Uma das coisas que me deixa frustrado é quando chego na redação, começo a escrever e percebo que se tivesse colhido determinada informação a reportagem ficaria melhor. Acho que todo jornalista já passou por isso. Não é nem que você tenha colhido poucas informações. É que se “tivesse perguntado ‘tal coisa’ poderia dar outro foco a notícia”. O pior é quando o editor pergunta por essa ‘tal coisa’ que você tem que dizer desconfiado: “não perguntei”. A sensação é de ‘falta de competência’.
Com o tempo o faro de repórter vai sendo aguçado e as falhas vão desaparecendo. É claro que vai ter um dia ou outro que você vai perceber que faltou o mais importante. As informações que você tem até dá para fazer a matéria, mas ela poderia ficar muito melhor se não tivesse esquecido de perguntar sobre a ‘tal coisa’. Sempre costumo dizer aos meus alunos que o nosso contato com a fonte (entrevistado) é uma oportunidade é única. Em alguns casos dá até pra fazer uma nova entrevista, mas o entrevistado perde a espontaneidade. Quem já teve que fazer isso sabe do que eu estou falando.
Em televisão é ainda pior. Depois que a câmera é desligada e você pede pro cinegrafista ligar novamente porque esqueceu de fazer uma pergunta, o entrevistado fica todo sem jeito. Ele até responde. Mas responde sem graça. Seu contato com a fonte pode durar apenas poucos minutos. E nesses poucos minutos você tem que pegar todas as informações. Se isso não ocorrer, já era. Existem outros casos que não dependem do repórter. Principalmente em tevê, onde o resultado do trabalho depende muito do cinegrafista. Ele é que tem que estar atento às imagens que farão a diferença na matéria. Se o cinegrafista não filmar, sua matéria vai ficar comprometida.
Semana passada vivi essa experiência. Estava trabalhando no clássico Campinense x Treze, no Amigão. Quando a bola saiu pra lateral, o técnico do Treze deu uma cotovelada no lateral-esquerdo do Campinense. O nariz do jogador sangrou e começou a confusão. “Você filmou a cotovelada”, perguntei ao meu cinegrafista. “Não sei”, respondeu ele pra minha tristeza. E realmente não tinha filmado porque assim que a bola saiu pra lateral, ele desligou a câmera. A cotovelada foi o assunto do outro dia no meio esportivo. Sem a imagem não pude fazer muita coisa. Tinha até boas sonoras com os envolvidos no caso. Não pude usá-las porque não dava pra fazer um VT sobre algo que não tinha a imagem. Esses casos chegam até a comprometer a credibilidade. O telespectador pode pensar que houve omissão, que não foi o caso.
Eu já havia passado por outra situação em janeiro de 2005, quando trabalha na TV Borborema. Posse do novo prefeito de Campina Grande, Veneziano Vital do Rêgo. Teatro Municipal lotado. Depois de entrevistar o novo chefe do executivo da cidade fomos (os jornalistas) entrevistar a ex-prefeita Cozete Barbosa. Quando estava na sexta pergunta resolvi tirar o microfone. Achei que com as sonoras que tinha dava pra fazer a matéria. E não é que na oitava pergunta, a ex-prefeita dá uma declaração bombástica. Na mesma hora, minha ex-editora Neide Nascimento me ligou perguntando se eu tinha a entrevista. Pense numa frustração. Ela ainda tentou me convencer a entrevistar novamente a ex-prefeita, num ato desesperado de conseguir a declaração. Sabia que seria quase impossível. Ela poderia até dizer algo parecido, mas nunca com a mesma raiva que disse. Fiquei pensando que aquilo era como se um prédio tivesse caído e eu tivesse perdido a imagem. Não teria como erguer o prédio, fazê-lo cair de novo para que eu pudesse filmar. A entrevista que perdi apontou um grande defeito nosso (de alguns repórteres de tevê como eu) de não ficar até o fim da entrevista, quando ela é feita por muitos jornalistas. Na maioria das vezes, na terceira ou quarta pergunta o cara já vai tirando o microfone. E foi por causa dessa mania que perdi a declaração da ex-prefeita, o fato mais importante da posse. Não foi bom, mas pelo menos serviu pra ensinar algo.
2 comentários:
Este, sombra, é o grande diferencial entre bons escritores e bons jornalistas. Uma pessoa pode até escrever bem, mas se não sabe apurar, não tem muito sucesso no jornalismo. A apuração é um "fundamento" determinante na profissão. O pior é que não dá para prever quando se está apurando se aquela informação que você está anotando no seu caderninho vai ser importante no texto. Depois de me dar muito mal em várias oportunidades (justamente por falta de informações importantes), estou escrevendo tudo que posso durante a apuração...
Pense num experiência em que se aprende mas fica-se com uma raiva de si mesmo danada... Fui vivê-la logo num momento em que não poderia, quando, após horas de viagem, lá no presídio Aníbal Bruno, em Pernambuco,entrevistei - apenas anotando, porque ele não quis gravar - o famoso Ataliba Arruda e, depois, me apercebi que algumas perguntas importantes faltaram... Eita, raiva!!! Mas, fazer o quê, né? Fica a lição.
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