Para quem está com preguiça de ler, por achar o texto "grande demais", é preciso dizer que jornalista é, por obrigação, uma pessoa bem informada -- ou pelo menos deveria tentar ser. O texto abaixo pode até ser "grande demais", mas é uma aula de jornalismo.
Primeiro, porque situa, na primeira parte do texto, o leitor na confusão em que está metido o governo federal neste momento. Depois (público x privado), por fazer uma análise jornalística do que a GRANDE IMPRENSA divulgou na semana que passou. O ponto cinco dos comentários do ombudsman mostra o que um pouco do que já foi escrito aqui sobre vaidade e parcialidade.
Vale a pena ler, refletir e comentar...
OMBUDSMAN
Folha de S. Paulo - domingo, 26 de março
O caso do ministro e do caseiro
MARCELO BERABA
A semana foi dominada por um escândalo, a quebra ilegal do sigilo bancário do caseiro Francenildo dos Santos Costa. Francenildo foi apresentado pelo "Estado de S. Paulo" na edição do dia 14 de março, e a manchete do jornal resume a importância de seu testemunho: "Caseiro desmente Palocci e diz que ministro visitava mansão".
A "mansão" era uma casa alugada no Lago Sul de Brasília por ex-colaboradores de Antonio Palocci da época em que foi prefeito de Ribeirão Preto e teria sido utilizada para lobby. O ministro da Fazenda garantiu, em diversas ocasiões, que jamais esteve na casa. Francenildo foi a segunda testemunha a aparecer, depois do motorista Francisco das Chagas Costa.O depoimento do caseiro criou uma situação ainda mais difícil para Palocci, já acuado por várias acusações referentes, principalmente, aos períodos em que foi prefeito. No dia 16, uma quinta-feira, Francenildo reafirmou, na CPI dos Bingos, que vira o ministro na tal casa, mas uma liminar do STF, concedida a um senador do PT, suspendeu a sessão.
Na sexta-feira à noite, a revista "Época" inaugurou o seu "Blog Brasil" (www.blogbrasil. globolog.com.br) com uma informação exclusiva e de repercussão imediata: "Extratos revelam depósitos para caseiro". A informação antecipava a reportagem que seria publicada na edição em papel que estava sendo concluída.
Os repórteres da "Época" tiveram acesso aos extratos da conta do caseiro na Caixa Econômica Federal e decidiram publicá-los, mesmo sabendo que tinham sido obtidos ilegalmente, por os considerarem "jornalisticamente relevantes". O título da revista é uma pergunta: "Quem está dizendo a verdade?".
A revista levantou a hipótese de o caseiro ter recebido dinheiro para testemunhar contra o ministro Palocci. O caseiro negou. Informou que o dinheiro tinha sido depositado por um empresário do Piauí que não o reconhece como filho. A história é confirmada pelo empresário.
Mesmo assim, a revista cravou que "os extratos põem em dúvida a credibilidade do caseiro". Por quê? Mais adiante a revista afirma que "o caseiro pode até não ter mentido [em relação ao ministro Palocci], mas escondeu de todos que tinha tanto dinheiro". E por que teria de revelar que tinha o dinheiro?A reportagem da "Época" deslanchou dois movimentos. Do lado do governo, uma operação para preservar o ministro e desmoralizar o caseiro, antes testemunha e agora investigado pela Polícia Federal e pelo Conselho de Controle de Atividades Financeiras, do Ministério da Fazenda. Do lado da oposição, da imprensa e de várias instituições e personalidades, uma onda de repúdio pela violação criminosa do sigilo bancário.
Público x privado
Pouco se discutiu a respeito da decisão da "Época" de publicar os extratos obtidos ilegalmente. Meu ponto de vista sobre a reportagem da revista:
1 - A violação do sigilo bancário é um crime grave e justifica a indignação estampada nos editoriais dos jornais e nas cartas de leitores. Além dos prejuízos pessoais provocados ao caseiro, é um atentado à democracia.
2 - O fato de a revista ter publicado o extrato não significa que ela também tenha cometido o crime. No caso, a responsabilidade pela manutenção do sigilo era da CEF. Há, a meu ver, um fator fundamental que pode justificar -como já ocorreu inúmeras vezes- a publicação de informações verdadeiras de origem ilegal que chegam às mãos dos jornalistas: o interesse público.A Folha tinha ciência de que as fitas do BNDES que gravavam conversas sobre o escândalo da privatização das telefônicas, em 1998, durante o governo Fernando Henrique Cardoso, tinham sido feitas ilegalmente. Verificada a autenticidade delas, decidiu publicar as partes que tinham interesse público (e nunca revelou os trechos com intimidades dos grampeados).
3 - No caso dos extratos de Francenildo, a revista "Época" cometeu, na minha opinião, os erros de ação e de omissão. Explico.
4 - A revista foi precipitada ao tornar pública a história familiar do caseiro. Naquela sexta-feira, dia 17, a publicação não tinha nenhum indício para colocar em dúvida a credibilidade da testemunha. O que ela tinha em mãos eram suposições, e deveria ter se dado mais tempo para investigar antes de publicar. A relação de Francenildo com o empresário que ele diz ser seu pai faz parte da sua vida particular. É até possível que o caseiro esteja mentindo e que o dinheiro tenha outra origem. Mas até agora nada foi provado.
5 - A revista estava, no entanto, com uma grande história e não deu atenção: os extratos foram obtidos através da violação criminosa do sigilo bancário do caseiro dentro da CEF, banco subordinado ao ministro Palocci. Este, por enquanto, é o grande escândalo. A revista ignorou o crime e, mesmo diante da falta de provas contra Francenildo, decidiu expor publicamente sua vida familiar. Uma completa inversão de critérios jornalísticos.
Sem comparação
Muitos leitores escreveram questionando a indignação manifestada pelos jornais com a quebra do sigilo bancário de Francenildo. Procuraram comparar o caso com o do ministro Palocci, que teria tido a sua intimidade violada quando foi revelado que freqüentava a casa do Lago Sul. Acho que não tem comparação. O ministro é um homem público e ele sempre informou que nunca esteve na casa. Se for provado o contrário, terá cometido uma mentira grave.Também não vejo como comparar o que ocorreu com o caseiro com o vazamento de informações sigilosas, obtidas legalmente, de acusados de estarem envolvidos com o valerioduto. São homens públicos investigados por terem se beneficiado de esquemas ilegais de levantamento de recursos para o enriquecimento pessoal ou para uso político.
Marcelo Beraba é o ombudsman da Folha desde 5 de abril de 2004. O ombudsman tem mandato de um ano, renovável por mais dois. Não pode ser demitido durante o exercício da função e tem estabilidade por seis meses após deixá-la. Suas atribuições são criticar o jornal sob a perspectiva dos leitores, recebendo e verificando suas reclamações, e comentar, aos domingos, o noticiário dos meios de comunicação.
Trem bala (cover)
Há 8 anos
Um comentário:
É uma pena que em busca de um furo, os meios comunicativos estejam fazendo esse tipo de coisa. Não sei nem mais o que esperar.
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