29 maio 2008

Os extremos da cobertura de um ídolo

Fazia tempo que eu não conseguia ler a Folha de São Paulo com atenção. Como assessor de uma parlamentar do DF, me preocupo com os quatro jornais diários de circulação local, as duas rádios de notícias, internet, televisão, e por aí vai. Sem contar as demandas naturais de uma assessoria, que está longe de se limitar à simples ponte entre imprensa e assessorado. Na última segunda-feira, esperava no plenário da Câmara Legislativa o início de uma audiência pública organizada pela minha chefe. Para passar o tempo, peguei o jornal paulistano.

O que eu li nas páginas de Esporte há três dias me emocionaram. Depois de anos e anos, a Folha tinha mudado de lado. Um embarque tardio na popularidade de um ídolo ímpar do esporte brasileiro. O jornal, finalmente, fazia uma cobertura honesta do tenista Gustavo Kuerten, o Guga. Foram três páginas redigidas sem exageros, com recursos de edição como opinião de colunistas, lembranças da carreira e boas matérias sobre a partida de despedida do catarinense em Roland Garros.

Durante todo o tempo que Guga ficou no topo, entre os melhores da modalidade, eu comparava duas coberturas, que pra mim estavam em lados totalmente opostos e que tinham como única semelhança o fato de estarem erradas. O grupo gaúcho RBS, que detém o monopólio da imprensa em Santa Catarina, era e é entusiasta demais. Nunca abordava os problemas de contusão, as confusões, os problemas de patrocínio de maneira adequada. Chegaram até, dando uma demonstração de absoluta falta de profissionalismo, a construir uma estátua de bronze do tenista. A família, com noção das coisas, declinou da homenagem.

No outro lado, estava a Folha. Apesar do manezinho da Ilha ser primeiro do mundo por 43 semanas, tricampeão de Roland Garros, o jornal sempre achava um motivo para bater no Guga. Lembro bem do famoso título "Guga troca ouro por dinheiro", quando ele afirmou que não iria aos Jogos Olímpicos de 2000 por não poder usar o uniforme de seu patrocinador. Tanto brigou com o Comitê Olímpico Brasileiro que sua vontade foi respeitada. Afinal, se a CBF pode usar a Nike, por que ele não usaria a Diadora?

Nem tanto ao céu nem à terra, diria o chavão. De todos os veículos, quem conseguiu fazer uma cobertura equilibrada dos 11 anos de Guga no circuito mundial foi o Estadão, onde nosso amigo DB está hoje. O motivo é bem simples. O jornal paulistano era o único que tinha um repórter que cobria tênis há um bom tempo. Os outros veículos foram pegos de surpresa. Até descobrirem como cobrir um esporte considerado elitista, para riquinhos esnobes, levou um bom tempo. Aí todos exageraram na dose. Uns a favor, outros contra. Em comum, o erro de todos.

Sei que fiquei feliz com a maneira como a Folha mudou. Hoje, com outro editor de Esporte, talvez a filosofia tenha mudado. Já a RBS continuou da mesma maneira, errando a mão nos elogios, no ufanismo. Como se Guga fosse um Policarpo Quaresma moderno. Chega a ser bizarro. Mas esses lados revelam que nossa imprensa esportiva muitas vezes não está preparada para novidades como foi o Guga. E que não consegue se ajustar no meio do caminho. Tudo que aconteceu nesses 11 anos é prova de que, na verdade, temos uma imprensa de futebol, quase cega para os tais "esportes olímpicos". O que é uma pena.

3 comentários:

DB disse...

A cegueira olímpica, de fato, Mário, parece ser definitiva. Guga não mudou muita coisa nas redações.
A própria FSP, no dia seguinte aa emocionada despedida que vc se refere, cravou:
"Guga, agora, quer ser mochileiro"
E qual é o problema, digo eu?
De qualquer maneira, é bom ter você de volta no FDP. Escreva mais vezes...

Túlio disse...

ötimo post. muito boa a ideia do blog, uma auto-critica dos jornalistas. abs e boa sorte.

Mário Coelho disse...

O problema, DB, é viver nos extremos. Tanto da crítica quanto do elogio. Um jornal, mesmo que um dia, conseguiu fazer isso. O outro não. E a cegueira continua, não exclusiva aos olímpicos não...

Sobre a volta da escrita: my mojo is back!