Por Pedro Henrique Freire
Eu troco pouco de emprego. Comparado a vários colegas e amigos jornalistas que tenho e conservo. Quando fui contratado como repórter pela primeira vez, conheci um grupo bom. Éramos uma equipe animada e competente. Aos poucos, ela se desfez. Uns pediram demissão, outros foram demitidos. Achei que pudesse ser um fenômeno atípico. Que nada. Isso é da nossa profissão. Uns saem, outros entram.
Aliás, muitas profissões são assim: rotatividade pura. O que é hoje não é amanhã. Tive oportunidade de conversar com alguns desses amigos jornalistas justamente no momento de transição. Desde que receberam a proposta até deixarem o emprego, por exemplo.
Em todos os casos, nunca vi alguém mudando pra pior. Mas, sempre com aquele discurso: “Vale arriscar! Estou novo”. Exatamente isso. Vale mesmo. Acho que passar por diferentes ambientes de trabalho é extremamente proveitoso. Só enriquece nossa capacidade de conviver em equipe, entender os limites das diferentes empresas e, claro, ser chefe.
E aqui enfatizo: ambientes diferentes nos trazem experiências diferentes. No final delas, nossa bagagem é grande e capaz de perceber (e resolver) os problemas com mais facilidade.
Pense na Fórmula 1: imagine um piloto que correu a vida toda no GP do Brasil. Quando ele chegar em Mônaco, ficará perdido. Correrá mal. A resposta é fácil: ele só correu em uma pista. Acostumou-se as mesmas subidas, descidas, direitas e esquerdas. Com um tempo, automatizou seu serviço. Ou seja, continuou pilotando, mas sem inovar na postura, empenho e idéias.
É uma comparação meio esdrúxula. Mas trocar de emprego, em jornalismo, quase sempre evita a acomodação, nos impõe novos desafios e acaba por nos atualizar e fazer crescer. É uma visão otimista, claro. Mas é meu modo de entender isso.
Não trocar de emprego, hoje, é uma das minhas maiores angústias. Trabalhei, firme, em três lugares. E na empresa onde me encontro agora, pretendo ficar a vida toda. Não por acomodação. Mas porque meu desafio é esse. E enfrentá-lo talvez seja bem mais difícil que pular de emprego em emprego.
Mesmo assim, continuo com a certeza: se trabalhasse em mais jornais (grandes, pequenos e médios) e mídias distintas, teria uma bagagem e tanto. No futuro, seria um melhor profissional.
***
Tenho curiosidade de colher alguns testemunhos dos amigos que deixaram o emprego com um friozinho na barriga nos últimos meses. Dos mais antigos com os quais conversei só ouvi coisas boas. Estranharam o novo habitat, claro. Mas acabaram confirmando e aprovando a decisão que tomaram.
Mudar na carreira é algo que muitos evitam. Mas todos precisam. Aprovo sempre a decisão do funcionário que abraça novos desafios, muda de emprego, de vida, sem medo de errar. Por isso, se um dia eu for chefe, direi ao funcionário que me pedir pra sair a mesma coisa que ouvi da minha chefe no meu penúltimo emprego:
“Olha, não posso segurar você. E fico muito feliz que tenha sonhos assim e corra atrás. Torço por você e acho mesmo que deve enfrentar esses desafios. Por aqui, as portas estarão sempre abertas”.
Trem bala (cover)
Há 8 anos
6 comentários:
Que coisa massa o q a tua ex-chefe te disse. Muito legal a postura dela.
Olha Pedro, tenho refletido muito sobre isso. Comecei em um emprego novo há dois meses, e tá sendo uma experiência e tanto, mas tenho certeza que não vou (e não quero) ficar lá pra sempre. Por "N" motivos que não vale citar agora.
Mas, te digo que serve meio que uma motivação " o mudar" de emprego no jornalismo,e, chega a ser necessário. Não dá pra viver a mesma coisa, com as mesmas pessoas, sempre. É preciso novas rotinas, novos personagens, novos deadlines e tal.
Inevitavelmente, vc leva para o seu novo emprego a sua velha bagagem, que somada ao seu conhecimento de mundo, dá uma nova realidade. É tudo novo, é tudo diferente, novas experiências, até o jeito de atender o telefone é diferente.
Na nossa profissão, não rola ficar 15 anos sendo produtor, ou 42 anos sendo repórter no mesmo veículo de comunicação.É impossível. A fonte seca, a motivação acaba e os problemas de saúde aumentam. Jornalista tem que mudar, tem que crescer, tem que passar de produtor para repórter, de repórter para sei lá, editor, editor pra chefe de redação ou editor-chefe... Sei lá, tem que mudar, tem que continuar sentindo frio na barriga, como se fosse recém - formado, como se fosse ainda Foca. Eu acho massa a inquietação dessa área. Eu já fui produtora, já larguei tudo e fui fazer freelancer, e agora eu sou editora. Mas não quero ficar só nisso, não quero me acomodar.Tenho que ajeitar a minha bagagem, que ainda precisa de mais experiência. Quando ela tiver razoavelmente cheia, eu penso no meu próximo emprego.
Abraços e amei o texto.
Grande Pedro o FDP estava com saudade. Mudar de emprego motiva o funcionário. Você se sente reconhecido por outro veículo, vê que seu trabalho repercutiu positivamente. O friozinho na barriga sempre vai acontecer. Posso falar com um pouco de experiência. Sai de um jornal (emprego aparentemente instável) para assumir no Banco do Brasil (emprego estável por causa do concurso) mas nem por isso deixei de sentir o medo natural. Quando sai de lá para voltar ao jornal o medo foi ainda maior. Mas vislumbrei a possibilidade de crescimento e acima de tudo de fazer o que gosto, que é jornalismo. Há quase três anos mudei novamente. E vi que nesse tempo aprendi muito no novo ambiente. E você tem toda razão quando diz que essas experiências nos ajudam a ter uma bagagem para ser chefe. Sobre o fato de ser chefe escreverei um post no futuro.
E sobre crescimento escrevi no meu blog pessoal um post "Crescimento". Se tiver tempo dá uma olhada: http://malcontadashistorias.blogspot.com/
abs
È, grande predo...mudar de emprego é como mudar de namorada (apesar de eu nao entender muito sobre este assunto). Partindo para o campo esportivo e já falando do meu caso, foi como se eu, meio-campista talentoso do treze-PB, tivesse vindo para o São Paulo. Tá, a comparação com o Treze é esdrúxula. O Brasiliense se encaixa legal nessa analogia.
Ninguém nunca me viu, não tem a mínima obrigação de me agradar (por conhecer meu pai, meu irmão, minha família, meu bisavô ou whatever) e eu tenho, "mais do que nunca", continuar armando jogadas para os atacantes concluírem em gol...
Só a saída do meu habitat natural já me fez aprender um bocado. Conversando com "desconhecidos", ainda mais... Fazendo e sendo cobrado de formas diferentes em situações inesperadas, nem se fala.
Se por obra do acaso eu chegar a ser chefe algum dia, não tenha dúvida que vou ser um pouquinho melhor por causa da minha mudança!
é engraçado esse lance de mudança. sobretudo quando, no teu novo emprego, desprezam totalmente (ou simplesmente ignoram) a tua experiência anterior. te tratam como novato quando, na real, tu já não é mais. e aí? eu ficava putinho, depois passei a achar bom: afinal, qualquer coisa que eu fizesse surpreendia ("po, e não é que ele sabe fazer?"). agora volto a achar ruim de novo (já to querendo um aumento...). por mais que tu tente mostrar que já tem experiência, não adianta. não vale e pronto. não chega a ser um problema que me aflige, mas enfim, achei que valia a pena comentar.
abs
!! @v@nte !!
Acredito que mudanças são sempre positivas. Não se forma um jornalista apenas dentro de uma redação ou únicamente na rua. É necessário passar por etapas e atividades distintas. Sempre me deparo com situações onde tenho que escolher, principalmente com emprego.
Trabalho em uma empresa onde as pessoas costumam ficar por 18, 25, 30 anos!!! Se aposentam e continuam trabalhando e fazendo a mesma função. Eu entrei em dezembro de 2007, em março de 2008eu tinha uma proposta aparentemente melhor. Meus colegas de trabalho diziam que era loucura mudar de emprego se estava tão bom, que era arriscado.
Ora! O que fazemos todos os dias senão arriscar? Claro que eu fui!
Pena que eu não gostei, "me ofereceram uma tv de 42 polegadas e quando eu cheguei lá não passava de 14".
Voltei. Uni a fome com a vontade de comer, eu queria voltar, meus colegas queriam que eu voltasse e o meu chefe também.
O que eu aprendi?
Que vale a pena arriscar, poderia ter dado certo, e eu posso tentar novamenmte quando eu quiser.
E que... as portas abertas do emprego anterior, quem deixou fui eu! Se meu trabalho não tivesse sido bom, jamais meu chefe formado em Harvard me chamaria de volta.
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