A classe de políticos é a mais difícil para o jornalista lidar. Pelo menos é o que escuto meus amigos dizerem. Como nunca trabalhei diretamente na editoria de política não posso afirmar nada. A única coisa que posso dizer é que se os políticos são difíceis de lidar, jogadores de futebol não ficam atrás. Aliás, jogadores, dirigentes e treinadores. Uma turma muito vaidosa. Com algumas raras exceções. Independente do time, a maioria dos jogadores tem escalação garantida no ‘Vaidade Futebol Clube’. Basta uma notícia sobre a má fase de um atacante para ele ficar chateado com o jornalista. Como se existisse uma outra forma de dizer algo a respeito de um atacante que há dez jogos não faz gol. Na época em que trabalhei no Diário da Borborema (2001/2005) a coluna Binóculo FC colecionou alguns desafetos. Não desafetos declarados. Mas jogadores, dirigentes e treinadores que me olhavam com ‘cara feia’ a cada notinha venenosa que era publicada.
Esse pessoal tem a mania de só querer ouvir elogios. Se for atacante adora ser chamado de ‘matador’, ‘artilheiro’. Competente é o adjetivo preferido dos treinadores e dirigentes. O pior é que quando time vai mal, a culpa é sempre da imprensa “que está trabalhando contra”. Como se nós jornalistas entrássemos em campo. Quando a imprensa divulga algo errado que o jogador fez, a raiva é maior ainda. Semana passada, o zagueiro Antonio Carlos, do Juventude, foi acusado de atitude racista contra Joevânio, Grêmio. Em entrevista, Antonio Carlos disse que “a imprensa se deveria se preocupar com outras coisas”. O cara comete um crime e acha ruim quando é divulgado. Se não quer virar notícia, não faça besteira. Ano passado, no Campeonato Paraibano, o meia Maurício do Treze, que já passou pelo Brasiliense, agrediu o árbitro no final de um jogo realizado em João Pessoa. Todas as televisões filmaram. Quando fui ao Presidente Vargas (estádio do Treze) fazer uma matéria, ele estava puto com a imprensa por ter divulgado as imagens. Soltou algumas indiretas, mas não dei crédito. Até porque sempre o achei meio estrela. Toda as vezes que alguém o convida para entrevista, ele demonstra má vontade. Pelo jeito, Maurício (os colegas de Brasília podem me esclarecer isso) não gosta muito da imprensa. Talvez a sua cisma seja só comigo. Também se for, não estou nem um pouco preocupado.
Para aumentar meu conceito de “estrela” a respeito de Maurício, semana passada ele veio questionar o porquê da tevê só passar poucos lances de uma partida. Ele se referia ao jogo do Treze contra o Nacional de Patos. O problema não foi o questionamento. E sim as insinuações de que a imprensa trabalha contra o Treze.
Cheguei ao Presidente Vargas e fui chamar um jogador, acho que um zagueiro para entrevistá-lo. De repente, Maurício pergunta:
- Quem edita os jogos na televisão?
- Sou eu quem escolhe os lances.
- Do jeito que você editou parece que o Nacional deu um sufoco na gente. A imprensa só que lascar a gente. Até parece que é coisa direcionada.
- Maurício não é bem por aí não.
Disse e fui entrevistar o zagueiro, que já me esperava no banner. Também não queria polemizar. Mas o meia queria mesmo discutir depois foi em minha direção. Nessa hora estava perto do banco da comissão técnica. Ele chegou logo pedindo para falar:
- Deixa eu falar, eu explicar.
Depois de escutar suas reclamações pelo fato de os “melhores momentos” (o nome já diz tudo) ter tão poucos lances fiz uma pergunta:
- Maurício você entende como funciona uma televisão, quais são os critérios de edição? É impossível você exibir todos os lances.
- Mas é que parece que vocês querem prejudicar a gente.
- Olha, antes de você criticar alguma coisa você precisa entender como é o jornalismo. E outra coisa. Não me vem com essa história de conspiração contra vocês. Além disso você nem conhece, não conhece a minha postura, o meu caráter. Você me conhece daqui (do estádio) de dar boa tarde a vocês e nada mais. Procure me conhecer.
Como ele ainda insistiu com as reclamações eu disparei:
- Me diz uma coisa eu já disse como você deve bater um pênalti, bater na bola? Se você deve jogar com meião baixo ou alto?
- Não, não.
- Então cara, não se mete no meu trabalho.
Depois dessa ele ainda retrucou algumas coisas, eu argumentei outras. Mas foi o fim da discussão. Poderia ter sugerido a inversão de papéis. Ele iria fazer a matéria e eu jogar no lugar dele.
Foi a segunda vez que aconteceu algo desse tipo comigo. A outra foi com o técnico Celso Teixeira, na época em que estava no Treze. Ele pediu para o assessor de imprensa ligar dizendo que não havia gostado de uma matéria publicada no Diário da Borborema.
- Fala pro Celso que eu também não estou gostando do time que ele está botando em campo. Então diz pro Celso que a gente faz o seguinte: ele vem fazer o jornal e eu coloco o time em campo. Assim, está tudo resolvido.
Os dirigentes não ficam atrás. Quando se publica atraso de salário, problemas na administração dos clubes, eles ficam puto. Certa vez eu tive que dizer a um dirigente que eles eram muito melindrosos, cheios de frescura.
Jogador de futebol, técnico, dirigentes são pessoas públicas. E como pessoas públicas estão sujeitas a críticas e elogios. O problema é que ainda vai demorar muito tempo para essa turma entender isso. Talvez nunca entendam. E nós jornalistas continuaremos sofrendo com as crises de vaidade deles. São os “ossos do ofício”.
Trem bala (cover)
Há 8 anos
2 comentários:
No caso do Treze (e falando como torcedor do time), acho que as pessoas deviam deixar de ser tão desconfiadas. Para os trezeanos, o pessoal da Federação Paraibana de futebol torce para o Botafogo - JP, os árbitros só prejudicam, e a imprensa é raposeira. Quem reclama demais, perde a razão.
Outra coisa, nenhum veículo de comunicação é assessoria de imprensa de clubede futebol. Se o Serrano, Campinense, Nacional de Cabedelo, ou qualquer outro time estivesse na posição que o Treze está, teria que enfrentar a pressão dos adversários, da torcida e da imprensa, que reflete a voz das arquibancadas.
Por último, acho que Maurício deveria se preocupar em voltar a Brasília e dar uma passada na tradicional Avenida W3 Norte. Ele perdeu uma coisa importante por lá...
Valeu
PS - Nosso blog chega aos mil acessos, após quase quatro meses de existência. Ainda nesta semana, escrevo algo a respeito!
Culpa da imprensa. Essa é uma modalidade de desculpas esfarrapadas que vem crescendo entre os incompetentes em geral. A corrupção em Brasília corre solta? Culpa da imprensa, que está querendo fazer denuncismo (como colocou Lula); o árbitro manda voltar o pênalti defendido por Rogério Ceni, porque ele se adiantou? Culpa da imprensa (de Milton Neve, em particular), que, segundo o goleiro, vive dizendo que ele se adianta nos pênaltis. E por aí vai. Você mesmo citou o exemplo absurdo do Antônio Carlos. O que acontece é que esses caras não vivem sem a imprensa, entretanto querem justificar o injustificável, pondo a culpa nos outros. Abraços
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