Nos tempos mais atuais, ficamos sabendo hoje o que os jornais vão publicar amanhã. É só ligar o computador e entrar em algum bom site de notícias. Para a população, é ótimo. E para o jornalista do velho e ainda lido jornal impresso?
Não saberia dizer.
Eu, que trabalho em mídia de papel, ganho cada vez mais responsabilidade quando a possibilidade do furo some. Tudo porque não tenho outra coisa a fazer senão procurar “outra coisa”, além do que os sites já estão dando. No mínimo, um enfoque diferente, uma informação mais aprofundada ou exclusiva. Mas isso nem sempre é possível. E quando não ocorre, o dia seguinte parece mais um flash do anterior.
***
Introduzo para chegar num ponto: quando a internet parece ultrapassar o limite ético? Confira a seguinte situação, aparentemente hipotética para uns, mas (infelizmente) usuais para outros.
Situação 1
Um repórter é enviado para cobrir as Olimpíadas. Lá, não consegue entrevistar todos os atletas de seu interesse e nem conferir todas as provas. Afinal, ele é apenas um. Como perdeu uma coletiva ou outra, foi lá na internet e “chupou” a informação, acrescentando ao seu texto algumas aspas e o clima da entrevista.
Isso é ético? É usual? Como a noção de ética é subjetiva, portanto, completamente pessoal, falo por mim: não considero isso correto.
Situação 2
Um repórter é enviado para cobrir as Olimpíadas. Lá, não consegue entrevistar todos os atletas de seu interesse e nem conferir todas as provas. Afinal, é apenas um. Como perdeu uma coletiva ou outra, correu para o local da coletiva e encontrou um amigo, que trabalha num site de notícia do Brasil:
- E ai, cara, beleza? Pô, tava tão enrolado com a prova de atletismo que perdi a natação. Tu pegou o que o Tiago falou?
- Peguei. Eu tava aqui.
- Ô... então me passa?
- Claro, irmão... claro.. anota ai!
Nesse caso, é ético ou não? Já não sei. No jornalismo, é comum colegas ajudarem os outros, por pura camaradagem. Eu já fui ajudado e ajudei, muitas vezes. Ainda hoje ocorre.
Pois bem. Prossigo: se o amigo já tivesse postado no site a matéria da coletiva e o cara levasse alguma coisa para seu texto? Seria profissional? Não, né? Mas, por que? Talvez porque não tenha pedido para “o dono da informação”, no caso, o amigo que estava na coletiva. Certo ou errado? Não sei.
O que sei é que o certo mesmo é você fazer a sua parte e mandar ver com suas informações. Se você perdeu algo, corra atrás e tente resgatar. Copiar dos amigos fará com que sua matéria fique igual a dele. Bebendo da fonte, você tem mais chances de pegar algo que ele não pegou. Mas, se não tiver jeito de encontrar o entrevistado, resgatar a história e tudo, talvez deva ir com as do amigo mesmo. Ou avise pro seu jornal pegar de agência.
Não saberia dizer.
Eu, que trabalho em mídia de papel, ganho cada vez mais responsabilidade quando a possibilidade do furo some. Tudo porque não tenho outra coisa a fazer senão procurar “outra coisa”, além do que os sites já estão dando. No mínimo, um enfoque diferente, uma informação mais aprofundada ou exclusiva. Mas isso nem sempre é possível. E quando não ocorre, o dia seguinte parece mais um flash do anterior.
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Introduzo para chegar num ponto: quando a internet parece ultrapassar o limite ético? Confira a seguinte situação, aparentemente hipotética para uns, mas (infelizmente) usuais para outros.
Situação 1
Um repórter é enviado para cobrir as Olimpíadas. Lá, não consegue entrevistar todos os atletas de seu interesse e nem conferir todas as provas. Afinal, ele é apenas um. Como perdeu uma coletiva ou outra, foi lá na internet e “chupou” a informação, acrescentando ao seu texto algumas aspas e o clima da entrevista.
Isso é ético? É usual? Como a noção de ética é subjetiva, portanto, completamente pessoal, falo por mim: não considero isso correto.
Situação 2
Um repórter é enviado para cobrir as Olimpíadas. Lá, não consegue entrevistar todos os atletas de seu interesse e nem conferir todas as provas. Afinal, é apenas um. Como perdeu uma coletiva ou outra, correu para o local da coletiva e encontrou um amigo, que trabalha num site de notícia do Brasil:
- E ai, cara, beleza? Pô, tava tão enrolado com a prova de atletismo que perdi a natação. Tu pegou o que o Tiago falou?
- Peguei. Eu tava aqui.
- Ô... então me passa?
- Claro, irmão... claro.. anota ai!
Nesse caso, é ético ou não? Já não sei. No jornalismo, é comum colegas ajudarem os outros, por pura camaradagem. Eu já fui ajudado e ajudei, muitas vezes. Ainda hoje ocorre.
Pois bem. Prossigo: se o amigo já tivesse postado no site a matéria da coletiva e o cara levasse alguma coisa para seu texto? Seria profissional? Não, né? Mas, por que? Talvez porque não tenha pedido para “o dono da informação”, no caso, o amigo que estava na coletiva. Certo ou errado? Não sei.
O que sei é que o certo mesmo é você fazer a sua parte e mandar ver com suas informações. Se você perdeu algo, corra atrás e tente resgatar. Copiar dos amigos fará com que sua matéria fique igual a dele. Bebendo da fonte, você tem mais chances de pegar algo que ele não pegou. Mas, se não tiver jeito de encontrar o entrevistado, resgatar a história e tudo, talvez deva ir com as do amigo mesmo. Ou avise pro seu jornal pegar de agência.
5 comentários:
Cara, as questões levantadas são extremamente interessantes e acho que nenhuma tem alguma resposta precisa.
Se o cara não chegou a tempo na coletiva, eu acho mais do que normal ele correr atrás de alguém que foi e pedir ajuda. Afinal de contas, não se trata de exclusiva nem de estar usurpando a informação de outro dono. É apenas uma ajuda de algum colega que um dia certamente pedirá ajuda de você e você o ajudará. Não passar as informações, ainda que básicas e óbvias, é o mínimo necessário. Porque, pior do que não conseguir fugir do óbvio é não conseguir nem chegar nele.
E a vida de quem cobre um evento desses (Olimpíada, Copa do Mundo, Pan etc) é cruel porque, para fugir do factual, o cara tem que conversar bem com o seu editor e ter liberdade para deixar o óbvio de lado e trazer um perfil aqui, uma história curiosa ali. E deixar o factual para agências. Mas nem sempre isso é fácil de entender.
Abração e feliz ano novo!!!
Primeiro eu acredito que a ética moral, tão falada, nada aver tem com o nosso jornalismo, seja ela atual ou não.
Já a antecipação digital eu acho interessante, pois ela propõe uma quebra há muito tempo necessária. Abre uma possibilidade incrível de fuga do agendamento temático, o que poderia significar uma salvação pra esse nosso jornalismo mentiroso e/ou sem sal.
Ficam as opções:
- Ser o citado "flashback" do dia anterior, apenas com palavras ou perspetivas (nesse caso muito raras) diferentes.
- Ou (salve!) reavaliar o papel social do jornal e tentar criar um laço com o leitor, não simplismente por conseguir seguir a maré do noticiário, mas por observar outro tipo de notíciário, talvez um que pela primeira vez, realmente seja de interesse público.
As opções são claras e o resultado, infelizmente é bem previsível não é?
Sigo na mesma linha de Felipe Campbell... Se o cara vai sozinho para um grande evento como Olimpiada, Copa do Mundo, até mesmo eleicao presidencial e coisas do tipo, ele tem que receber do editor carta banca para fazer diferente. O exercito de um homem só jamais vai derrubar uma grande equipe dos principais jornais do país.
Citei algo parecido no post
http://filhodapauta.blogspot.com/2007/08/joo-olhou-para-as-bandeirinhas.html#links.
Eu acho que a ajuda dos colegas é válida, mas daí é preciso destacar seu estilo de texto.O ideal, obviamente, é sempre apurar tudo diretamente da fonte.
Atualmente, com a internet, é possível fazer um texto só sobre o ambiente da competição, só sobre a própria prova em si, só sobre a coletiva após a disputa, tamanho é o número de informações disponíveis na rede.
Só uma correção no meu comentário. Segundo parágrafo, penúltima frase. O correto é : "Passar as informações, ainda que básicas e óbvias, é o mínimo necessário". Tipo sem o "não".
Pedro, não te conheço. Faz 4 dias que venho aqui leio, e fico pensando. "Certo ou errado?". Acho que até você já respondeu. Pelo pouco que li de você, sinto, acredito, que você sabe muito bem qual o certo, e me passa que tenha uma boa estrutura de ética em seu comportamento. E comportamento ético, exige as vezes sacrifícios, dúvidas, e até rompimentos. Siga em frente, com o seu olhar diferenciado, com a sua sensibilidade, com a sua ética. Sucesso!
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