08 fevereiro 2006

Há vida além do esporte

Definitivamente, existe mais coisas no mundo jornalístico do que as matérias de esporte ou qualquer outra coisa relacionada ao que eu e Da Silva costumamos escrever neste espaço. Isso é óbvio.

Diante da mobilização internacional para tentar entender a reação dos islamicos após a publicação das charges do profeta Maomé ligado ao terrorismo por um jornal dinamarquês, me vejo na obrigação de colocar alguma coisa sobre o assunto no nosso blog.

Entendo que o assunto é extremamente complicado. Poucas pessoas gostam de ler sobre o assunto. Principalmente em Campina Grande, onde as pessoas fazem questão de pensar que o mundo gira em torno da cidade, e não o contrário. Mas o texto abaixo foi publicado no Washington Post e foi escrito por um jornalista do semanal alemão Die Zeit.

Além de cutucar os americanos, o jornalista dá mostras de quais são os critérios de edição nos jornais da europa.

Abaixo:


Thomas Kleine-Brockhoff
Tolerância para com os intolerantes

--> --> -->Na semana passada, a publicação na qual trabalho, o semanário alemão Die Zeit, divulgou uma das controversas caricaturas do profeta Maomé. Era a coisa certa a fazer. Quando as charges foram tornadas públicas pela primeira vez, em setembro, na Dinamarca, ninguém comentou o assunto na Alemanha. Se os desenhos tivessem sido oferecidos à minha revista na época, certamente teríamos declinado.

Pelo menos um deles equipara o islã ao extremismo. É exatamente o tipo de coisa que devemos evitar no debate sobre fundamentalismo — embora a charge política tenha o exagero na sua essência.

Não teríamos publicado por moderação e respeito à minoria muçulmana no nosso país. O bom senso da mídia é posto à prova toda hora. Não mostramos fotos de sexo explícito nem de pedaços de corpos após ataques terroristas. Procuramos manter o racismo e o anti-semitismo longe das nossas páginas. A liberdade de imprensa exige responsabilidade. Mas os critérios mudam quando o material tido como ofensivo adquire valor noticioso.

Por isso vimos corpos despencando das torres gêmeas do World Trade Center em 11 de setembro de 2001. Por isso vimos imagens dos abusos na prisão de Abu Ghraib. Nessas ocasiões, publicamos o que normalmente não sairia. A natureza desse pensamento é encontrar parâmetros sobre o que é culturalmente aceitável.

Quantas vezes não mencionamos os seios da cantora Janet Jackson em discussões sobres os limites da diversão familiar na TV? Quantas vezes publicamos coisas que os judeus consideram agressivas? Parece inacreditável que os jornais americanos tutelem seus leitores, deixando de publicar charges que o mundo comenta. Publicar não significa aprovar. O contexto importa muito.

Vale lembrar que a polêmica começou com um bem-intencionado projeto de livro infantil sobre a vida do profeta Maomé, escrito para promover a tolerância religiosa. Mas o autor se deparou com a rigidez religiosa no momento em que buscou um ilustrador para a obra. Impossível encontrar um.

Os artistas dinamarqueses pareciam temer pela própria vida, lembrando o destino do cineasta holandês Theo van Gogh, assassinado por um fundamentalista islâmico depois de fazer duras críticas ao extremismo. Quando a história chegou ao Jyllands-Posten, o editor de cultura resolveu bancá-la. Ele queria ver quais cartunistas se submeteriam à autocensura por medo dos muçulmanos radicais. Até então, a mídia européia ignorava o caso.

Foram precisos meses, o boicote de produtos dinamarqueses no mundo árabe e a intervenção de campeões da liberdade religiosa — como os governos de Síria, Kuweit, Arábia Saudita e Líbia — para que, finalmente, despertasse o interesse de alguns jornais europeus. Na semana passada, o assunto virou manchete em todo o Velho Continente.

Já na maior parte dos relatos na imprensa americana, os europeus pareciam estar errados, novamente. Eles não sabem como lidar com a imigração, a religião e o respeito às minorias. Afinal, suas cidades estão queimando, como ficou claro, meses atrás, na França.

O ex-presidente dos EUA, Bill Clinton, detectou um “preconceito antiislâmico” e o comparou ao “preconceito anti-semita” de outrora. Nessa jihad (guerra santa) contra o humor, a tolerância é desdenhada por quem a prega para os outros. Os governos autoritários que dizem falar em nome das supostamente oprimidas minorias islâmicas na Europa reprimem implacavelmente as suas próprias minorias. Eles não pedem mais respeito, mas submissão. E querem que os não-muçulmanos na Europa vivam regras muçulmanas.

Será que Clinton defende a tolerância para com a intolerância? Na sexta-feira passada, o Departamento de Estado norte-americano achou apropriado intervir e condenou a publicação das charges como um inaceitável incentivo ao ódio religioso. Esse é um momento curioso, em que o governo dos EUA, que se gaba de ser o ninho da livre opinião, sugere aos jornalistas europeus o que eles não devem publicar.

O autor, chefe da sucursal do semanário alemão Die Zeit, escreveu para o jornal The Washington Post

Um comentário:

Anônimo disse...

Caríssimos,
a propósito escrevi um artigo no meu blog sobre esse assunto no qual questiono a posição tomada por dois jornalistas brasileiros: Clóvis Rossi e Carlos Heitor Cony.
Na minha opinião, o Ocidente está de joelhos nessa história abrindo um perigoso precedente no que tange às liberdades democráticas. E a boa civilidade ensina: quem se considerar ofendido, tem todo o direito de processar o veículo. O que não dá para concordar é com a violência que está acontecendo e que já causou várias mortes em países islâmicos. E isto só traz prejuízos para ambos os lados. A violência tem de ser condenada. Nada justifica, a não ser a legítima defesa da vida.
Abs
Aluízio Amorim
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