Por Daniel Brito
O New York Times publicou, na semana que passou, uma matéria sobre o neto do criador da Toyota. Akio Toyoda tem 51 anos, 24 dos quais dedicados à maior montadora de carros do Japão. Seu pai, Suichiro, já era presidente da Toyota, mas nem por isso Akio foi privilegiado na carreira dentro da empresa.
Para começo de conversa, esse japinha estudou muito. Formou-se no Japão, fez MBA em Boston e virou investidor em Nova York. "Ninguém quer ser seu chefe. Mas se você quer trabalhar aqui, que seja pelo caminho normal", avisou o velho Suichiro quando Akio expressou o desejo de integrar a "família Toyota". Aos 27 anos integrou-se ao negócio da família como trainee, diga-se.
Na reportagem, traduzida para o português e publicada no domingo na Folha de São Paulo, o repórter deu um contraponto à declaração do pai ao dizer que o sobrenome facilitou o caminho do garoto na escalada até a diretoria. Ao mesmo tempo que o texto mostra que Akio mostrou muita competência para chegar ao topo porque passou por todos os setores da indústria, "menos na engenharia".
Agora, uma pergunta:
Quem vai criticar a família Toyoda por ter colocado parentes de primeiro grau na fábrica?
Toyota é o carro importado mais vendido nos Estados Unidos, além de ser o veículo mais "popular" do Japão.
Certamente, se o velho Toyota, criador da fábrica há milhares de anos-luz, fosse um vendedor de maçãs, ele colocaria seu filho para trabalhar no ramo, até mesmo para ajudá-lo. Aí as críticas, se é que elas existem hoje, pelo "nepotismo" jamais existiriam. Seria, sim, elogiado por ser um pai atencioso, que faz de tudo para sustentar a família.
Antes que me interpretem mal, é preciso esclarecer que não defendo aqui o nepotismo "tradicional", daquele que vira manchete de jornal porque deputados empregam 12 membros da família em seu gabinete para cada um faturar R$ 5 mil por mês sem pisar no congresso. Nem o nepotismo cruzado, quando os políticos distribuem sua verba de gabinete a parentes de alguém a quem deve um grande favor.
Os pais, naturalmente, servem de inspiração para os filhos. Ronald, filho do Ronaldo Fenômeno quer ser jogador de futebol. João Paulo Diniz, filho de Abílio Diniz, é empresário. Maria Rita é cantora, como foi sua mãe, Elis Regina. Ticiane Pinheiro é modelo, assim como Helô Pinheiro, a garota de Ipanema.... Posso passar o resto do dia aqui citando exemplos.
Ao mesmo tempo que a vocação vem como herança genética, a pressão e a necessidade de mostrar mais que o familiar "famoso" fez são dobradas. Caso contrário, o herdeiro cai no ridículo. Taí Edinho, filho de Pelé, para não me deixar mentir. Isso serve em todas as áreas.
Eu, por exemplo, passei os últimos 12 anos ouvindo que só estava no jornalismo por causa do meu pai, que não é famoso, não tem uma fábrica de carro, nem nada. Apenas dirigiu uma empresa de comunicação na pequenina e heróica Paraíba e me deu um grande incentivo. Aos 15 anos, comecei na rádio. Aos 19, fui para a TV. Fui criado ouvindo que só estava no ar por causa do meu pai. Nunca me importei com isso.
Aos 22 anos, me formei e vim para Brasília. Passei por um portal de internet, dois jornais. Em um deles, o último que estava, meu pai já havia trabalhado como editor dez anos antes de minha chegada. Isso, aliás, foi motivo para eu ouvir a crítica mais criativa e ácida que já fizeram ao meu trabalho. "Existe uma vaga hereditária na editoria de esporte". Nunca deixei de fazer o que sempre gostei de fazer por causa dessa afirmação, nem quis provar nada para o autor. Evitei, inclusive, de repassar a frase ao meu editor porque ele foi um dos mais atingidos com a crítica.
Agora estou de mudança para São Paulo. Vou trabalhar com pessoas que nunca vi antes, não sabem sequer tenho pai, mas que gostaram das reportagens que eu fiz no jornal onde a vaga "é hereditária".
Trem bala (cover)
Há 8 anos
9 comentários:
Sei bem como é isso; ouvi muitas vezes a mesma ladainha. Isso contribuiu para que eu saísse de Florianópolis tempos depois de ter me formado. Faz parte do jogo, infelizmente.
Boa sorte em SP, meu caro.
Daniel, parabéns!
Fico feliz, mesmo sem lhe conhecer. Fico feliz com o sucesso do outro.
Faça seu trabalho com dedicação e seriedade, que continuará a colher os frutos.
Boa sorte, seja feliz.
Tem um cara lá no Recife, que mora em Boa Viagem, e só chegou onde está porque é pai de um repórter de esportes famoso, que transitou entre a Paraíba e Brasília e agora está de malas prontas (inclusive ele mesmo)para Sampa. O cara não tem fama, é apenas o pai do Daniel Brito.
Opa!! Boa sorte aqui em SP.
Onde vc vai trabalhar? Quero ler suas matérias.
Um abraço,
Carol.
Acredito que quanto maior a chance de alcançar o topo, maior a responsabilidade. O filho do velho Toyota chegou lá por competência. Porque, por ser filho, cobrou-se muito e acabou sendo a melhor opção para o cargo.
Oi Carol, infelizmente eu não posso revelar o jornal, porque me falaram que poderia rolar demissoes na editoria e vai que, por acaso, algum futuro demitido entra aqui antes de ser informado e fica sabendo que eu tô indo para a vaga dele, nééé'? Mas ficca na Z.O., deu para entender?
Obrigado por participar do blog. VOlte sempre...
Grande DB, esse é o tipo de crítica que tem o intuíto de diminuir, de fazer com que o criticado trave, não progrida na carreira. Ainda bem que você não travou. Mas muita gente trava, fica o resto do tempo pensando na crítica e esquece de crescer. Você fez melhor. Continuou trabalhando e agora mudou de emprego. Não ficaria surpreso se o a mesma pessoa perguntasse quem facilitou pra vc. É mais fácil procurar problemas no crescimento alheio, que aceitar a capacidade. E isso na minha humilde opinião se chama inveja. Alguém pode dizer que não a pessoa não tinha motivo pra ter inveja de você. Infelizmente muita gente tem inveja até do bom humor das pessoas. Boa Sorte. Nem precisa dizer que estou na torcida.
Olá!
Sou de Sampa e criei um Blog. Se puder entre lá.
www.ateondevaisaopaulo.blogspot.com
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