08 julho 2009

Ser chefe

Por Leonardo Alves

Chefiar uma redação vai muito mais além do que, digamos, definir a linha editorial. O editor não se preocupa apenas com as pautas, as reportagens e outros assuntos relacionados à essência do jornalismo. O chefe precisa entender de administração para fazer a redação andar. Afinal ele vai administrar pessoas, ou melhor, jornalistas, que em sua maioria tem por característica a vaidade.

E não é só isso. Escala de trabalho, definição de viagens, administração de despesas e ser o elo entre a direção da empresa e a redação fazem parte de suas funções. Ele também é quem administra os pedidos que vem de fora e as críticas da população. É algo parecido com um “Serviço de Atendimento ao Consumidor”, seja ele interno (os donos) ou externo (a população, políticos, empresários...).

Acredito que o grande desafio de um chefe é fazer com que a equipe se envolva com o seu projeto de trabalho. Só com envolvimento é que o repórter tem motivação para buscar boas reportagens. Mas na maioria das vezes são poucos repórteres que se envolvem. Boa parte está preocupada apenas em cumprir as pautas.

Não adianta o chefe ser super capacitado se não tiver poder de gerência, se não explorar o máximo de sua equipe, se não souber fazer com que cada profissional se doe para fazer boas matérias. Um chefe é como um treinador de futebol que precisa fazer todo o time jogar em busca da vitória. O detalhe é como num time existem aqueles que acham que a equipe só funciona bem por causa dele. Acha-se a pessoa mais importante (até mais que o chefe) da redação. É o atacante que leva em consideração apenas os gols dele, esquecendo-se das defesas do goleiro. É o jornalista que acha que alguém leu ou assistiu ao (tele) jornal por causa da matéria dele.

Ao chefe, como ao treinador, cabe administrar essa guerra fria de egos, que quando não é bem conduzida causa danos irreparáveis à redação. É preciso ter pulso firme para cobrar e, ao mesmo tempo, humildade para reconhecer e elogiar todo o esforço da equipe.

Fiz todo esse grande preâmbulo para dizer que as faculdades não nos preparam para um dia ser chefe. Alguém pode até dizer que isso se aprende com o tempo. O grande problema é que todo mundo que sonha em ser chefe procura aprender o máximo sobre jornalismo. Esquece-se, aliás, não foi orientado, que a chefia exige - no mínimo - conhecimento em jornalismo, administração e gestão de pessoas. Na verdade somos preparados apenas para ser repórter.

Vez por outra tento fugir das aulas planejadas para debater com meus alunos situações do cotidiano de um jornalista, que vão desde a relação com colegas de trabalho até questões éticas. Faço isso porque gostaria muito que um dia alguém tivesse me orientado sobre questões de hierarquia, postura profissional e outros assuntos. Talvez não tivesse cometido tantos erros. Como tive que aprender na prática...

Acredito muito hoje em dia que a formação na faculdade não deve se limitar apenas aos conhecimentos específicos da área. É preciso preparar o futuro profissional para as questões de relacionamentos pessoais no trabalho, a postura e acredito até que ele tenha que ser preparador para os “não” que vai receber antes de encontrar um emprego. Muita gente desiste no primeiro “não”. Os que perseveram na maioria das vezes tem sucesso.

Precisamos saber – e isso deve ser dito na faculdade – que o profissional não deve desistir nas primeiras dificuldades. Alguém pode até dizer que todo mundo sabe disso. Mas não é bem assim. Já vi alunos desmotivados com a profissão pelo fato de ainda não terem estagiado. E é preciso fazer com que ele volte a ter motivação.

Ainda bem algumas faculdades incluem (e outras estão incluindo) no seu currículo disciplinas como gestão de pessoas e gestão de empresas jornalísticas.

4 comentários:

DB disse...

como nao precisa de diploma pra ser jornalista, nao precisa de preparacao para ser chefe...

Unknown disse...

Não sei se saberia ser chefe! é muito complicado... depois de tudo isso que você falou ainda ter que lidar com Egos super-inflados de repórteres, editores,etc...

Monike Feitosa disse...

É verdade Elane...é uma tarefa difícil e requer um belo jogo de cintura. tudo que um chefe faz acaba sendo mal interpretado por uma parte ou pela outra e este ainda tem que pensar no jornalismo que vai ao ar diariamente. Nós temos um ótimo exemplo de editor-chefe de verdade na nossa redação e ele está de parabéns, porque não é nada fácil! Ainda assim, ele consegue nos dá entusiasmo e ânimo no dia-a-dia...é um verdadeiro herói!

Anônimo disse...

Denise Delmiro - Liderança é algo que sempre me chamou a atençao. Estar a frente de um grupo, organizar, traçar metas. Isso sempre me fascinou. Mas, no dia a dia de uma redação, como Léo bem relatou, administrar vaidades requer muita bagagem profissional. O chefe nunca é bem interpretado. Não sei do futuro, nem sei um dia terei que me colocar na posição de chefe, caso isso aconteça, terei que pedir muita iluminação divina.