Por Daniel Brito
Calça jeans clara, camisa branca, com uma foto de Lula nas costas, por cima de um casaco laranja, e cabelos lisos.
Cinqüenta metros nos separam. Neste espaço, o Rolls Royce Silver Wraith 1958 com o presidente Lula e Dona Marisa, um batalhão de seguranças engravatados, quase 100 cavalos dos Dragões da Independência.
Eu acompanho cada passo dele. No gramado da Esplanada dos Ministério, corro no meio da multidão, esbarrando em criança, vendedores de milhos, faixas vermelhas gigantescas amarradas aos galhos das árvores. Do outro lado do Eixo Monumental, o invasor (Calça jeans clara, camisa branca, com uma foto de Lula nas costas, por cima de um casaco laranja, e cabelos lisos).
Duas grades de aço, de aproximadamente 1,20m de altura cada, à margem de cada calçada (a minha e a dele).
Ensopado pela chuva torrencial que caracteriza o mês de janeiro em Brasília, corro sem olhar para frente. Atenção somente para o camarada do outro lado do Eixo Monumental. Ele É a minha pauta.
O único motivo da minha presença na segunda cerimônia de posse de Lula, em 1º de janeiro, é encontrar com esse cara.
Eis a minha missão:
TRAJETO PRESIDENCIAL - DANIEL BRITO - A PARTIR DAS 13H
Daniel acompanha o carro de Lula da Catedral ao Congresso. Fica atento se alguém tenta pular no carro do presidente e da primeira dama (como aconteceu na posse do primeiro mandato), acenos etc.
Quando recebi esta incumbência, lembrei de um trecho do livro O Reino e o Poder, de Gay Talese, que estou lendo atualmente. Tom Wicker era apenas mais um repórter da sucursal do New York Times em Washington, no final da década de 1960. Foi a Dallas acompanhar um desfile em carro aberto do presidente John Fitzgerald Kennedy e alavancou a carreira com a reportagem sobre o assassinato do presidente.
Não que eu imaginasse que Lula pudesse ser metralhado em plena Esplanada. Mas, quem sabe, um fato inusitado poderia coincidir com o meu plantão na posse da reeleição.
Assim "como aconteceu na primeira posse", uma pessoa pulou a cerca que separava o comboio presidencial do público. Em vez de agarrar no pescoço de Lula, como ocorreu em 2003, o corajoso apenas tirou uma foto ao lado do carro do presidente e saiu pelo outro lado da rua.
Corri no mesmo ritmo que ele por 200 metros. O invasor de um lado do carro de Lula. Eu, do outro.
Tentei invadir a pista logo depois que o comboio presidencial passase por mim. Não contava com a cavalaria dos Dragões da Independência. Um verdadeiro exército de cavalos enfeitados demorou dois minutos para passar. Quando a cavalaria se foi, o invasor já não estava visível.
Isso era por volta de 16h05 de segunda-feira, dia 1º de janeiro de 2007. Passei as três horas seguintes olhando para a multidão buscando as seguintes caracterísitcas:
Calça jeans clara, camisa branca, com uma foto de Lula nas costas, por cima de um casaco laranja, e cabelos lisos.
Tinha uma chance em 10 mil de encontrar o invasor e cumprir minha pauta.
Não encontrei.
Nem a polícia.
Nem os jornais concorrentes.
Trem bala (cover)
Há 8 anos
5 comentários:
Eu quase achei o cara. Hehe.
Bom texto. Tu pagou quanto para escreverem para ti?
Como nada na vida é perfeito, sua frustração seria completa se algum jornal concorrente tivesse localziado esse camarada.
Marcondes Brito
Daniel assim como fiz algumas críticas ao texto "A conquista do Prêmio Esso",
escrito por você semanas atrás,venho novamente dar a minha contribuição
nesse espaço.
Desta vez, porém, tecer todos os elogios possíveis a sua obra.
O texto está muito bom, envolvente.
A temática é muito pertinente e elucida bem o cotidiano
dos jornalistas brasileiros.
Parabéns pelo texto.
Parabéns também pelo bom trabalho que vc vem realizando no Correio.
Abs.
RApaz, como é que tu perdesse um caba que tava com um casaco laranja???? LARANJA??? KKKKKKK. Ficasse admirado com a primeira-dama, foi? Linda, parecendo uma pamonha com aquele vestido amarelo-alckmin!!! Ótimo texto, abraçuuuss!!
LeNildo Ferreira
É cada sufoco que neguinho passa...
hehehe
Irado o texto!
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