26 novembro 2006

A demissão de Mário

Pedro Henrique Freire

Mais bem pensada do que correta, a atitude de Lúcio Mário foi, acima de tudo, digna. Diretor de redação de um jornal importante, ele colocou a cabeça a prêmio. É esse mais um retrato da profunda crise que atormenta a imprensa brasileira. Cada vez mais, jornais quebram ou, para sobreviver, entregam sua linha editorial para governos e políticos. Essa segunda opção é claramente mais usada.

Foi com essa reflexão que Lúcio Mário chegou para trabalhar naquela sexta-feira de sol escaldante. Tranqüilo, como sempre, tratou logo de ficar informado sobre os assuntos do dia e o desempenho do jornal em relação ao concorrente. Mais uma decepção: a equipe de política local pegara um furo espetacular. “Paciência”, pensou.

Apesar de estar acostumado a tomar furos, devido a equipe reduzida e profissionais sem fontes relevantes, aquilo parecia um anúncio de um dia difícil. Dito e certo. Às 15h, o diretor-geral do jornal pede uma reunião. Nela, estarão os superintendentes comerciais, conselheiros, o diretor executivo e, claro, o de redação.

Antes de entrar na sala, ele previu que teria que demitir alguém. Foi assim no último verão, quando tivera que mandar para rua 10 funcionários de uma só vez, entre jornalistas, paginadores e fotógrafos. Dessa vez, o movimento da direção era o mesmo. “Como sempre, quem sofre baixa é a redação”, pensou Mário. Ele nunca entendeu porque a redução de custo de uma empresa jornalística sempre atingia mais profundamente a redação se o motivo da existência da empresa (a notícia!) é criado lá.

- Sentem-se, senhores. A notícia que vou dar não é boa. Quero ser objetivo para que possamos tomar providências mais rapidamente – informou o diretor geral. Um sujeito gordo, de cara fechada e voz grossa.

- Pela postura dos senhores, temos aqui realmente um caso sério – disse Lúcio Mário, procurando a descontração.

O discurso devastador do chefão foi o seguinte:

- É verdade, Mário. Como você sabe, a empresa não vai bem. Aqueles cortes do verão passado irão se repetir. Estamos quebrando e preciso diminuir o tamanho da empresa, senão vamos morrer. Antes que tenhamos que fechar as portas e mandar todo mundo embora, quero que você me encaminhe até o final da tarde uma lista com 40 profissionais da redação. Tenho que demiti-los ainda nesta semana.

Em choque, Mario silenciou. Pensou nas famílias dos repórteres que seriam demitidos e nos amigos que fez durante aqueles quase 10 anos comandando uma equipe de 87 profissionais. Agora tinha que criar uma lista negra com metade da redação. Era um momento potencial para ser odiado por seus colegas de trabalho pelo resto da vida.

Ele decidiu por tirar o seu da reta:

- Senhor Albuquerque, eu entendo a situação do jornal e também a necessidade de cortes. Mas sugiro que eles não sejam concentrados na redação. Em outros setores da empresa, há excessos de funcionários e até funcionários ocioso. Isso é o que se houve falar. Por uma questão pessoal, eu também não poderei elaborar essa lista. Gostaria que o setor comercial o fizesse. Isso seria muito ruim para minha carreira e imagem como jornalista. Pediria que entendesse minhas razões e analisasse as sugestões.

Mário terminou o comentário com um pingo de suor atingindo seu colarinho. Conseguiu ser objetivo e firme, embora estivesse nervoso. Mas não superou a resposta do chefe:

- Não se trata de razões pessoais, Mário. Não estou aqui pedindo nada. Estou descrevendo uma situação e exigindo a sua lista até o final da tarde. Ou você faz isso, ou será demitido.

O FIM
- Então me demito. Cansei de ser vítima dos equívocos comerciais. Já mandei para rua muitas pessoas. Tive problemas profissionais por isso. Não mais serei algoz de ninguém. Tenho respeito pelas famílias dos meus funcionários. Não acato a ordem e por isso deixo este jornal a partir de hoje. Passar bem.

2 comentários:

Felipe disse...

Que jornal foi esse? Onde rolou isso?

Felipe disse...

Tah bom, foi mal perguntar. Foi mal ai, hein?