Por Daniel Brito
Quando o jogador de basquete foi encontrado morto, em uma cidade próxima a Brasília, em novembro último, eu era o responsável pelo assunto. Fui eu quem noticiou em primeira mão o sumiço de um norte-americano, recém-contratado pelo time de basquete de Brasília, e ele tinha comportamento típico de portador da síndrome do pânico.
Quando ele sumiu, consengui o telefone da esposa dele em Seattle graças a uma coincidência incrível. A colunista social do Correio Braziliense é amiga de um médico que trabalha em Brasília. Ao ler a notícia do sumiço, o doutor comentou com a filha, que mora em Seattle. Para surpresa dele, a filha não só tinha ouvido falar da história como trabalhara com o jogador no departamento de serviço social da prefeitura de Seattle. A filha do médico conhecia a esposa do atleta.
O médico comentou com a colunista esta incrível coincidência e ela pediu o telefone da filha dele para tentarmos o contato com a família do gringo.
Pelo menos 10 dias antes de o jogador aparecer enforcado na árvore, conversei com a esposa dele. Ela me contou que estava grávida de oito meses. Nas entrelinhas, deixou a entender que sabia onde o marido estava e porque ele fugira do time sem dar explicações, mas não tinha comportamento nem tom de voz de quem parecia estar desesperada. Ela também assegurou que o camarada nunca teve problemas psicológicos.
Dias mais tarde, chega a notícia da morte do cara. Era início da noite de um domingo qualquer de novembro. Eu estava de folga e fui convocado às pressas para a redação. Chegando lá, o chefe dos chefes me passou a ingrata missão de ligar para a esposa do jogador.
Por três vezes, disquei, a ligação chamou do lado de lá do Equador, mas antes que ela atendesse eu desliguei.
Passar a notícia de que algum parente morreu já é muito complicado na sua língua materna, imagine, então, em inglês? Com dois agravantes: a esposa do cara estava grávida de oito meses e não ficara satisfeita com a minha insinuação de que ele apresentava sintomas de síndrome do pânico.
Em meio ao fechamento, cheguei na sala do editor e falei:
- Não sei se estou certo fazendo isso, mas queria te pedir para me livrar da tarefa de ligar para a esposa do jogador.
- Tá certo, ele respondeu secamente, checando os prints da primeira página. Foi a primeira vez que uma matéria minha foi manchete principal do jornal.
(Esporte é assim, se não for final de Copa do Mundo, somente uma tragédia coloca o notícia na manchete.)
Aima dos critérios jornalísticos de apuração está o "amor à humanidade", como já disse Leonardo Boff. Não que a esposa represente a humanidade inteira, claro que não. Mas me incomodava o fato de desrespeitar o profundo sentimento dela e da família naquele momento. Isso se chama compaixão, o que para um jornalista soa como um pecado capital. Mesmo que eu estivesse disposto a fazer isso no dia seguinte, depois que ela assimilasse melhor a situação.
Estava, realmente, a fazê-lo.
No dia seguinte, no entanto, peguei a estrada atrás do corpo do cara e das investigações sobre a causa da morte e segui esse périplo por mais três, quatro dias. Uma semana depois entrei de férias e nenhum jornalista brasileiro conseguiu falar com ela.
Trem bala (cover)
Há 8 anos
7 comentários:
Tem hora que a sensibilidade fala mais alto. Como já disse aqui no FDD em outro post jornalisa também é gente.
corrgindo: em vez de FDD leia-se FDP (filhos da pauta)
Isso é horrível. Eu não dou conta de entrevistar neguinho que acabou de saber ou nem sabe da morte de um parente. Deus me livre. Peçopra sair!!!
E essa história aí tá muito esquisita. A versão do seu chefe / colega, já relatada a mim em detalhes, é surreal também!!!
abs
Isso é horrível. Eu não dou conta de entrevistar neguinho que acabou de saber ou nem sabe da morte de um parente. Deus me livre. Peçopra sair!!!
E essa história aí tá muito esquisita. A versão do seu chefe / colega, já relatada a mim em detalhes, é surreal também!!!
abs
Daniel, vc já sabe que gosto de ler o que você escreve. Gosto destas histórias da vida de jornalistas. Um dia desses estava lá no caderno de esportes, para ver como você escreve no jornal. (o caderno de esportes nunca leio, não gosto).
Realmente uma notícia dessa não é fácil, assim como acredito que fazer a reportagem também não. Antes de "conhecer" e "acompanhar" a vida dos jornalista, nunca tinha percebido que por vezes é tão exaustiva, fisica e emocionalmente.
Sucesso.
Paula, obrigado pelos elogios...Fico muito feliz que goste do que eu escrevo, mas, por favor, não se preocupe em ler a página de esportes do Correio. Eu só escrevo sobre o insosso futebol local, aí, sabe como é, né?
Não me preocupo em ler. Foi curiosidade mesmo. Conheço como vc escreve no blog e queria ver como era escrevendo sobre futebol. Só isso.
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