07 janeiro 2008

Certo ou errado?

Pedro Henrique Freire

Nos tempos mais atuais, ficamos sabendo hoje o que os jornais vão publicar amanhã. É só ligar o computador e entrar em algum bom site de notícias. Para a população, é ótimo. E para o jornalista do velho e ainda lido jornal impresso?

Não saberia dizer.

Eu, que trabalho em mídia de papel, ganho cada vez mais responsabilidade quando a possibilidade do furo some. Tudo porque não tenho outra coisa a fazer senão procurar “outra coisa”, além do que os sites já estão dando. No mínimo, um enfoque diferente, uma informação mais aprofundada ou exclusiva. Mas isso nem sempre é possível. E quando não ocorre, o dia seguinte parece mais um flash do anterior.

***

Introduzo para chegar num ponto: quando a internet parece ultrapassar o limite ético? Confira a seguinte situação, aparentemente hipotética para uns, mas (infelizmente) usuais para outros.

Situação 1

Um repórter é enviado para cobrir as Olimpíadas. Lá, não consegue entrevistar todos os atletas de seu interesse e nem conferir todas as provas. Afinal, ele é apenas um. Como perdeu uma coletiva ou outra, foi lá na internet e “chupou” a informação, acrescentando ao seu texto algumas aspas e o clima da entrevista.

Isso é ético? É usual? Como a noção de ética é subjetiva, portanto, completamente pessoal, falo por mim: não considero isso correto.

Situação 2

Um repórter é enviado para cobrir as Olimpíadas. Lá, não consegue entrevistar todos os atletas de seu interesse e nem conferir todas as provas. Afinal, é apenas um. Como perdeu uma coletiva ou outra, correu para o local da coletiva e encontrou um amigo, que trabalha num site de notícia do Brasil:

- E ai, cara, beleza? Pô, tava tão enrolado com a prova de atletismo que perdi a natação. Tu pegou o que o Tiago falou?
- Peguei. Eu tava aqui.
- Ô... então me passa?
- Claro, irmão... claro.. anota ai!

Nesse caso, é ético ou não? Já não sei. No jornalismo, é comum colegas ajudarem os outros, por pura camaradagem. Eu já fui ajudado e ajudei, muitas vezes. Ainda hoje ocorre.

Pois bem. Prossigo: se o amigo já tivesse postado no site a matéria da coletiva e o cara levasse alguma coisa para seu texto? Seria profissional? Não, né? Mas, por que? Talvez porque não tenha pedido para “o dono da informação”, no caso, o amigo que estava na coletiva. Certo ou errado? Não sei.

O que sei é que o certo mesmo é você fazer a sua parte e mandar ver com suas informações. Se você perdeu algo, corra atrás e tente resgatar. Copiar dos amigos fará com que sua matéria fique igual a dele. Bebendo da fonte, você tem mais chances de pegar algo que ele não pegou. Mas, se não tiver jeito de encontrar o entrevistado, resgatar a história e tudo, talvez deva ir com as do amigo mesmo. Ou avise pro seu jornal pegar de agência.

5 comentários:

Felipe disse...

Cara, as questões levantadas são extremamente interessantes e acho que nenhuma tem alguma resposta precisa.

Se o cara não chegou a tempo na coletiva, eu acho mais do que normal ele correr atrás de alguém que foi e pedir ajuda. Afinal de contas, não se trata de exclusiva nem de estar usurpando a informação de outro dono. É apenas uma ajuda de algum colega que um dia certamente pedirá ajuda de você e você o ajudará. Não passar as informações, ainda que básicas e óbvias, é o mínimo necessário. Porque, pior do que não conseguir fugir do óbvio é não conseguir nem chegar nele.

E a vida de quem cobre um evento desses (Olimpíada, Copa do Mundo, Pan etc) é cruel porque, para fugir do factual, o cara tem que conversar bem com o seu editor e ter liberdade para deixar o óbvio de lado e trazer um perfil aqui, uma história curiosa ali. E deixar o factual para agências. Mas nem sempre isso é fácil de entender.

Abração e feliz ano novo!!!

wendell penedo disse...

Primeiro eu acredito que a ética moral, tão falada, nada aver tem com o nosso jornalismo, seja ela atual ou não.
Já a antecipação digital eu acho interessante, pois ela propõe uma quebra há muito tempo necessária. Abre uma possibilidade incrível de fuga do agendamento temático, o que poderia significar uma salvação pra esse nosso jornalismo mentiroso e/ou sem sal.
Ficam as opções:
- Ser o citado "flashback" do dia anterior, apenas com palavras ou perspetivas (nesse caso muito raras) diferentes.
- Ou (salve!) reavaliar o papel social do jornal e tentar criar um laço com o leitor, não simplismente por conseguir seguir a maré do noticiário, mas por observar outro tipo de notíciário, talvez um que pela primeira vez, realmente seja de interesse público.

As opções são claras e o resultado, infelizmente é bem previsível não é?

DB disse...

Sigo na mesma linha de Felipe Campbell... Se o cara vai sozinho para um grande evento como Olimpiada, Copa do Mundo, até mesmo eleicao presidencial e coisas do tipo, ele tem que receber do editor carta banca para fazer diferente. O exercito de um homem só jamais vai derrubar uma grande equipe dos principais jornais do país.
Citei algo parecido no post
http://filhodapauta.blogspot.com/2007/08/joo-olhou-para-as-bandeirinhas.html#links.

Eu acho que a ajuda dos colegas é válida, mas daí é preciso destacar seu estilo de texto.O ideal, obviamente, é sempre apurar tudo diretamente da fonte.

Atualmente, com a internet, é possível fazer um texto só sobre o ambiente da competição, só sobre a própria prova em si, só sobre a coletiva após a disputa, tamanho é o número de informações disponíveis na rede.

Felipe disse...

Só uma correção no meu comentário. Segundo parágrafo, penúltima frase. O correto é : "Passar as informações, ainda que básicas e óbvias, é o mínimo necessário". Tipo sem o "não".

Paula Barros disse...

Pedro, não te conheço. Faz 4 dias que venho aqui leio, e fico pensando. "Certo ou errado?". Acho que até você já respondeu. Pelo pouco que li de você, sinto, acredito, que você sabe muito bem qual o certo, e me passa que tenha uma boa estrutura de ética em seu comportamento. E comportamento ético, exige as vezes sacrifícios, dúvidas, e até rompimentos. Siga em frente, com o seu olhar diferenciado, com a sua sensibilidade, com a sua ética. Sucesso!