Por Daniel Brito
Recente pesquisa publicada pelos jornais paulistanos mostrou que mais de 95% da população da cidade sabia do caso Isabella. Parece uma obviedade, mas o dado é importante para apontar a (d)eficiência do trabalho da imprensa nesta história.
A tragédia comoveu por envolver pessoas de classe média, que, até então, não aparentavam graves distúrbios de convivência social nem em família. Como os jornais e a tevê são voltadas para a classe média, a história rendeu quilômetros de páginas de jornais e semanas de reportagens de televisão.
A primeira notícia, ainda em março, de que uma menina havia caído do sexto ou sétimo andar (sei lá) buscou informações básicas (quem, como, onde e por quê), além de fotos. Como um soco na boca do estômago, começou-se a suspeitar do pai e da madrasta ao mesmo tempo que as imagens de uma Isabella espontânea em fantasias carnavalescas e com seus dentinhos de leite se espalhavam pela imprensa para dramatizar ainda mais a história.
Influenciados pelo velho clichê hollywoodiano e novela global, em que os bandidos e os mocinhos sempre estão muito bem definidos, as baterias foram voltadas para o pai e madrasta. Se tivéssemos que definir algum papel neste caso, na minha pálida opinião, seria a do mocinho.
Na busca incessante de culpar quem estivesse mais perto o mais rápido possível (coisa que a polícia e a justiça no Brasil não estão acostumadas a fazer), Isabella foi morta novamente para que os "detalhes técnicos" viessem à tona:
- asfixiada por três minutos;
- marcas de sangue no lugar X;
- hematomas na região Y;
Chegou-se ao cúmulo de mostrar as marcas dos dedos da menina tentando se agarrar à janela antes de ser atirada, numa imagem cruel, aterrorizante e totalmente desnecessária para o grande público.
Público, aliás, que alimentou a história. No jornal onde eu trabalho, cada depoimento exclusivo de vizinhos fofoqueiros estampados na capa, a vendagem subia cinco mil exemplares.
Até onde pude acompanhar, Isabella foi morta pelo pai, mas sua imagem, sua pequena história e o sentimento de compaixão que ela despertou quando das primeiras notícias da tragédia foram brutalmente assassinadas a partir do momento em que polícia e imprensa passaram a jogar Scotland Yard em público e fizeram questão de exibir as vísceras de modo que 95% da população de São Paulo soubesse da história.
Trem bala (cover)
Há 8 anos
2 comentários:
O desfecho da história é típico de um filme de suspense. Ainda hoje o assunto rende bons índices de audiência e venda de jornais. A expectativa é em torno do habeas corpus. Se o casal não for liberado certamente a história vai esfriar. E a imprensa terá que buscar um novo caso. Acredito que a suspeita sobre o casal foi o que mais chamou atenção. Lembro que quando o caso aconteceu o Jornal Hoje trouxe uma nota coberta sobre o fato. Mas depois...
Sim, sim, o barulho com o caso Isabella foi enorme, mais um caso em um país que maltrata suas crianças silenciosamente. O que me dixa mais triste em toda essa história é o desrespeito que a mídia e até mesmo a sociedade praticam com essa criança e sua família (não me refiro ao pai e madrasta). Sua privacidade foi escancarada. Cheguei até a receber vídeos da menina, até então, familiares pelo orkut. Gente, o que parece homenagem,na verdade é falta de respeito com a imagem da criança e até mesmo com a família que já está sofrendo tanto.
Postar um comentário