Não é muito fácil encontrar livros de jornalismo. Pelo menos aqui em Campina Grande. Na maioria das vezes que vou a livraria vejo os mesmos títulos. São poucas as novidades que chegam ao mercado campinense. Pra minha sorte Daniel mora em Brasília e, sempre que surge alguma novidade, ele me manda de presente. Aliás, na passagem relâmpago por aqui, ele me prometeu enviar (mais um) um livro. O novo da Folha de São Paulo. Não lembro bem do que se trata. Só sei que é interessante. Daniel me falou, mas já estávamos acima do sexto chope, então é difícil lembrar. Como DB estava no mesmo nível que eu, estou apenas relembrando a promessa.
Pois bem, o último presente que recebi via Brasília foi o livro de Lúcio Vaz, A Ética da Malandragem – No submundo do Congresso Nacional. Só pelo título dá pra perceber o que encontrei nele. Se o “mundo do Congresso” – esse que a gente conhece – não é lá essas coisas, não tem credibilidade, imagine o submundo. São 26 reportagens investigativas do jornalista gaúcho, que há 20 anos mora em Brasília. Passou treze na Folha de São Paulo e agora trabalha no Correio Braziliense. O livro é uma lição para todo jornalista, principalmente para aqueles que são atraídos pelo jornalismo investigativo. Lúcio conta os bastidores de cada reportagem, a maioria publicada na Folha de São Paulo. São denúncias de aluguel de mandato, nepotismo exagerado, compra de votos e, acredite, tráfico de drogas no Congresso. Tinha até o “teledrogas”. Como este é um ano de eleição, o livro também serve de reflexão para olharmos em quem pretendemos votar. Se bem que eu acho que todos os políticos são “farinha do mesmo saco”. É um bando de picareta. Estão pouco se lixando pros nossos interesses. Eu já tinha essa impressão e depois do livro aumentou ainda mais. É nojento você saber que a maioria (pra não dizer todos) faz com nosso dinheiro. Como Daniel, disse eu outro post: “políticos? Esses nunca são inocentes”. Os caras só se interessam em aprovar alguma coisa se forem beneficiados.
Sempre tentam se locupletar de alguma forma. Entre as reportagens aparecem nomes de políticos paraibanos. Na intitulada “Compra de votos”, Lúcio relata o episódio da convenção do PMDB em 1998, na Paraíba. Na época o agora deputado federal Ronaldo Cunha Lima queria ser indicado pelo partido como candidato a governador. Porém, José Maranhão pretendia concorrer à reeleição. A denúncia era de que Maranhão estava comprando votos dos convencionais. O jornalista veio a Paraíba, fez a matéria, mas ficou tudo “por isso mesmo”. Nessa mesma linha, Lúcio conta que um político de Mato Grosso denunciava o adversário por compra de votos. Ele prometia gravações. Depois de alguns meses sem resposta, o jornalista liga pro denunciante e ele diz que fez um acordo com o adversário. É mole?
Aprendi e estou aprendendo muitas coisas com o livro. Fiquei imaginando como seria um jornalista daqui fazendo reportagem investigativa. Possivelmente ele encontraria irregularidades. O problema seria onde publicar. No caso de Vaz, ele tinha o apoio do jornal. Por aqui, acho que o jornalista poderia até publicar algumas denúncias. Mas só aquelas dos adversários do grupo político que o veículo está “ligado”.
O que me chamou atenção também foi a orelha do livro, escrita pelo editor Luiz Fernando Emediato, que afirma existir “dois Congressos: um deles, cujo tamanho precisamos esclarecer, é aquele que faz uma Constituição, luta pela liberdade, vigia o Estado e até depõe um presidente. Vale a pena apostar que um dia será este o Congresso – e não o outro – que prevalecerá”. Concordo com ele, mas não posso negar que o outro Congresso (os das falcatruas) vem levando vantagem, se sobressaindo há muito tempo. Isso cansa. E não tem essa que “eu sou brasileiro e não desisto nunca”.
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Outro leitura recente foi o novo de Fernando Morais, Cem Quilos de Ouro [e outras histórias de um repórter]. O autor dispensa apresentações. O livro traz uma coletânea de doze reportagens. Grandes reportagens na verdade, algo que anda esquecido na maioria dos jornais. Hoje em dia não se investe tanto. As empresas não estão dispostas a pagar caro por uma boa história. O melhor é que todas as reportagens são precedidas do “making-off”, no qual os bastidores são relatados. Entre as histórias de Morais, três me chamaram a atenção: “O sonho da transamazônica acabou”, “O Napoleão do Planalto” e “O solitário da Dinda”. Na primeira, o jornalista conta os resultados da Transamazônica. Fernando havia feito a primeira reportagem sobre a estrada em 1970, percorrendo 5296 quilômetros em cima de uma promessa de desenvolvimento. Quatro anos depois voltou a fazer o percurso, atravessando “136 rios em seis balsas e cruzando 130 pontes” ao lado do fotógrafo para ver se o sonho do desenvolvimento tinha se tornado realidade. Foram vários dias na estrada num jipe Xavante da Gurgel para comprovar que tudo não passou de promessa.
Na “O Napoleão do Planalto” o jornalista traça um perfil da vida de Collor na época de presidente. A rotina, os contatos, os “amigos” (do poder, é claro). A reportagem “O solitário da Dinda” é sobre a vida do ex-presidente depois da queda. O interessante é fazer um paralelo entre as duas. Depois de sair do poder, Collor perdeu os amigos. Poucos lhe telefonavam. O ex-presidente revela toda a sua mágoa. E Morais consegue descrevê-la muito bem. O livro não deixa de ser uma aula de jornalismo ministrada por quem entende muito bem do assunto.
Os livros de Lúcio Vaz e Fernando Morais são certezas de boas leituras para este início de ano.
Trem bala (cover)
Há 8 anos
2 comentários:
DA Silva comprova que tem boa memória. Já havia me esquecido do livro da Folha de S. Paulo e não fazia a minima idéia de quantos choppes já havíamos tomado a aquela altura do campeonato.
De qualquer maneira, como o livro de Fernando Morais ainda está na fila para ser lido, posso dizer que Lúcio Vaz me inspirou a abordar Carlos Alberto Parreira em pleno vôo Madri-Sao Paulo no último mes de novembro (a história está relatada no primeiro post deste blog).
A tranquilidade com que ele encara os políticos ladrões (desculpe a redundancia) para cobrar pelos erros deles é realmente empolgante.
Vale ler e reler...
É verdade, Leo. As opções literárias na nossa área são poucas. Podemos retomar aquele projeto do intercâmbio de livros aqui na redação. Claro que só vale para os interessados. E por falar nisso, estou com um livro seu e ainda não lí, fica um pelo outro, pois o meu você também ainda não leu. Enquanto isso, vamos trocando figurinhas.
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