06 março 2006

Suave veneno

Tem gente que quer ser jornalista para substituir Glória Maria no Fantástico. Tem gente que prefere ser o novo Galvão Bueno. Tem gente que sonha em substituir Marcos Losekan como correspondente internacional. Outras pessoas fazem vestibular para Comunicação para ser reconhecido na rua e dar autógrafo.

Se você se encaixou em uma dessas três opções acima, me desculpe, mas você está errado! Você não quer ser jornalista. Quer apenas aparecer, quer ser mais importante do que a notícia. Mas se você leu este texto e conseguiu substituir Gloria Maria ou Galvão Bueno, me avise porque quero dar os parabéns pessoalmente. (Afinal, Gloria Maria e Galvão Bueno existem mesmo?)

Na minha singela opinião, jornalista é aquela pessoa que gosta de escrever, de contar e ouvir histórias. De imaginar o que os leitores, ouvintes ou telespectadores, querem saber ou gostam de ver. Eu, apesar de estar iniciando minha carreira, acredito que me encaixo neste estilo.

Nada me deixa mais feliz do que ver um texto meu impresso em uma página de jornal. Não precisa nem ter meu nome (a não ser que o texto seja uma obra prima - o que é raro, admito), só em ver um trabalho meu ali me deixa realizado. É como o grande amigo/professor Ribamildo Bezerra me falou uma vez:

"Se você escreve para um universo de 100 pessoas e apenas uma delas entendeu sua mensagem, ela repassará para outras 100. Se uma dessas 100 entender a mensagem, repassará mais uma vez sua idéia. Está formado um ciclo".

Nem sei se ele se lembra que me falou isso em 1999.

Anyway, me sinto mais realizado vendo um texto meu no jornal do que minha imagem na TV. Não sei dizer porquê. Talvez porque eu não assista TV com freqüência. Só telejornais e futebol. É claro que se fosse chamado para trabalhar em TV novamente, voltaria, com certeza, mas acho o caminho do jornalismo impresso mais interessante para mim do que qualquer outro. Talvez internet se igualaria em interesse.

Além do fato de poder escrever mais, contar mais histórias e me especializar em algum assunto -- em TV você cumpre a pauta diária e tchau --, chega a ser venenoso ser interpelado na rua por alguém que você não conhece para falar sobre seu trabalho. Poucas são as pessoas que não gostam disso.

Quando morei em Campina Grande (1999-2002), acontecia com alguma freqüência isso comigo. Confesso, me envenenei. Felizmente, o veneno não se espalhou pelo corpo. Felizmente. Não achava ruim, mas não achava bom. Só sentia falta de ter um público mais seleto. Não tenho pretensão de ser escritor das grandes massas, nem ter o alcance de Truman Capote, Ruy Castro ou Monteiro Lobato.

Como disse William Bonner em uma declaração inteligente (e mal interpretada), só é exibido na TV o que Homer Simpson consegue entender. Homer Simpson, nesse caso, é o pai-de-familia comum, trabalhador, sem regalias em casa, pagador de imposto, CPMF e coisas do tipo. Alienado, até meio burro. Na TV, ele terá a informação superficial: "A bolsa de valores de tóquio está em queda".

No jornal, Homer também pode ter acesso àquelas informações transmitidas pela TV e mais alguma coisa específica, um diferencial. Por causa dele (diferencial), Mr. Burns, o dono da indústria que Homer trabalha, milionário, proprietário da maior parte das terras do mundo, também lê o jornal. Lisa Simpson, estudante, esforçada, dedicada e atualizada, idem.

Usei os personagens de desenho animado para ilustrar os tipos de leitores e telespectadores. Quando trabalha em TV, era constantemente abordado por Homers campinenses. Apesar de eu trabalhar com futebol, aquelas pessoas mal sabiam do que estavam falando e ainda diziam de qual maneira eu deveria trabalhar, como se fossem experts. Nesses Homers, estão incluídos alguns colegas de trabalho, diga-se! (Da Silva conhece bem)

O tempo passou, comecei a trabalhar em jornal impresso e acabei por parar no jornal de maior circulação da capital do país. Público totalmente diferente. Ministros, embaixadores, juízes, deputados, atletas olímpicos, até Homers e Mr. Burns lêem o jornal diariamente e opinam sobre ele (há esse serviço no Correio Braziliense).

Como não mostro minha cara em lugar nenhum, a não ser na redação do jornal, ninguém mais me importunou no meio da rua. Mas nos lugares que freqüento por causa do trabalho, percebo que o nível dos comentários sobre minhas reportagens é outro.

Não quero dizer que me sinto melhor ou pior com isso. Muito pelo contrário, a dose do veneno nas veias do jornalista aumenta. Ele passa a sentir mais importante, dono da verdade absoluta, e conhecedor de todas as realidades. É aí que mora o perigo.

Se por um lado, o jornalista de TV quer aparecer mais que notícia, quer que o cabelo seja notado, a roupa, o batom, a gravata sejam percebidos, o jornalista de impresso se considera a fonte inesgotável de sabedoria, lido por todos, comentado por poderosos, e procurado por pessoas influentes.

É no dia-a-dia do trabalho que eu consigo encaixar melhor uma frase dita quase que automaticamente por todos, mas que se encaixa como uma luva nas armadilhas que o jornalismo coloca no nosso caminho a cada texto escrito:

"Não nos deixei cair em tentação"

Amém

4 comentários:

Anônimo disse...

Oiiiiiiiii

qto tempo hein?!?!!? Super legal o texto Daniel... concordo com vc! Jornalista não é mais que a notícia, e isso, principalmente na Televisão, é difícil compreender...

Ainda bem q vc e Leozinho sabem mto bem disso!

Bjs =)

Anônimo disse...

Para adolescentes que, indecisos, não fazem qual vestibular fazer, reconheço: a explicação está boa. Para colocar num blog - visitado por pessoas "resolvidas" e definidas - está apenas razoável. Não mereço ser chamado de severo na crítica. As figuras citadas aparecem porque estão na Globo. Têm qualidade para brilhar em veículos menores? Porque para elas - as duas primeiras pessoas citadas - são profissionais que pecam por falta de humildade e aparecem por excesso de personalismo. Jornalismo exige humildade, astúcia e amor à verdade.
Karin Maria

Lenildo Ferreira disse...

É verdade. A tentação pelo estrelismo independe do veículo, e é um mal que tem tomado a categoria desde a faculdade, onde se pode ver um monte de gente se achando o máximo, só faltando andar com uma cuia na cabeça.

Lenildo Ferreira disse...

Ah! Outra coisa: como diz o citado Ribamildo, a maior causa de morte de jornalistas são as quedas. Quedas de cima de seus próprios egos. É fato. Abraços