23 fevereiro 2006

Um dia de Paparazzi

Pelo menos no Correio Braziliense funciona assim. Quando ocorre uma reunião de pauta e um repórter diz:
- Tenho uma materinha legal...
Hummmm!!
O editor nunca dá a atenção devida. Quando você tem uma sugestão e ela não é sensacional, mas interessante, ou até legal, o grande lance é "vendê-la" desta maneira:
- Tenho uma matéria sensacional para esta semana!!!
O chefe presta mais atenção e até sugere informações complementares para a matéria se tornar sensacional.
Fiz esse nariz-de-cera todo porque me lembrei que começaria este texto dizendo:
- Tenho uma historinha interessante...
Bem, é interessante, mas por quê não vendê-la como sensacional? Alguém, além de mim, pode achar sensacional a "historinha"!
Vamos ao lead.

Quem esteve final de semana passado em Brasília foi ninguém menos que Don Diego Armando Maradona. Veio participar de um jogo de confraternização com ex-craques do Brasil em Brasília. Como esse camarada é polêmico, mais que divulgar a presença dele no jogo, o fato de ele passar duas noites na capital do Brasil já rende uma ou duas páginas inteira de notícias. Todo mundo quer saber o que Maradona fez em Brasília. Pelo menos os moradores de Brasília querem.

Eu queria também. Deixei de querer quando descobri que EU seria um dos responsáveis por informar ao público de Brasília o que cargas d'água Maradona fez em Brasília.

Humildemente, fui lá fazer vigília a partir de 9h30 da manhã de sábado passado (dia 18, se não me engano) em frente ao Hotel Kubitscheck Plaza, um dos melhores do DF. Na verdade, eu já estava rendendo um repórter do jornal, Afonso Morais, que ficou a madrugada inteira lá. Um fotógrafo já estava no local desde 6h30, quando substituiu o da madrugada.

Quando desembarquei no hotel, recebi as seguintes informações:

1- Maradona NÃO saiu do hotel na noite de sexta para sábado;
2 - Maradona encheu a cara de cachaça até 3h30 da manhã no bar da piscina.
3 - Um hospede reclamou da barulheira e os argentinos que acompanhavam Maradona, e que iriam jogar contra o Brasil no dia seguinte, foram para o quarto de Dieguito;
4 - Na suíte, Maradona pediu sete champanhes e um cara comprou 120 reais de energéticos no supermercado;
5 - Por volta de 6h da manhã, Maradona deu chilique porque queria que alguém comprasse cigarros para ele
6 - Por volta de 6h30, apagou-se a última luz do apartamento no décimo andar, onde Maradona estava hospedado.

Ciente da bagunça comportada do craque argentino, já estava pensando no título da minha matéria como "Maradona decepciona a imprensa". Brincadeiras à parte, assimilei essas informações de que ele teria ficado no hotel enchendo a rabiola de cana como verdades absolutas. Até porque, Goycochea, Basualdo, Careca e o próprio gerente do hotel deram a mesma versão. Só tive o trabalho de perguntar que horas ele sairia do quarto e o que comeu no café da manhã, almoço e jantar.

Acontece que às 17h, dez minutos antes de Maradona sair do hotel para ir jogar (sim, ele não veio para Brasília apenas para cachaçar), um cabeleireiro (néééé?!?!) que trabalha em um salão de beleza dentro do shoppingzinho do hotel chegou com a seguinte conversa:

- Arrumei quatro amigas (amigas mesmo. Popularmente chamadas de PUTAS PAGAS) para Maradona. Foi o chefe da delegação quem pediu. Eles foram no Gates Pub e na Boate Trend ontem à noite e voltaram depois das 4h da manhã...

Eu estava ao lado da minha concorrente, Camila Valadares, do Jornal de Brasília. Ficamos doidos com essa informação. Pô, um repórter passou a madrugada inteira no hotel e não viu Maradona sair pelo único elevador do recinto? Não era possível.

O cabeleireiro (néééé?!?!?!?) fez questão de mostrar que era, sim, possível que ele pudesse ter saído na noite de sexta para sábado. Acontece que o Gates e a Trend são locais concorridíssimos de públicos diferentes. Se ele tivesse ido com quatro putas pagas, Brasília inteira (a cidade só tem 16km de extensão, é pequena mesmo) já estaria comentando.

Pois o cabeleireiro (néééé?!?!?!?) sacou o celular do bolso e ligou para a amiga. Quem conversou com ela foi Valadares. A amiga estava nervosa porque a profissão dela é sigilosa, se é que você me entende. Mas deu a mesma versão do rapazinho do salão de beleza. Entramos em desespero. Eu e Valadares.

Quanto ele pagou pelas putas? Elas viram sinal de cocaína com Maradona? Ele usa viagra? Ele pediu alguma delas em casamento? Ele tem ejaculação precoce? Coisas do tipo. Ridículo...

Bom, são coisas fúteis, mas que qualquer edição do Manual de Redação da Caras ou Contigo dá muito valor. Era para isso que eu estava ali. Quer queria, quer não, o público quer ler essas coisas. Tanto que foi a matéria mais lida no Correio Braziliense e no Jornal de Brasília no domingo.

Pois muito bem, para confirmar a história, procuramos um coadjuvante. Huuuummm... Um segurança de Maradona! Ninguém melhor que ele para comprovar se El Diez fora no Gates e na Trend na noite de sexta para sábado.

Quem abordou um deles foi Camia Valadares.
- Oi amigo, tudo bem? Já estamos sabendo que Maradona saiu ontem à noite, foi para o Gates, Trend e voltou depois das 4h da matina com quatro prostitutas, pode confessar...

O cara, segurança, todo de preto, cara de poucos amigos, fechou ainda mais o rosto e não respondeu.

Naquele momento, eu e Valadares começamos a discutir. Na minha modesta, opaca e pálida opinião, ela deveria primeiro, tirar a cara de poucos amigos do segurança com perguntas amenas. Such as:

- Como é pra você trabalhar com um astro da grandeza de Maradona?
- As pessoas pedem muito autografo?

Assim, você ganha a simpatia do entrevistado. Essa é a minha opinião. Depois que o entrevistado tá do seu lado, cai matando. O livro de Lúcio Vaz (Ética da Malandragem), que Da Silva citou em post passado, ensina mais ou menos isso.

Acontece que eu fiquei sem a informação e tive que voltar correndo para redação para escrever meu texto, porque o jornal já estava fechando. Somado a isso, o jogo entre Brasil e Argentina, o motivo pelo qual Maradona esteve em Brasília, estava começando e eu precisava estar lá.

Voltei para redação, contei a história para o meu chefe. Ele não engoliu muito bem. Liguei no Gates e Trend. Nenhuma das boates confirmou a presença de Maradona lá. Porém, Valadares conseguiu confirmar com um dos seguranças que Maradona teria passado por esses lugares. E mais: teria pago 1,8 mil reais para as gatas o acompanharem.

Escrevi a matéria sobre a noitada no hotel mesmo.

O Jornal de Brasília (Camila Valadares) escreveu alguma coisa tipo: "Noite misteriosa". O que Maradona fez, afinal? Ficou trancado bebendo no hotel ou pagou quatro putas? Esse foi o tom da matéria.

Tenho humildade para reconhecer que gostaria de ter feito a mesma matéria, mas meu chefe pediu para divulgar apenas a versão que Afonso Morais, o repórter que passou a noite de sexta para sábado lá, havia apurado.

Em conversa com meus colegas de redação, eles também acham que o correto foi o que fiz. Sinceramente, ainda estou na dúvida.

A única certeza que tenho é que quem lê Caras não vê o coração de quem escreve aquelas abobrinhas.

Haja sofrimento (e falta do que escrever)

4 comentários:

Léo Alves disse...

E eu que um dia pensei que era ruim ficar de plantão no presídio a noite toda, enquanto rolava um montim. Pelo menos no outro dia tinha uma história interessante pra contar. A vida de repórter é assim. Você cobre qualqauer (qualquer mesmo) acontecimento.

Lenildo Ferreira disse...

Rapaz, o sofrimento foi grande mesmo, todavia, essa história ficou melhor que qualquer uma das reportagens, com certeza. Dei boas risadas.... Abraços

Anônimo disse...

hay q endurecerse pero...hehehe
bela história...só faltou o telefone das "profissionais"pra quando eu for a Brasília...hehehe.
valeu

Evandro Baron disse...

Daniel, não li a tua matéria nem a da Valadares, mas as reportagens que foram pro prelo não passam de versões, né mesmo!? E versão por versão, fico mais com esta daqui, que nem me dei ao trabalho de procurar nas bancas o Correio. Ah, ia me esquecendo, vida de reportero é assim mesmo. E sempre terás uma nova chance de fazer a matéria que gostarias de ver publicada. Um abraço e boa sorte.