18 janeiro 2006

Ficha extensa

Nunca fui santo. Nunca foi anjo, também. Enfim, sou normal. Talvez, esse seja meu maior defeito (profissionalmente falando). Por me considerar "normal" gosto dos desafios apresentados diariamente pelo jornalismo. Ao mesmo tempo, tenho medo de encarar as conseqüências dos desafios proporcionados pela carreira que escolhi.

Desde que comecei a trabalhar profissionalmente (com carteira assinada, em 1999), nunca arrumei tanta confusão com minhas reportagens como neste ano de 2006. E olha que nem completou um mês de vida. Em três semanas, consegui atingir a incrível marca de quatro matérias contestadas pelas próprias fontes.

Reclamações sobre minhas matérias não são novidade. Antes de enumerar as confusões que já arrumei em 2006, deixa eu fazer uma recaptulação de todas as encrencas que me meti desde quando tinha 18 anos e estava engantinhando no jornalismo.

Vamos lá:

1999 - Eu, repórter de TV. Foca total. Recém-chegado em Campina Grande. Fiquei espantado com o fanatismo dos torcedores dos times de futebol da cidade. Certo dia, almoçando, tive o azar de estar no mesmo restaurante dos presidentes de Treze e Campinense. Fui convidado para sentar ao lado deles e aceitei. As duas equipes se enfrentariam no final de semana seguinte pela semifinal do Campeonato Paraibano. Havia quatro jogos seguidos que o Treze não ganhava do Campinense.

O povo de Campina Grande, espirituoso como ele só, falou logo que o Treze tinha "tomado na quartinha". Para quem não é do Nordeste, quartinha é um recipiente feito de barro que é muito usado para colocar água ou até cachaça mesmo. Tipo uma jarra. A expressão "tomado na quartinha" era uma referência ao tradicional "tomado no c*".

Pois bem. Os presidentes dos dois times me pediram para fazer um agito para aquele clássico que estava por vir com dois dos principais jogadores das equipes rivais. Passei na feira, comprei uma danada de uma quartinha e levei, no mesmo dia, para o campo do Treze. Chamei o atacante Valério, do Treze, e expliquei que havia combinado tudo com o presidente do time e tal que era para fazer uma brincadeira com a tal da quartinha. Ele aceitou, mas não havia entendido que eu estava com a quartinha ali para entregar para ele e filmar alguma coisa. Tipo ele jogando a quartinha no chão, pisando e quebrando.

Inocente, mostrei a quartinha para ele bem em frente à torcida do Treze. Valério, claro, fez uma cena, tipo: "você é louco de trazer isso para cá, jamais farei tal coisa". Falou alto e nervoso para a torcida ouvir. Fiquei muuuuito sem graça e olhei para a torcida. Ela já estava toda no alambrado do estádio me xingando.

Isso aconteceu em setembro e passei o resto do ano sem conseguir entrevistar Valério direito. O treinador não aceitou falar sobre o clássico comigo. Para completar, criei um caso de ódio com a torcida do Treze que me perseguiu até meu último dia em Campina Grande (20 de novembro de 2002).

2000 - Depois de ter conquistado o primeiro título paraibano em 11 anos, o Treze entrava para disputar a Série C do Campeonato Brasileiro cheio de moral e com o mesmo elenco campeão. entre eles estava Duda, um meia habilidoso, baiano, cheio de ginga, porém tímido com a imprensa.

Por coincidência, ele estivera uma única vez solto de frente aas câmeras. Exatamente na festa de comemoração do título paraibano. Cheio de cana na cabeça, rebolou na boquinha da garrafa, cantou e nós, claro, colocamos toda a festa no ar. Até aí, tudo bem

Acontece que esse neguinho desandou a jogar mal na Série C. Perdeu gol, pênalti, errou passes incríveis, a torcida do Treze (talvez, a mais noiada do Brasil), começou a pegar no pé dele. Sob a influência de Batatinha, chefe dos cinegrafistas da TV Borborema, resolvemos fazer uma montagem sobre a entrevista que ele havia me dado após um jogo da terceirona.

No exato momento em que ele dizia "Eu tenho certeza que tô jogando bem", nós colocamos a imagem do pênalti perdido por ele e, em seguida, ele dançando na boquinha da garrafa. Ou seja, dava a entender que ele tava farrando em vez de se preocupar com futebol.

Acontece que esse neguinho largou o Treze depois dessa confusão. Os jogadores fizeram pacto do silêncio comigo e passaram dois meses sem me dar entrevistas.

2001 - O Treze estava rumo ao bicampeonato. Havia contratado um louco para comandar o time. Um tal de Celso Teixeira. Ele se fazia de amigo das pessoas para depois "esfaqueá-las" pelas costas. Acontece que ele recebera propostas parra sair do Treze no meio do campeonato, mas estava sem coragem para pedir para sair.

Certo dia, estava eu fazendo uma passagem para uma matéria qualquer sobre o Treze no campo do time, quando ele interrompeu o treino e começou a gesticular. Logo chegou um diretor dizendo que eu não poderia filmar aquele treino. Mas, ora, eu tava apenas fazendo a passagem. Já havia filmado tudo que queria, só quem aparecia era eu naquele caso.

Isso deu uma confusão dos diabos. Deixa eu resumir porque esse post já tá gigante. Fiz uma matéria meia-boca sobre a confusao na sexta-feira. No domingo teria algum jogo, que não me lembro qual era.

Após o jogo, esse tal Teixeira deu entrevistas me xingando e me chamando de Daniel Filho nas duas rádios de Campina Grande. Nos tradicionais debates de segunda à noite, recebi a ligação de um ex-jornalista mas apresentador do programa da emissora concorrente aa minha pedindo para falar sobre o caso. Comecei a falar normalmente quando o ex-jornalista me perguntou:

- Você aceitaria falar com Teixeira hoje?
- Claro..., disse sem imaginar que poderia falar com Teixeira na segunda à noite
- Eu tô aqui e não quero falar com essa criança não, interrompeu minha resposta o tal Teixeira.

Aí começou uma sessão de humilhação para cima de mim. Fui humilhado em praça pública. Chamado de analfabeto, criança, despreparado, e tudo com o apoio e a incitação (existe esse termo?) do âncora da rádio. Claro que respondi a todas as provocações do Teixeira, sempre em alto nível, sem xingá-lo ou acusá-lo de qualquer coisa. Mas sei que não consegui me sair bem no "debate".

O treinador saiu do Treze. E no dia seguinte, os jornais O Norte, em João Pessoa, e Diário da Borborema, em Campina Grande, estamparam em suas primeiras páginas: "Celso Teixeira: inimigo da imprensa". Conseguimos apurar que em todas as outras equipes que passou, esse Teixeira havia brigado com algum jornalistas para sair das equipes.

2002 - O Treze (sempre ele) andava muuuito mal das pernas (e dos bolsos). Fiz uma matéria com o zagueiro Almir Conceição "dando porrada" na diretoria por não cumprir o que prometia. A torcida caiu em cima de mim. Era véspera de clássico contra o Campinense (sempre ele, também).

Para completar, o apresentador do programa para o qual eu era repórter fazia questão de jogar a torcida do Treze contra mim. Não sei porquê. Mas fazia essa questão. Até que após o clássico (não me lembro quem ganhou), um diretor entrou no gramado de treinamento com vários bolos de dinheiro na mão. Fez aquilo para me provocar e para inflamar a torcida.

Foi o suficiente. Choveu sabugo de milho em cima de mim. Sabugo de milho, cusparada, chiclete, garrafa d'agua cheia de mijo... Foi preciso um outro diretor do time ir lá pedir para torcida parar. Quando estava entrevistando Rodrigo Tabata (hoje no Santos), ele fez sinal de calma para torcida porque ninguém parava de me xingar. Na saída do estádio, os torcedores cercaram o carro da TV e ameaçaram balançar a viatura. Foram momentos de pânico, confesso.

O que eu fiz? Pedi para o cinegrafista filmar toda a confusão e apresentei aos "chefes". O que aconteceu? Eu passei a ser apresentador do programa e o apresentador passou a ser repórter. Quantas reportagens no campo do Treze foram apresentadas no programa depois disso? NENHUMA...

(caraca, já escrevi muito e ainda nem cheguei na metade)

Pulamos, pois, os anos de 2003 e 2004.

2005 - Já no Correio Braziliense. Fui fazer uma matéria com a jogadora Flávia, do time de vôlei que disputava a Superliga (Campeonato Brasileiro). Ela é linda. Fiz uma matéria com o título: "A musa da Superliga". Perfil da atleta, fofoquinhas sobre namorados e tal. No meio da conversa, perguntei:
- Livro?
- Chikérrimo, de Glória Kalil

Publiquei a resposta. Flavinha me odiou para sempre. Até hoje deve ter esse sentimento. Não falou mais comigo até o término da Superliga. "Fiquei parecendo fútil", reclamou para as amigas.

Teve o caso do pivô da República Dominicana José Vargas, que atuou em Brasília, durante o Campeonato Nacional de basquete. Ele fez críticas a todos os jogadores na vespera da semifinal do campeonato. Recebeu uma bronca do diretor e eu liguei para ele para saber como tinha sido o papo (com o diretor). Ele reconheceu que havia criticado colegas na hora errada. Fiz essa matéria.

No último treino antes da ultima partida da semifinal, ele me encotrou e disse que eu menti, escrevi coisas que ele nao tinha dito e o escambau. Agora, imagina o cara de exatos 2,10m de altura apontando o dedo na minha cara, que está a, apenas, 1,74m de altura do chão? No momento em que ele dizia que eu havia escrito uma matéria que nunca existiu apontando o dedo na minha cara, calculei que a mão dele era duas ou três vezes maior que a circunferência de meu rosto.

Para minha sorte, o time de Brasília perdeu e esse cara foi embora de Brasília. Hoje encara repórteres em Franca (SP).

Chegamos (UFA!) em 2006.
Primeiro dia do ano começa com uma entrevista que fiz com um camarada chamado Baltemar Brito. Pernambucano, auxiliar técnico de José Mourinho, treinador do Chelsea, um dos times mais poderosos do futebol do planeta. Apesar do sobrenome, ele não é meu parente.

Ele me deu uma entrevista super legal. Disse que Mourinho (puta treinador) era um jogador de futebol medíocre, reclamou das torcidas brasileiras, falou sobre a falta de zagueiros na seleção brasileira.

Ao enviar a matéria para ele (após publicada no Correio BRaziliense), ele me liga na mesma hora.
- Rapaz, como eu vou mostrar essa reportagem para Mourinho?
- Desculpa (Baltemar) Brito, mas nossa conversa foi toda gravada. Você disse isso e eu tenho gravado
- Eu também não disse que os zagueiros da Seleção eram ruins. Também não reclamei disso, nem disso, muito menos daquilo, enumerou o camarada.
- Mas tá gravado!
- Eu sei, mas é que fiquei à vontade com você e falei coisas que não devia. Tem como republicar a matéria?

Impossível.

Outra polêmica do ano.

Matéria sobre o calendário do vôlei de Brasília para 2006. Coloquei que o Governo local não queria trazer um jogo da Liga Mundial e o Banco do Brasil estava negociando com governos para deicidir quais cidades sediariam as etapas do Circuito BB de volei de praia. Tudo baseado no que disse o presidente da Federacão do DF de volei. No dia seguinte, tanto o governo do DF como o BB mandaram carta reclamando da matéria. E olha que o texto ocupou um pé de página (20 cm). O governo culpou a federacão por nao haver Liga Mundial e o BB disse que não negocia com ninguém nada. Alguns diretores do banco estão sendo acusados de ter envolvimento em corrupção. A expressão "negociação com governos" por lá é motivo para escândalos.

Mais uma, desta vez no basquete:

Dois jogadores norte-americanos do time de Brasília que disputam o Campeonato Brasileiro são acusados de terem jogado sem o visto de trabalho para estrangeiros no país. Tal infração resulta em multa de R$ 50 mil, mais a perda dos pontos ganhos no jogo em que os caras não tinham visto e ainda cancelamento do pagamento por parte do governo da verba anual que a confederação de basquete tem direito.

A denúncia surgiu no jornal Lance!. Eu apenas republiquei e fui maltratado pelo diretor do time de Brasília. Inclusive, "acusado" de investigador, mal-caráter e intruso. Retruquei, mas preparei uma ofensiva por conta própria.

Fui no Ministério do Trabalho, no Ministério da Justiça e na Polícia Federal pegar informações sobre os dois caras. Um deles ficou confirmado que estava, de fato, sem visto em um jogo do campeonato.

Liguei para os diretores do time falando que queria fazer a matéria. Eles ligaram para meu chefe para tentar impedir a publicação. Não só não conseguiram impedir a publicação como deixaram a entender que erraram mesmo e o jogador estava sem o visto na estréia do Campeonato Brasileiro de basquete.

Fizemos a matéria com as informações que eu tinha conseguido nos órgãos federais e nao deu em nada. A confederação jamais vai reconhecer que aceitou um jogador que não tinha visto no país. Ela deixaria de receber a verba anual do governo. A maior perda foi minha, que não tenho mais uma grande fonte na área do basquete.

Por último (será que alguém ainda tá lendo este post?) , o volei, de novo.
O treinador do time de brasília, William Carvalho foi medalha de prata nas Olimpiadas de Los Angeles em 1984 e é extremamente gente boa. Porém, o time dele não começou bem a Superliga (Campeonato Brasileiro).

Fiz uma matéria comparando o rendimento deste ano com o do ano passado. Ele me disse assim, aos ver os números:

- Se nossas estatísticas não subirem daqui a cinco jogos, eu não vou estar mais nesse time
- Posso publicar essa sua declaração?, fiz questão de perguntar.
- Pode, pode..., respondeu, se despedindo

A matéria saiu no jornal de sábado, 14 de janeiro. As 11h da manha de sabado ouço um recado na minha secretaria do celular:
- Daniel, é o William. Eu não te dei esse tipo de entrevista. Você perdeu um cara que podia contar e eu perdi a confiança em você...
Esperei até segunda-feira para ligar para ele e conversar de cabeça fria. Ele não me atendeu. Pelo que soube da repórter do jornal concorrente ao meu, Camila Valadares, William achou uma babaquice a minha reportagem e não me dará entrevistas enquanto estiver em Brasília.

Hoje, quarta-feira, tenho que entrevistá-lo. Vou ligar para ele. Vamos ver o que ele vai fazer quando ouvir minha voz. Não quero briga, quero saber o que aconteceu para ele negar o que havia me dito na semana passada.

Diante de um histórico desses, ecoa alto na minha cabeça uma frase célebre de Batatinha, o mesmo cara que fez a montagem com o meia Duda, do Treze, dançando na boquinha da garrafa e errando gols:

"Jornalista ganha pouco para falar bem de todo mundo".
(DESCULPE O TEXTO GIGANTESCO, SÓ QUERIA EXPLICAR A HISTORIA DIREITINHO)

2 comentários:

Léo Alves disse...

É meu amigo DB. Tantas confusões e logo com time que você torce. Deve ser por essas e outras que os trezeanos pensavam que você era raposeiro. Se bem que quem tinha dúvida do time que você torce basta dar uma olhada no site do Galo (www.treze.esp.br) na seção "Treze pelo mundo" que vai ver vc exibindo orgulhosamente a camisa alvinegra na França.

Anônimo disse...

Obrigado por Blog intiresny