Pedro Henrique Freire
Um dia estava conversando com o repórter de política Rudolfo Lago (ex-Correio, agora Istoé) e ele me dizia o seguinte: “Numa matéria com políticos, o mínimo que você pode fazer é escutar todos os envolvidos na história. Mas é preciso ter cuidado para não ser enganado ou entrar num jogo que não estava previsto”.
Entendi aquilo como a habilidade natural que os políticos adquirem no trato com o jornalista. Tudo, penso eu, é uma relação de poder. Eles querem a boa imagem para si ou a péssima para o outro. Nós queremos notícias. Quando as duas coisas podem ser trocadas sem desgaste, ali está uma boa matéria.
Mas é interessante refletir sobre a maneira como Aldo Rebelo (PCdoB) se comporta nas entrevistas. Ao ser cercado por microfones e gravadores, o presidente da Câmara dos Deputados centra um olhar de peixe morto em algum ponto do ambiente e começa a selecionar palavras com pinça. Fala devagar e quase nunca o que o jornalista espera. Parece ter aversão a imprensa e nunca usar ela em favor próprio.
Diferente do seu adversário na disputa pela casa. Arlindo Chinaglia (PT) é bem mais espontâneo. Abraça e fala alto (e rápido) quase tudo que pensa. Pior pra ele e melhor para nós. O melhor entrevistado é aquele que sabe revidar. E o bom jornalista, penso eu, é o que sabe provocar com perguntas.
Na cobertura sobre as eleições legislativas, ele aparecia e falava todos os dias. Rebelo (antes de ser passado pra trás) evitava polêmicas e reflexões sobre o que está fora de sua alçada. É discreto.
Rebelo e Chinaglia são duas personalidades distintas. Para entrevistá-los, assim como outros políticos, é preciso conhecer seus perfis. Identificar suas reações é fundamental para encaixar a pergunta na hora certa e, assim, obter uma boa resposta, que dê uma ótima matéria. Mas tudo isso, como aconselhou Rudolfo, sem entrar no jogo deles.
Numa fria
No final das contas, é importante ouvir tudo aquilo que os caras têm pra falar (até mesmo quando não têm nada a falar). Mas aqui e ali, segundo Rudolfo, tentam te colocar numa fria. É um exercício comum, feito para alimentar o próprio jogo. Inventam e pedem matéria. Supervalorizam o que acham importante. Quando apuramos, não é nada demais! Mas o que podemos fazer se nosso papel é checar, checar e checar?
Abraços
Trem bala (cover)
Há 8 anos
2 comentários:
Checar, checar e checar. Mas o pior que pode ser feito é você chegar com um monte de questões prontas demonstrando ignorância sobre o assunto e uma incapacidade de improvisar e contra-argumentar apropriadamente.
Abração!!!
O comportamento de Aldo Rebelo durante as entrevistas lembra muito o atacante Ronaldo (ex-fenômemo). Ele, realmente, pensa antes de cada frase de efeito que solta.
É difícil arrancar uma manchete do que ele diz. Pensando bem, em má fase, Ronaldo não tem medido muito as palavras e os jornalistas espanhóis estão fazendo a festa com as declarações do atacante.
Mas, voltando a Aldo Rebelo, em caso de 'aspa' sem muito efeito, é preciso ter muito conteúdo para não fazer um texto tão desinteressante quanto uma entrenvista do atual presidente da câmara dos deputados!
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