tomemos como exemplo alguém que é assessor de um órgão ou pessoa que está cometendo irregularidades. Como o jornalista vai fazer uma matéria isenta se ele é pago também pelo órgão em questão? Certamente vai desagradar o jornal onde trabalha ou o seu assessorado. A sabedoria diz “ninguém pode servir a dois senhores” porque vai desagradar a um deles.
Se não me engano, Daniel já me falou que no Correio Braziliense e em outros grandes jornais não é permitido jornalista ter assessoria. Ou é jornalista ou assessor. Acredito que esse seja o melhor caminho. Aqui na Paraíba isso não acontece. Muito pelo contrário quase todos os jornalistas têm uma assessoria pra complementar o salário. Como gostam de dizer alguns políticos “é uma laminha que a gente paga”. Basta dar uma lida nas colunas políticas que logo se percebe de que lado o colunista está. Por aqui é assim. Ou você é a favor ou contra o governo. O colunista até tenta disfarçar, mas basta ler a coluna por uma semana que se percebe qual a posição dele. O interessante é que a maioria posa de jornalista isento, em que o único compromisso é com a verdade. Como se o leitor fosse burro e não soubesse fazer uma análise crítica. Existem colunistas que têm várias assessorias de políticos diferentes. Os nomes deles aparecem quase todos os dias nas colunas. Falando bem, é claro. Uma semana é suficiente pra se perceber de quem o jornalista está recebendo a “ajuda de custo”.
Mas deixa eu esquecer a área política e voltar pra minha, a de esportes. Nela também dirigentes, treinadores e jogadores tentam agradar os jornalistas com convites pra jantar, tomar uma cerveja e até assessorias. Nesse aspecto os dirigentes de clubes de futebol se assemelham aos políticos. E, pasmem, conseguem até ser pior. Aqui em Campina Grande se um cara desses encontra você num restaurante, senta a sua mesa e depois paga a conta, pode esperar que na primeira oportunidade ele vai dizer que “paguei um monte de coisa pra esse jornalista e ele ainda fala mal de mim”. E isso ocorre nas rádios. Já aconteceram vários casos.

Comigo aconteceram duas situações interessantes na época em que era editor de esportes do Diário da Borborema. Nenhuma delas envolveu jantares. Até porque acredito que o jornalista é que tem que pagar a sua conta para não dar o direito a esses caras ficarem conversando merda nas rádios e nos calçadões da vida. Isso mesmo, existe uma classe ainda pior que é a dos covardes, que só tem coragem de te criticar pelas costas. Voltando ao “causo”, um diretor de futebol de um dos clubes de Campina Grande estava tentando empresariar jogadores. Era procurador de um atacante, que inclusive foi artilheiro do Paraibano naquele ano. Pois bem, o cara chegou lá na redação me elogiando, elogiando meu trabalho. Fiquei logo desconfiado com aqueles elogios. Dirigente de futebol só fala do seu trabalho quando é para criticar. Aí, ela solta:
- Olha você sabe que sou procurador do atacante ‘fulano de tal’ e estou querendo vendê-lo pra um clube do Sul. Se você pudesse me dar uma força colocando matérias elogiando o jogador, quando vendê-lo trago um presente, um agrado pra você, disse ele.
- Peraí. Se eu colocar uma matéria elogiando jogador é porque ele merece. Até porque o cara é artilheiro do campeonato. Mas se você vendê-lo não me traga nada não. Nem uma camisa, sequer. O jogador é seu, o empresário é você e quem ganha dinheiro com isso é você. Eu sou pago pelo jornal, respondi.
- Não me entenda mal, sei que você é um homem de bem. Não estou querendo lhe comprar, apenas lhe agradar.

Eu pergunto: você leitor acredita que ele não estava querendo me comprar?

O outro “causo” foi mais interessante. Ainda como editor do DB, eu fiz uma matéria contra um técnico. Deve ter saído numa sexta-feira. No domingo, dia de jogo, ele estava comentando em outra emissora – que não fazia parte dos Associados – que a notícia do jornal era uma notícia plantada, de gente que queria tumultuar o trabalho dele. E não era. Dá pra perceber como o cara é esperto. Não criticou na emissora dos Associados, onde eu trabalhava também, para não correr o risco de ser desmentido no ar. Passado o jogo, na terça-feira lá fui eu pra reapresentação do time. O treinador estava com um semblante fechado. Pensei: “agora esse cara vem tomar satisfação comigo”. Quando encerrei meu pensamento ele me chamou pra conversar em particular. Pra minha surpresa – esperava um desabafo dele – o técnico veio com outra história:
- Você que todo profissional hoje em dia precisa de uma assessoria. Eu fiquei pensando nesses dias e cheguei a conclusão de que você é uma boa opção pra ser meu assessor de imprensa. É um cara que entende e gosta de futebol e também tem bom relacionamento com os outros jornalistas.

Não estava preparado para o convite. Fiquei alguns segundos pensando no que responder, mas a única coisa que me veio a cabeça foi:

- Eu realmente fico muito lisonjeado com o convite e o reconhecimento ao meu trabalho. Mas a função de assessor é incompatível com a de editor de esportes do jornal. Primeiro porque você não vai aceitar críticas. Segundo, todas as vezes que eu lhe elogiar as pessoas vão dizer que eu faço isso porque sou seu assessor. E além do mais pode criar um mal estar pra você, pois eu teria acesso a informações que os outros jornalistas não teriam. E eu iria usá-las no jornal onde trabalho. Os outros ficaram chateados porque você estaria me privilegiando. Então é melhor procurar uma pessoa que não tem vínculo com nenhuma empresa.
Eu imagino que no fundo ele não queria minha assessoria. Se tivesse aceitado talvez não tivesse recebido um tostão. Foi tentativa pra que eu não fizesse mais nenhuma matéria contra ele. Acredito que ele deve ter procurado alguma forma de me queimar, de me sacanear e a deve ter pensado: “a única forma de calá-lo é puxando ele pra perto de mim, amarrando-o com uma assessoria”. É a história de colocar os ‘inimigos’ perto pra não perdê-los de vista.

Posso até estar errado e realmente ele me quisesse como assessor. Nesses casos acho melhor não arriscar pra não comprometer o trabalho.

4 comentários:

DB disse...

Essa história de jornalista e assessor é complicado mesmo. Até porque, diante dos salários pagos na Paraíba, fica impossível um pai-de-família manter tranqüilidade em casa. É preciso buscar alternativas para engrossar o orçamento familiar, mas aí a se juntar a políticos e depender deles é outra história. Há sempre alternativas para não ser "comprado com um jantar"...

Anônimo disse...

Exatamente... as pessoas sempre procuram assessoria por ser uma área que ainda emprega muita gente, mas se comprometer com meio de comunicação que se trabalha é complicado d+!

Essa história de se vender é bem comum por aqui, até por muito menos que um jantar... =) kkkkkkkkkkkkkk

Anônimo disse...

Vc tem razão. Nunca mes esqueço, quando ianda trabalhava em O Estado, de Florianópolis e editava política, fui fazer uma matéria com um deputado. Depois de muito papo disse a ele que o assunto, prá virar notícia precisa de um "gancho". O cara na hora pegou o talão de cheque e perguntou quanto? Cara, fiquei pasmo. Aí expliquei que não se tratava de dinheiro. Eu estava buscando algo no meio das informações que ele detinha que fosse capaz de transformar tudo aquilo que até ali me contara, numa notícia. Outra vez, um secretário de Estado que me sondou para assessor, disse que um jornalista quando passa a ser assessor começa a ver de forma diferente o Governo...Então, a história é velha. Mas em quanto estive em redação, claro que nunca aceitei esse tipo de negócio. Mais tarde, decidi abandonar a redação e fui como armas e bagagens para a FIESC onde assumi da direção do Departamento de Comunicação. Então, o jornalista pode ser assessor, sim. Mas terá que abandonar o trabalho em redação de qualquer veículo de comunicação. A verdade e que essa área de assessoria já está bastante profissionalizada, o que é ótimo. Além do que, em muitos casos, remunera melhor. Mas em todo o tempo que estive em assessoria sempre mantive uma postura profissional radical. Certa vez um empresário me disse: um bom assessor não é aquele que consegue emplacar uma matéria num jornal, mas sim aquele que impede a veiculação de determinado fato. Aí eu respondi na hora: então não conte comigo. O cara era diretor. Nada aconteceu comigo, porque eu conseguira impor respeito profissional. Acho que é por aí que as coisas devem ser feitas.
Cordial abraço e obrigado por adicionar o meu bloguinho na relação de links desta página.
Valeu.
Aluízio Amorim
http://oquepensaaluizio.zip.net

Anônimo disse...

Em tempo. Na hora de postar o comentário acima, ao invés de clicar primeiro para visualizar e corrigir erros, cliquei direto em publicar, por isso sairam vários erros. Se vcs puderem revisar aí, fico grato.
Abs
Aluízio Amorim