Lá se vão 10 anos desde a primeira vez que minha carteira de trabalho foi assinada como jornalista profissional. A verdade verdadeira é que eu tinha o registro de locutor entrevistador mas podia atuar como repórter e apresentador de TV.
Foi na TV Borborema, afiliada do SBT na pequenina porém heróica Campina Grande. A emissora foi fundada por Assis Chateuabriand depois de trazer a TV para o Brasil e instalar a Tupi no RJ e SP. Como paraibano, Chatô se sentiu na obrigação de atender seu estado de origem e abriu a TV Borborema. Como o estado era ainda mais pobre do que é hoje, levou uns aparelhos e distribuiu entre as autoridades locais.
Isso foi entre a década de 1950 e 1960. Minha chegada na TV se deu trinta ou quarenta anos após a inauguração. Aliás, a maneira como entrei no quadro de funcionários foi motivo de revolta da classe jornalística campinense.
Meu pai era diretor dos Diários Associados na Paraíba e eu havia decidido, sete anos antes, quando ainda morava em Brasília, que gostaria de ser jornalista. Assim como ele. Iniciei devagarzinho na emissora de rádio, da qual ele também era diretor.
Até passar no vestibular e me mudar para Campina Grande. Os jornalistas de Campina Grande tinham uma certa razão em reclamar. Afinal eu tinha 18 anos, voz fina e jeito de adolescente. A TV carecia de repórteres (carece até hoje. Mais do que isso, inclusive) e, segundo os críticos, havia gente desempregada por minha causa.
Comecei nas reportagens para esportes. Sem nenhuma orientação ou indicação de como deveria ser feito ou deixado de fazer. Apenas alguns toques de que palavra incluir no texto ou como segurar o microfone. Havia muita boa vontade em ajudar, aquela ajuda informal, mas o temor por eu ser filho do diretor impedia as pessoas de me criticarem diretamente.
Às vezes, um comentário ali, uma opiniãozinha mais ácida ali, uma breve reprimenda acolá eram suficientes para que eu assimilasse algumas coisas. Neide Nascimento, Agnásio, Batatinha, Hoberdan, Wilton, Da Silva foram grandes mestres.
Comecei fazendo matéria de futebol, naquele feijão-com-arroz básico de Treze e Campinense. Aos poucos, fui buscando outros assuntos. Por falta de estrutura, virei repórter de cidades, se é que existe essa editoria em emissoras de TV na Paraíba. Com o tempo, virei quase animador de palco em programa sobre carnaval. O meu senso do ridículo evitou que eu partisse para coisas piores...
Dez anos depois, vejo com um misto de saudade, orgulho e vergonha de tudo que passei no jornalismo em Campina Grande. Vergonha porque eu era um cara recém-saído da adolescência com a responsabilidade de falar para muita gente, porque a emissora tinha um grande alcance na região, mas eu pensava que estava fazendo um vídeo para a TV da universidade ou qualquer outra coisa menos importantes. Talvez pelo mesmo motivo eu sinta saudade, porque não sabia da responsa e era feliz com minhas invenções. É aquela história do 'Só sei que nada sei'.
Se você for hoje a Campina e perguntar aos jornalistas que já estavam na ativa entre 1999 e 2002 sobre mim, eles vão rir da minha cara ou até mesmo me ridicularizar.
Com os olhos marejados, deixei a TV Borborema na tarde de 20 de novembro de 2002.
Por mais que tenha trabalho em alguns dos maiores jornais do país, tenha publicado textos no Globo, Estadão, Correio Braziliense, Estado de Minas, Diário de Pernambuco, tenha feito reportagens para Band e SBT, ainda tem gente que acredita eu só estou nessa por que meu pai era diretor da TV Borborema sete anos atrás.
O que é uma pena porque as pessoas não reconhecem que meu pai, em vez de me dar o peixe, me ensinou a pescar. Reconheço as baboseiras que possa ter feito nesse período de 10 anos desde 13 de setembro de 1999 e peço desculpas àqueles que por ventura eu possa ter ocupado o espaço na TV Borborema dez anos atrás.
Mas quero deixar registrado aqui que um dia eu volto. Para me redimir dos meus pecados...
3 comentários:
Quando a gente jovem não tem a noção da responsabilidade que é estar num veículo de comunicação. Se DB passou isso na TV eu enfrentei na Rádio Borborema, hoje Clube. Não tinha a devida responsabilidade e já fiz comentários que complicaram toda a equipe de esportes. Minha "irresponsabilidade" e desinformação me levaram a ler num programa de esportes do qual fui escalado para apresentar um jornal do dia anterior. As pessoas acreditavam em mim, mas eu não tinha a maturidade de hoje. E acho que essa maturidade só veio porque aconteceram esses erros. Isso é de cada um. Tem gente que já 'nasce' maduro na profissão. Se pudesse voltar no tempo teria aproveitado melhor muitas oportunidades que me foram dadas, inclusive na TV Borborema. Mas é olhar pra frente e observar no retrovisor os erros para não cometê-los de novo. O importante é que tudo serviu de aprendizado. No começo também fui ridiculrizado por alguns veteranos da profissão, que quando fui fazer um teste no Diário da Borborema comentaram que eu não durava três dias. O tempo mostrou outra coisa. E os comentários maldosos serviram de incentivo. E o pior é que muitos que fizeram comentários estão ainda no mesmo lugar, exercendo a mesma função na profissão. O detalhe é que pelo fato de DB ser filho de um grande jornalista sempre vai levar o estigma de que só conseguiu ser trabalhar em grandes jornais por causa do pai. Em outras profissões isso é motivo de orgulho. Ninguém comenta que fulano só é um médico por causa do pai. Sandy e Júnior não enfrentaram tanta resistência perlo fato de o pai ser cantor. Lógico que ter alguém na área ajuda a abrir portas, mas isso não é o que vai determinar o seu sucesso. O mercado não tem espaço para incompetentes. Aliás, tem. Mas esses não tem pai jornalista. Tenho um tio que me abriu portas. Mas segui o meu caminho, como fez o grande DB. O interessante é que ninguém comenta sobre o pai que bota o filho na empresa dele (isso é chique, é empresa familiar). E o pior ninguém comenta quando o pai bota o filho pra vender verdura na feira com ele. São casos semelhantes. Como no jornalismo a mesquinharia domina...
Em tempo: o jornalismo paraibano te espera. Precisamos de bons profissionais.
"Talvez volte qualquer dia"
É, bilica, quem diria que você, em dez anos, já teria sido visto, lido e ouvido em vários grandes jornais?
Só não precisava ter tanta determinação em se livrar do estigma de filho do Marcondes a ponto de vazar de Sampa meses depois de ele mudar para lá. Você vai ver: daqui a pouco, quanod perguntarem a ele quem ele é, ele vai responder "Sou pai do Bilica".
Abs
Profetizou, hein, briba? De volta a paraíba...
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