07 outubro 2009

A vez da editoria de esportes

Por Daniel Brito

Agora vão ter de levar a editoria de esportes a sério. Com Copa do Mundo e Olimpíada no Brasil, não tem como não investir na área.

Por muitos anos a editoria sempre foi uma das menos prestigiadas nos jornais e emissoras de TV. Os salários mais baixos, os menores níveis de exigência, o menor destaque, e a menor mobilização.

Até porque esporte pode ser a coisa mais importante entre as coisas menos importantes. O porteiro do seu prédio, o velho louco da banca de revista, o motorista do táxi, todo mundo sabe/pode comentar alguma coisa sobre esportes/futebol. Essa popularidade que deveria ser um ponto positivo acaba se tornando um aspecto negativo para o jornalismo esportivo.

Existe aquela convenção coletiva entre os chefões das redações que jornalista de esporte é aquele cara que só sabe falar de esportes. E que só é manchete o hardnews: "Flamengo vence com show de Adriano"; "Phelps fatura seu nono ouro em Pequim"; "Ronaldo marca e salva o Corinthians".

Num típico caso de estagnação jornalística. Nos tempos em que os figurões pensam em como fazer um jornalismo diferente para não repetir o que a internet já bombou no dia anterior, os homens da capa fazem com o esporte exatamente o que condenam: repetem o que a internet já bombou no dia anterior.

E aí o trabalho do repórter, de trazer uma informação a mais, de evitar cair no erro que está ferindo mortalmente os jornais, é subaproveitado. Enquanto isso, a notícia sobre a leve queda na bolsa de Xangai ou o jornalismo declaratório e espiral da editoria de política são hiper valorizados.

Com Copa e Olimpíada a história vai mudar.

Essa mania de tentar fazer um 'jornal diferente' com uma equipe de repórteres formada só por focas (mais barata, portanto) ou gente que não é do ramo corre o risco de virar 'comida de leões'.

Um país que recebe eventos desse porte não precisa ter 'somente' atletas e estrutura no mais alto nível internacional. É preciso ter uma imprensa bem preparada. Caso contrário passaremos o vexame de ver alguns furos (para o bem e para o mal) sendo dados por repórteres estrangeiros.

Veja o caso da China e da África do Sul.

No primeiro, a imprensa é controlada, então só foram veiculadas na mídia chinesa as notícias que o governo de Hu Jintao queria que o povo soubesse. Coube aos estrangeiros denunciar que a pequena cantante da cerimônia de abertura estava dublando e que a dona da bela voz havia sido barrada porque não se encaixava nos padrões estéticos que o governo chinês gostaria de passar.

Na África, não se vê notícias de desvio de verba ou superfaturamento de obras. Volta e meia vem à tona as greves dos trabalhadores e o atraso nas obras. Bom, para mim uma coisa está ligada à outra. Mas estabeleceu-se uma regra no país de que é anti-nacionalista falar mal da Copa do Mundo. Pelos mesmos motivos do Brasil: "Vai ser bom pra o povo africano, vai trazer desenvolvimento, finalmente".

Quando a imprensa internacional desembarcar em peso na terra de Mandela, vamos ver, ler e ouvir muitas histórias que foram abafadas pela mídia local. Falo isso porque passei o mês de julho inteiro lá e vi algumas coisas. Mas não tinha onde publicar...

Agora, na condição de jornalista de esporte, é preciso também fazer um mea-culpa.

Muitas editorias de esportes são um antro de acomodados. Torcedores travestidos de chefes que teoricamente teriam experiência para fazer um jornal diário. Gente que não consegue enxergar um palmo além do que lhe é oferecido como discurso oficial. Gente que se sente mais importante do que a própria notícia. De opiniões arcaicas. Que se trancam em seu sarcófago e fazem ali a próxima edição. Com ideias de 25 anos atrás. Que fazem um jornal de acordo com suas impressões pessoais. Que vê, nos colegas de repartição, concorrentes e não parceiros dispostos a fazer uma edição melhor. Que vão morrer acreditando que ninguém nunca fez nada melhor do que ele pôde pensar algum dia...

Se esse tipo de gente ainda estiver dando as cartas atééééé 2016, então, amigo velho, sinal de que o jornalismo esportivo não vai ter dado nenhum passo à frente em sete anos.

Um comentário:

Léo Alves disse...

Quem trabalhou ou trabalhou na editoria de esportes sabe como é a discriminação. É como bem DB disse. Acham que o cara é o mais burro da redação. E por achar que qualquer um pode fazer esporte os editores botam aprendizes para cobrir a área. O resultado é sempre decepcionante. Já escrevi aqui (há alguns anos) que no futebol, jogadores e técnicos sabem quando o repórter é da área. E segundo me relataram tiram onda da cara dos que não são por causa das perguntas imbecis. É preciso realmente se preparar para as Olimpiadas.