Pedro Henrique Freire
Tudo bem que há um surto de febre amarela. Até aqui foram nove mortes no Brasil. Tudo bem também que os jornais e as autoridades devem estar ligados, monitorar e divulgar os novos casos e dar todas as informações necessárias à população. Mas, pondero, não exageremos, amigo.
Outro dia escutei no rádio um especialista que dizia o seguinte: vamos tomar cuidado com a vacina. Nem todo mundo precisa. Não faremos como no final da década de 90, em São Paulo, quando sete pessoas tiveram a doença, mas nenhuma morreu. Três morreram, sim, por tomar a vacina.
Ou seja, as nove que estão com febre amarela correm risco de vida. E os um milhão de pessoas que tomaram a vacina com medo dela, também.
Há uma semana, encontrei um amigo que trabalha na Globo de Brasília. Ele me contava o seguinte: “Rapaz, tava quase saindo da redação, mas descobrimos um cara que tomou a vacina três vezes. Ele foi parar no hospital, com ‘overdose’ de febre amarela. Quando descobriu isso, ele fugiu do hospital, com medo”, comentou. Ainda não sei o resto da história.
Concluo que esse cidadão estava com medo da doença. Apavorado, sobretudo, por um provável terrorismo da mídia.
Desde o primeiro caso da doença no Centro Oeste, os jornais da região começaram o carnaval. Claro, com reportagens bem feitas e dando todas as informações que o público precisa. O problema é que a cobertura diária – a qual atribuo simplesmente à tradicional escassez de notícias de janeiro – cria um clima de insegurança.
Eu, que tomei a vacina há dois anos, estou perto de ficar com medo de contrair. Minha mãe, que viria para Pirinópolis no Carnaval, desistiu. No Maranhão faltam vacinas e pessoas passam mal na fila. Outro dia uma senhora teve um AVC enquanto esperava pra tomar a dose. Estava lá há três horas. E olha que em São Luís e todas as outras 216 cidades do estado não é registrado um caso sequer há 10 anos.
Ou seja: penso que a mídia erra a dose e cria a instabilidade, transformando um problema localizado numa coisa global. Acaba fragilizando a população. Espalha o medo. É como nos EUA, após 11 de setembro: os jornais colocavam o Bin Laden na capa com uma arma apontada para o território americano e o Bush com algumas tropas de jovens sem rumo dizendo: votem em mim que eu pego ele. Com medo, o povo votou. No Brasil, o povo se vacina. Mas só por imposição da mídia.
Humildemente....
Trem bala (cover)
Há 8 anos
4 comentários:
eu não me vacinei. fazem 3 meses que estou sem tevê em casa, e só me toquei do risco outro dia, comprando pão na padaria, vi estampada uma matéria na capa do correio braziliense.
me alarmou, mas ainda nao me vacinei.acho que se tivesse comprado um exemplar desse jornal teria me desesperado.
vivo bem sem a vacina e sem a tv.
Muito boa a análise sobre o papel da mídia.
Aqui estamos vivendo a situação da pílula do dia seguinte, e a forma com a mídia divulgou.
Hoje leio uma reportagem, página toda, sobre o uso de uma buzina de carnaval que é um tipo de droga. Não conhecia. E penso na repercursão. Na minha família ninguém conhecia. Nestes casos fico divida, entre a informação e despertar o interesse dos jovens.
Ainda não sei, tenho que ler, conversar e saber mais.
É um trabalho de muita responsabilidade.
Concordo com vc. Por isso eu sempre digo: pior que não ler nenhum jornal, é ler um só.
Houve um surto e os jornais noticiaram. O surto virou susto e todos foram atrás do que deveria ser dever do estado: vacinar gratuitamente a população esporadicamente. Isso não foi feito e a janela foi a culpada pela terrível paisagem...
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