Por Léo Alves
Nenhum repórter gosta de ouvir: “cuidado que essa matéria é recomendada”. Talvez não sejam apenas os repórteres que têm repulsa pelas famosas “rec”. Quando ela (a rec) aparece, a redação tem fazer tudo para atender o pedido (em tom de ordem) do patrão.
Não há desculpa. Não tem como dizer “que não deu para fazer porque todos os repórteres estavam ocupados”. A ‘rec’ caiu na sua mão e você que se vire. Até porque, indo ao extremo, é o seu emprego que pode estar em jogo.
O pior é que muitas vezes a 'rec' só vira matéria porque é recomendada. Não existe outro motivo. Já tive que fazer inauguração de clínica oftamológica, de restaurante, de loja de roupa. Confesso que tentei encontrar um bom gancho para matéria, mas minhas limitações jornalísticas não permitiram.
Quase sempre o patrão (dono da empresa que você trabalha) está no local da matéria ‘rec’. E aproveita para apontar um monte de gente que deve ser entrevistada. Se isso não acontecer, a dica é perguntar-lhe se tem alguém que ele gostaria que fosse entrevistado. Obviamente existe o risco de o patrão perguntar: “você não sabe fazer seu trabalho?”. É um risco que se tem que correr. Afinal é melhor que no outro dia ouvir: “por que você não entrevistou fulano?”.
O problema é encaixar o monte declarações dos entrevistados na matéria. Mas volto a dizer: isso é problema seu, aliás, nosso.
Confesso que depois que fui para a produção da tevê (há cerca de dois meses deixei a reportagem) comecei a ver o outro lado das ‘rec’. Pois é, tem dias que ela salva parte da produção. Há cerca de um mês duas matérias acabaram caindo. Estavámos com um horário vago. E não é que apareceu uma ´rec' em cima da hora. Salvou o restante da produção. Porém se as matérias não tivessem caído teríamos que derrubá-las para fazer a ‘rec’.
As recomendadas existem e, acredito, que sempre vão existir. Não adianta eu, você ou qualquer outro jornalista fazer biquinho, entronchar a cara, se chatear. Nós temos que fazê-la. É o patrão que está pedindo.
O nosso desafio (dos chefes de reportagem e produtores) é tentar descobrir um bom gancho e transformar a matéria recomendada num fato jornalístico. Será melhor para o repórter e para o telespectador (ou leitor). E de quebra o patrão ainda ficará feliz.
Trem bala (cover)
Há 8 anos
7 comentários:
É, grande Léo, não podemos ser mais realistas que o rei. De fato, as "rec" sempre vão existir. Cabe a nós fazermos dela um desafio que nos ajude a crescer como profissionais.
Abçs
Fazia muito tempo que não lia um texto tão envolvente e de um conteúdo pertinente como esse. Léo, realmente as 'RECs' às vezes são um tormento para nossa atividade.
Mas, como vc mesmo disse, elas têm um lado positivo: estimulam a sensibilidade jornalística do repóter. E isso é
muito bom.
O complicado é quando nem com reza forte se consegue...
Aí rapaz, o bicho, ou melhor, as 'RECs", pegam.
Eu considero repugnante essas matérias recomendadas e, na minha opinião, é o lado mais podre da imprensa. É exatamente nessas matérias encomendadas que a ingerência política se estabelece. Matéria encomendada para beneficiar determinados políticos apoiados pelos grupos de comunicação. As matérias encomendadas vêm acompanhadas do selo "a população e os leitores que se dane". É mais um lado do chamado sistema. De fato as matérias recomendadas existem e são mais uma prova de que o jornalismo é parcial e serve ao interesse do patrão.
comcordo com o Fernando. esse é de fato um dos lados negros da imprensa no Brasil e no mundo. mas infelizmente é uma realidade absolutamente freqüente, por isso o melhor é encarar o problema de frente e aprender a lidar com as situações.
bjo
Esse Fernando é quente mesmo! Tá certo, é isso mesmo! Ainda quando esse expediente é usado "apenas" para dar destaque à lojinha de um amigo que tá abrindo, é repudiável, pq ocupa devastadoramente o lugar de uma matéria de interesse p a sociedade. Infelizmente, é uma prática usual,e como disse o Léo, aqui, onde se faz o "jornalismo chuchu", muitas vezes acaba tapando o buraco do jornal do dia. Dá vontade de chorar.
Léo, brilhante sua definição da nossa querida 'rec'. Ela existe e não vai deixar de existir nem tão cedo. Cabe a nós a tarefa herculea de transformar as 'rec' em matérias de interesse público.
Léo, pior que fazer matéria "rec" é quando a produção consegue uma boa pauta sobre alguma denúncia e ela cai porque vai atingir algum amigo do patrão ou contrariar os interesses do mesmo. Já ví casos assim acontecer na redação e quem sai prejudicado é o telespectador, já aconteceu de pessoas ligarem fazendo denúncias e a redação se fazer de "morto" porque se fizer a matéria, ela cai ou pior ainda, mandar a equipe fazer a matéria e ser surpreendido com um telefonema "quem mandou fazer essa matéria?" cria-se um clima de tensão dentro da redação e a gente tem que correr para mandar a equipe voltar para a redação. É péssimo!
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