06 agosto 2007

O momento em que bate o cansaço

Por Daniel Brito

O ritual se repetiu em 20 das 25 noites que ficamos no Rio de Janeiro:

um caldo de feijão, uma carne com batatas, um suco de laranja, e, por fim, um chopp.

Ao lado dos repórteres Ivan Drummond, Eneila Reis e do fotógrafo Emmanuel Pinheiro, eu jantava em um restaurante na esquina do hotel em Copacabana para finalizar mais um dia de cobertura dos Jogos Pan-Americanos para o Correio Braziliense e Estado de Minas.

O jantar era sempre depois das 22h30, horário em que todas as matérias já haviam sido lidas e colocadas nas páginas pelo diagramador em Brasília e Belo Horizonte. Ele (o jantar) decretava o fim do expediente, que mais parecia uma semana, de tantos acontecimentos, entrevistas e textos feitos nas últimas 12 ou 14 horas de trabalho.

Um dia de cobertura do Pan era uma das coisas mais desgastantes que já passei na vida. Imagino que em outros eventos como Copa do Mundo, Olimpíada, até uma CPI mesmo, seja tão ou mais cansativo.

Pois bem.

Depois daquele chopp diário (ou noturno), me batia um sono incontrolável. Uma coisa de pagar a conta na mesma hora e seguir para o hotel com os olhos semi-cerrados, evitando conversar para não parecer um sonâmbulo.

Todos-os-dias-foram-assim.

O chopp, uma caneca só, parecia uma dose de Boa Noite Cinderela.

Na manhã seguinte, ficava repensando tudo que fiz no dia anterior. Tentava lembrar o exato momento em que o cansaço me apanhava de tal maneira para me nocautear com tanta facilidade após um humilde choppinho???

Não era a viagem de uma hora de ônibus oficial do Pan até Jacarepaguá;
Não era a conversa com meu editor pela manhã para saber o que eu deveria cobrir a cada dia; Não era o trânsito no Rio de Janeiro;
Não eram os jogos e apresentações; não era o calor da zona mista, onde os jornalistas se acotovelam para entrevistar os atletas antes da coletiva;
Não era o momento em que tinha que escrever a matéria....opa...peraí.

Era isso.

Era o texto.

É o texto.

Tudo que se apure nas coletivas de imprensa, nas espremidas entrevistas na zona mista está, antes mesmo de sua matéria chegar na caixa de email da redação, em T-O-D-O-S os sites de esporte do país.

Então, por que, ora bolas, o jornal investe uma grana alta para me trazer para cá, para o Rio de Janeiro, se tudo que eu apurar estará mais rápido na redação do que o meu próprio texto?

Simples.

Porque o jornal quer um texto diferente, quer detalhes que a rapidez do jornalismo na internet não capta. O jornal aposta que você pode conseguir informações que nenhum outro jornalista conseguiu.

Pensando nisso, passei a prestar atenção nos detalhes. No comportamento da jogador na hora de falar com o treinador, na reação da torcida a cada erro, na maneira como fulaninha olha para o nada quando fala com os jornalistas.

É uma coisa meio de psciologa comportamental.

Ao final do jogo, da zona mista, da coletiva, eu tinha reunido tantas informações que precisava reler as 10, 15 páginas do meu bloquinho para selecionar as principais. Era nesse exato momento em que meu cérebro atingia o ápice do esforço. Ele chegava a mil rotações por minuto com a obrigação de fazer a diferença.

Daí eu me lembrava dos livros que li recentemente, para tirar exemplos legais de narrativas interessantes. Puxava pela memória roteiros de filmes instigantes, até letra do Legião Urbana eu tentei implementar no meu texto mas faltavam algumas rotações no meu cérebro para atingir o nível de adaptar uma história de Renato Russo aa vida real e ao meu texto, claro (depois conto essa história).

Quando terminava de escrever, estava esbaforido. Parecia que tinha corrido atrás de Franck Caldeira pelos 42km da maratona e depois, nadado 10km na maratona aquática com Poliana Okimoto.

Não sei se consegui fazer diferente dos demais jornais, só sei que quero recuperar a disposição para tomar mais de um chopp por noite sem capotar de sono.

17 comentários:

Toty Freire disse...

É essa disposição do repórter que proporciona a diferença entre os jornais e a internet. É o detalhe, o esforço de quem escreve. Não a rapidez, mas a riqueza do texto. Tive oportunidade de acompanhar a cobertura que fizeste e tenho certeza que teu esforço valeu. Assim como o do Ricardo Miranda.

Parabéns

Fernando Firmino da Silva disse...

Daniel muito bom esse seu texto. Um texto para ser usado em sala de aula em diversas perspectivas. 1.Como escrever para jornal impresso diante de uma notícia já publicada na Internet. a Necessidade do diferencial
2.Jornalismo literário. Como ir além do texto fechado do lead (e engessado) capturando outras características como o ambiente, o comportamento dos personagens da notícia, a busca de informações adicionais para o texto (filmes, letras de música, livros de literatura).

Diante do sufoco do dead line que significa uma cobertura como o PAN vc demonstra que é possível (e necessário) ser diferente oferecendo ao leitor de imrpresso uma cobertura diferente da Internet. Penso que o caminho do jornalismo impresso é esse mesmo: se diferencia pelo diferente. Se não tem video, áudio ou animação no impresso, mas pode-se ter informação exclusiva e formas de escrever (principalmente) de forma distinta.

Parabéns pelo texto, Daniel. Ele abre portas para outras discussões.

abraços

Anônimo disse...

Tentar fazer diferente mostra o quanto vc gosta do que faz. Muitos outros jornalistas tentariam fazer o mais fácil. Vc fez questão de fazer oq ue ninguém fez. E essa vontade de fazer bem faz a diferença no profissional q vc é. Parabéns pelo texto e pela cobertura, Dani.
Bjos,
Ana

Felipe disse...

É o que o Noblat chamava de notícia invisível. Aquela que está além do simples relato do que ocorreu. Mais do que um relato, a notícia invisível é uma descrição, uma narração de um acontecimento nos mínimos detalhes. E o fato em si (o relato que poderia ser o objetivo inicial) fica enriquecido de detalhes que contextualizam bem o leitor e dão um diferencial.

Tenho certeza que sua maratona pan-americana teve ótimo resultado. Nem te preocupes.

Abração!!!

Anônimo disse...

No mundo jurídico, os gaúchos são considerados os mais estudiosos e dedicados.
Na política, não há nada melhor que os mineiros.
Temos a famosa culinária baiana e a exótica comida paraense.
Os pernanbucanos são os mais bairristas do país.
O certo é que cada estado tem uma característica marcante, mas o ideal é que o homem tenha duas qualidades: ser mineiro e torcer pelo Atlético-MG, e eu, orgulhosamente, tenho as duas.
O preâmbulo é para registrar que um estado que marcou profundamente minha vida é a Paraíba.
Os saudosos paraibanos CELSO FURTADO e ERNANI SATYRO foram importantes na minha formação e até hoje sou grato aos dois.
Mas o que Celso Furtado e Ernani Satyro têm em comum com um menino sardento, devorador de chocolate, tarado pela revista G Magazine e que atende pelo apelido de DANIEL BRITO?
A Paraíba.
É com muita satisfação e orgulho que hoje li o blog "Os Filhos da Pauta". Desejo a você Daniel que tenha, e com certeza terá, o mesmo sucesso que seus conterrâneos tiveram.
Termino dizendo: NEGO, você é mesmo um filho da p...

Anônimo disse...

O aprendizado de Daniel Brito foi excelente. Hoje, quem não “faz diferente”, não tem o trabalho reconhecido e isso, não ocorre apenas no jornalismo, mas em qualquer profissão. Os textos jornalísticos necessitam não apenas de técnica, mas de que se escreva-os com a alma. É importante a descoberta de detalhes novos, para a quebra de paradigmas textuais em relação aos assuntos abordados nas reportagens. Além disso, evitar a superficialidade e buscar com que o texto tenha conteúdos plausíveis que enriqueçam o leitor é algo bastante viável. Daniel conseguiu adquirir um belo aprendizado para sua carreira nos jogos Pan-Americanos e cada jornalista deveria tentar redescobrir-se, pois assim, irá desempenhar cada vez mais, um bom trabalho para a sociedade.

Anônimo disse...

Creio que um texto bem escrito é preferível ao texto curto elaborado de maneira simplista a fim de se ganhar tempo. É importante que os jornalistas lembrem do seu dom de escrever ao colocar no papel fatos que ocorreram e que podem ou não ter um peso histórico. A maneira como se escreve é essêncial para se passar uma mensagem de forma bem sucedida.

Parabéns, a sua mensagem foi bem passada.

gerenciamento disse...

Apesar da rapidez, e eficácia, o ciberespaço não é uma fonte de informação em certos termos confiável.Há notável diferença na qualidade do trabalho impresso quanto a internet que resume ao minímo importantes desfechos da matéria.

rosane disse...

Este texto mostra a importância do trabalho de um bom jornalista esmpre procurando melhorar e fazer seu trabalho buscando algo novo,para fazer a diferança na sua vida profissional.observando com olhos de jornalista tudo que acontece ao seu redor.Escrever um bom texto rico en informação e colocando de forma clara para seu leitor. Ele tambem fala da importancia de ser diferente e de fazer diferente.

Anônimo disse...

"O momento em que bate o cansaço" certamente foi recompensado. Uma cobertura de um fato que já foi publicado e discutido tem de ter algo a mais, uma pitada especial de alguém que presenciou as competições e emoções. É o toque que humaniza a matéria sem espetacularização, mas também sem a frieza daquelas notas publicadas a cerca do mesmo assunto. Parabéns, Daniel. É um ótimo texto.

Cristiano Porfirio disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Anônimo disse...

Detalhes realmente fazem a diferença e é aí que os textos lançados nos sites se diferem dos publicados nos jornais. É cômodo buscar-mos informações na frente do computador. A informação contida em um texto de internet, nos coloca a par dos acontecimentos, porém eles não chegam a nós esmiuçados e tão rico em detalhes como o texto impresso nos jornais.

Parabéns pela ótima observação!

*!!* Ruth *!!* disse...

Parabéns pelo texto. É muito satisfatório ver que ainda, no meio desse mercado saturado, há profissionais compromissados em passar para a população um texto bem elaborado e bem escrito. São jornalistas comprometidos em divulgar a realidade, sem a superficialidade que nos toma a cada dia, que fazem a diferença em meio a essa profissão , que tem diretamente um dever social perante a sociedade. Não basta apenas escrever uma notícia, cada linha digitada e cada página virada tem a função de informar e de gerar questionamentos ao leitor. Com certeza a rapidez e a falta de tempo, principalmente levando em conta a bagagem cultural de cada pessoa, faz com que se perca o prazer da leitura de bom texto.

Ruth Barbosa

Cristiano Porfirio disse...

O fascínio de um texto está justamente no poder de informar, entreter e manter o leitor com os olhos presos nas linhas, não se entregando em nenhum momento ao fantasma do enfadonho.
A linha tênue que diferencia o estilo, pode ser uma armadilha ou o encontro ao Santo Gral pelo jornalista, que quanto mais preparado poderá reconstruir fatos da melhor maneira possível.
Interessante as idéias que podemos ter ao ler o texto de Daniel Brito, pois é um tema que deveria estar em pauta na profissão e principalmente nas faculdades de jornalismo, pois a obrigatoridade da pesquisa, da observação de detalhes e a consequente bagagem de leitura são fundamentais para se chegar a um bom texto que será um produto diferenciado dos comuns. Uma missão jornalística profissional não impossível, que necessita apenas força de vontade e disciplina.

Um abraço e parabéns!

Cristiano de Queiroz

Unknown disse...

Favor desconsiderar o comentário anterior.

Detalhes realmente fazem a diferença e é aí que os textos lançados nos sites se diferem dos publicados nos jornais. É cômodo buscarmos informações na frente do computador. A informação contida em um texto de internet, nos coloca a par dos acontecimentos, porém eles não chegam a nós esmiuçados e tão rico em detalhes como o texto impresso nos jornais.

Hellen Tôrres disse...

Como muitos diriam: quero muito crescer e ser igual a você(risos)!! Igual não, é claro! Mas, pelo menos saber e fazer a diferença no jornalismo. Poder enovar, renovar... com a certeza de que fiz o meu trabalho, não de qualquer jeito, mas sim, do MELHOR jeito! Com certeza você faz o seu dessa forma! Parabéns! Espero que esteja tomando mais de um chopp nas suas noites! Abraço!

Anônimo disse...

Descrever fatos ou relatar acontecimentos é uam tarefa cansativa que, às vezes, exige muito do jornalista,pois ele precisa captar qual leitor estará escrevendo e como a sua informação será recebida por este leitor. Uma exigência física e mental que transforma o cotidiano desse profissional num estresse desmedido. Um ponto fundamental,que possa fazer a diferença entre todas aquelas que são publicadas a cada minuto. É importante o jornalista ter a sensibilidade e visá-la em cada detalhe para tornar sua matéria interessante aos olhos do leitor.