Por Léo Alves
É rotina o jornalismo de tevê se pautar pelos impressos. Não que toda produção dependa dos impressos, mas não há como negar que são boas fontes. Isso não acontece apenas em nível local. O caso dos sanguessugas foi denunciado pelo Correio Braziliense. O mensalão, pela Folha de São Paulo.
Depois os escândalos ganharam o Brasil através da tevê.
As reportagens bem produzidas pelos impressos servem de pauta. Há cerca de um mês o Esporte Espetacular exibiu uma matéria sobre a falsificação de idade de jogadores, os famosos “gatos”. A reportagem foi "pautada" pela Placar, que havia chegado às bancas na mesma semana.
Lembro que em junho, na Copa do Mundo, o mesmo Esporte Espetacular se pautou por uma matéria do colega Daniel Brito sobre os Calungas, uma comunidade da cidade de Cavalcante (GO), que assistia pela primeira vez o Mundial na televisão.
Sempre que os impressos saem na frente surge uma pergunta nas redações das tevês: “Como não ficamos sabendo disso?”. Acredito que não se trata de incompetência da produção. Porém tem que se admitir que os impressos (na maioria das vezes) têm melhores fontes.
A própria estrutura da televisão não permite muito o estreitamento da relação com as fontes.
Explico:
O contato com as fontes para agendamento das matérias é feito por telefone pela produção. O repórter vai às ruas fazer a reportagem apurada pela produção. É ele (o repórter) que tem contato direto com a fonte. Nota-se aí uma quebra da relação. O cara que mantém contato não é o mesmo que faz a entrevista.
Nos impressos é diferente. Na maioria das vezes o jornalista que mantém contato com a fonte é o mesmo que a entrevista. Com o tempo, cria-se um vínculo de confiança. É ao homem do impresso que a fonte vai confiar seus furos.
A setorização que existe nos impressos contribuiu para melhorar a relação com as fontes. O jornalista de esportes cobre rotineiramente só esportes, por exemplo. Cada macaco no seu galho.
Na tevê – refiro-me às emissoras afiliadas – o repórter é um faz tudo.
Esportes.
Polícia.
Política.
Cultura.
O que aparecer.
É praticamente impossível criar vínculo com as fontes de uma dessas áreas. Até porque o repórter não dispõe de muito tempo para aprofundar a relação com os entrevistados no intuito de ganhar a confiança dele.
Produtores visitarem as fontes melhoraria a relação. Ajudaria a descobrir furos. Porém não é o produtor quem faz a reportagem. Existe o risco de o repórter fugir do foco da matéria. Aí não tem jeito. A fonte se irrita (e o produtor também) e tudo volta à estaca zero.
A aparente saída seria o próprio repórter cultivar as fontes e descobrir furos. Senão o jornalismo impresso continuará (na maioria das vezes) furando os outros meios.
Trem bala (cover)
Há 8 anos
6 comentários:
Pior no rádio, onde as matérias dos impressos não são as fontes para as notícias: são as próprias notícias. Abs
No post "Mero repassador de informações" eu defendi a setorização dos produtores.
Mas com o aperfeiçoamento do jornalismo na internet, até os impressos estão deixando de ser fonte para "copiar" os grandes portais como UOL e Globo.com. Aí a situação das tevês pioram, porque elas fazem o "plágio-do-plágio".
OOOPS: "a situação das tevês PIORA".
OOOPS: "a situação das tevês PIORA".
Uma relação próxima com a fonte e a insistência em um assunto são coisas fundamentais para uma boa cobertura. Concordo que os repórteres do impresso conseguem fazer e manter mais fontes que os de tevê. Mas a tevê tem seu peso e conseguir fonte não seria difícil. Difícil, pelo jeito, é a relação produtor-repórter.
Humildemente
Acho também que há um maior rigor no jornalismo impresso, que faz com que a relação repórter-fonte seja mais estreita, pois a cobrança ali (no impresso de um grande jornal) é enorme, às vezes muito maior do que na TV. Por isso, em muitos casos, o repórter impresso tá sempre correndo atrás da fonte e a fonte correndo atrás dele. Ambos estão sempre sob constante vigília e auto-cobrança.
Sem mais para o momento,
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