14 fevereiro 2008

Vai um jabaculê aí?

Um punhado de alunos de jornalismo da Universidade Federal de Santa Catarina decidiu, em 2000, chamar alguns palestrantes, montar umas oficinas e dar início a primeira Semana do Jornalismo. Esse tipo de evento era comum em outros cursos da UFSC, como direito e economia. Uma boa oportunidade para ouvir gente mais experiente sobre as dificuldades da profissão e do mercado de trabalho. A iniciativa deu certo: apareceram o então editor-chefe do Último Segundo, Leão Serva, o então editor de fotografia da Folha de São Paulo, João Bittar, o então editor-executivo do Correio Braziliense, Chico Amaral, e Émerson Gasperin, então editor-chefe da ShowBizz, principal revista de música do país na época.

Gasperin, além de um dos melhores jornalistas da área cultural da república bananal, era ex-aluno do curso, o que fez a primeira palestra da sua vida ter lotado o principal auditório da universidade. Uma das perguntas mais recorrentes naquela noite, a penúltima do evento, era sobre jabá. Afinal, editorias de cultura são as que têm mais jabaculê disponível. Gasperin devolve com duas perguntas. "É jabá ganhar um CD?", questiona, de primeira. Os estudantes ficam calados. Ele logo responde: "Não, não é. E quem é que se vende por um CD, assim tão barato?", responde. O segundo petardo vem alguns minutos depois. "Uma gravadora oferece uma viagem com tudo pago para cobrir um show do U2 na Irlanda. Eu aceito ou não?"

Mais silêncio na platéia. "É claro que sim, porra. Os meus leitores querem ler sobre o U2, é relevante. E o fato da gravadora ter pago tudo não significa que eu vou falar bem da bada", disse. Mais aplausos. O que Gasperin realmente queria dizer é que o jabá pode ser analisado caso a caso. Você pode receber o presente, desde que não seja nada absurdo, não devolver e fazer uma crítica ao produto em questão. Ou então nunca aceitar os "bônus" que empresas gostam tanto de oferecer aos jornalistas. O que realmente importa é se o que você ganhou vai influenciar ou não na sua matéria. Falo de jornais, e não de rádios, onde as gravadoras realmente pagam para as músicas serem executadas. Ah, por sinal, foi justamente nas rádios que o jabá surgiu.

As editorias de cultura, como mencionei, são as que têm mais jabás baratos: livros, discos, ingressos para cinema e teatro, por aí vai. Com a lenta mudança para variedades, outros temas acabaram agregados. Gastronomia, arquitetura, decoração e até turismo fazem parte dessas editorias. E dá-lhe convite e lembrancinhas chegarem nas redações cada vez mais em estado de contenção de despesas. Alguns muito caros, outros com o valor do troco da padaria. Quase quatro parágrafos e eu chego onde queria (esse deve ser, provavelmente, o maior nariz de cera da história do filhos da pauta!): até qual valor é aceitável você ficar om o presente?

Algumas empresas de comunicação têm regras rígidas sobre o assunto. Outras deixam seus jornalistas com suas consciências. Em maio de 2005, um caso "abalou" a crítica musical brasileira. A revista Veja publicou a matéria "O mensalinho da Maria Rita". O que aconteceu na época: a gravadora da filha da Elis Regina, a multinacional Warner, presenteou 30 jornalistas com um iPod shuffle - aquele mais baratinho, não tem? - recheado com as músicas do segundo disco da cantora. A matéria era uma paulada em três direções: em um repórter da concorrente Época, na gravadora e na própria Maria Rita. Só para constar. O dicionário Houaiss diz que jabá é "dinheiro ou qualquer coisa usada para corromper alguém, para ganhar uma inserção publicitária".

Se era demais a Warner dar os iPods? Sim, com toda a certeza. Pior eram os jornalistas que aceitaram. O iPod não é somente caro; é um objeto de consumo, um ícone da Apple. Quase três anos depois, vejo que a prática de dar iPods para jornalistas não é exclusiva da Warner. O Portland Trail Blazers, uma das 30 franquias da NBA, a principal liga de basquete do mundo, fez a mesma coisa. Na tentativa de encaixar um dos seus atletas no All Star Game, o departamento de marketing da equipe mandou, para os principais setoristas de basquete dos EUA, um iRoy, uma edição especial do iPod Nano. O Marty Burns, da Sports Illustraded, escreveu sobre isso. Ele é um dos principais colunistas de NBA dos Estados Unidos.

Os dois casos acabaram de maneiras diferentes. No Brasil, serviu como bala de canhão de publicações rivais. Depois de toda a repercussão, quase todos os colegas negaram ter aceitado o aparelhinho. Se isso realmente aconteceu, ninguém realmente sabe. Já nos EUA o debate praticamente não existiu. Os colegas simplesmente acharam um exagero ganhar o mp3 player da Apple. E todos devolveram. Ah, os repórteres norte-americanos não têm influência direta na escolha dos 24 jogadores que participarão do jogo das estrelas. O quinteto titular de cada conferência é escolhido pelos torcedores; os reservas são votados pelos treinadores.

Conseguiu chegar à alguma conclusão? Eu só sei que é preciso analisar caso a caso. Ao mesmo tempo que devolveria o iPod - nas duas situações acima - aceitaria, como já aceitei, viajar para conhecer algum destino turístico. Seja a convite do governo de um estado do Centro-oeste, como no meu caso, ou de empresas de turismo. A resposta para a pergunta lá do quarto parágrafo: o valor nem sempre será determinante para saber se o presente é abusivo ou não. Fica da consciência de cada um.

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Obs.1: essa é a minha estréia como o mais novo participante do filhos da pauta. Já tinha colaborado duas vezes, em textos que vocês acham com facilidade nos arquivos (tô com preguiça de linkar agora...). Um era sobre a morte do Norman Mailer e outro sobre os perigos da profissão repórter. Rapazes, obrigado pelo convite, espero honrar o espaço.

Obs.2: a quantidade excessiva do advérbio "então" no primeiro parágrafo não foi por falta de sinônimo ou por falta de atenção no texto. É proposital mesmo, para chamar a atenção para a rotatividade da profissão Nenhum dos jornalistas citados estão nos mesmos veículos. Gasperin voltou para Florianópolis e vive de frilas. Serva era chefe da assessoria de imprensa do José Serra na prefeitura de São Paulo; hoje não sei onde está. João Bittar é editor de fotografia da editora Globo e Chico Amaral está na Espanha, como sócio de uma empresa de design gráfico.


Obs.3: tem duas coisas que eu aprendi nos cinco anos de curso - eu demorei um pouco mais para me formar. A primeira é que ética se discute em mesa de bar. A outra é que a minha ética é a mesma do marceneiro.

7 comentários:

Felipe disse...

Grande Mister Rabbit!!!

Parabéns pela estréia!!!

Eu acho peculiar essa história de jabá. Na cultura eu não acho que a relação seja direta, porque, veja bem, como você vai avaliar um filme, um show, se você não for? Acho que um convite para o evento em si, seja aqui ou em Dublin, é compreensível. Ainda que, em alguns casos, provavelmente o jornal não faria matéria nenhuma sobre o show do U2 em Dublin por conta própria, caso não recebesse o convite. Cansei de fazer matéria assim no informática do Correio Braziliense. Certa feita fui até Nova Orleans (pré-Kattrina) para um evento corporativo da Computer & Associates. Foram três dias semi-trancado num congresso com palestras e assuntos chatíssimos e de interesse, na real, apenas para publicações do mercado corporativo. Eu comecei a fugir de muitas apresentações, fosse para dar um rolé na cidade em uma das tardes, fosse para procurar uma pauta entre visitantes menores que realmente fosse apalpável ao leitor comum do jornal. Voltei ao Brasil e fiz duas páginas (isso foi em 2000) sobre segurança inteligente nas residências, uma espécie de modelo prospectivo de "cas do futuro". Não era uma coisa que ninguém tivesse feito, mas no caso em questão, era de uma empresa que tinha desenvolvido softwars que identificavam moviemntos, ligavam e desligavam coisas sozinhoas, etc etc. Eu dei uma sacaneada dizendo que uma das poucas coisas interessantes do evento para os leitores comuns tinha sido esse tipo de projeto e tal. E apneas citei a Computer & Associates no ´pe da matéria, no tradicional "O repórter viajou a convite da....'. Me apareceu uma carta me escuilhambando, delicadamente, um mês depois, da C&A, puta da vida. Ou seja: ela esperava realmente que você, por ter sido convidado, fizesse o que eles queriam, que era uma matéria sobre um assunto desinteressante num veículo de grande circulação. Não rolou.

Outro caso, ainda mais grave, foi em outra viagem feita pelo caderno de informática, quando fui a Porto Rico, pela Lexmark. Ao final do evento, os 52 jornalistas (isso mesmo, 52!!!) convidados foram para a tradicional festinha de encerramento e no som anunciaram que sorteariam uma impressora Lexmark para quem tivesse um folder escrito "Lexmark" no envelope à sua frente na mesa. Já seria um pouco constrangedor fazer isso com uma pessoa, mas a gracinha era que TODOS OS 52 envelopes continham o tal folder e a reação geral foi um misto de constrangimento com satisfação enrustida nas pessoas. Muitos eram jornalistas calejados e fecharam a cara. Outros não, ficaram felizes e não escondiam isso. Outros, como foi o meu caso, ficaram quietos, mas questionando se aquilo era certo. Até hoje não sei. O valor do "presente" era, na época, uns R$ 500, mais ou menos a mesma coisa do tal ipod nano. eu fiquei com a impressora (por sinal ela ta aqui do meu lado, e, apesar de us=ala duas vezes ao anos, cada dois cartuchos dariam pra comprar uma nova) e fiz minha matéria, creio, como faria qq coisa. Não sei se fiz o certo, mas não sinto que fiz errado.

De toda forma, minha chefe costuma dizer que , se voce tiver sentido vergonha de receber o presente, se ficou na dúvida, é porque é constrangedor!!!

Abs e boa empreitada!!

DB disse...

1 - os filhos da pauta, Pedro, Da Silva e DB, estão muito orgulhosos da nova aquisição. Antes que o TCU venha fazer uma auditoria por aqui, é importante esclarecer que a vinda de Mário Ignácio Coelho não custou nada aos cofres públicos, tampouco, aas faturas dos cartões corporativos.
A chegada de Mário é um gesto de caridade a este humilde, porém heróico espaço, criado em 2005.
2 - Este não foi o maior nariz-de-cera do FDP, Mário, porque eu mesmo já fiz um post inteiro que era só nariz-de-cera e nunca chegou ao assunto principal. Portanto, pode ficar tranqüilo.
3 - Não é pecado receber "presentes". Pecado, é mudar de opinião por causa dele. A Folha de S. Paulo, por exemplo, não admite que seus repórteres aceite essas lembrancinhas. Nem CD, nem livro, nem nada... Orienta que os devolva imediatamente.
4 - Certa feita, a APEX, mesma empresa que nosso amigo Martins atua hoje, convidou o Correio para cobrir o lançamento oficial do barco BRasil 1, na regata de volta ao mundo, em 2005. Chegando no local, na Marina da Glória, no Rio de Janeiro, descobri que os caras do marketing do barco programaram a apresentação para a mesma data, hora e local de um barco holandês concorrente, patrocinado por um banco holandês. Fiz a matéria falando que o Brasil 1 queria ofuscar o holandês, que marcara o evento dois meses antes dos brasileiros. Os marqueteiros não vieram reclamar da matéria, mas soltaram indiretas, tipo:
- pô, nós convidamos o correio e ele dá destaque ao ABN, que beleza, hein?
Fazer o quê, né?
4 - O grande lance dos Jabás, mário ignácio coelho, é que existem jornalistas que estão nesta profissão APENAS para se locupletar dos agrados alheios. Seja uma entrada grátis no teatro, passando por IPods até viagens para o exterior.
5 - parabéns pela estréia. Atualize sempre que puder e quiser. A casa é também é sua agora!

Ana Clara disse...

Belo texto... Ótimo assunto! Diria que além de avaliar a relevância do jabá e o valor, ainda se pode a analisar a postura de quem recebe. e isso não se ensina na escola: há colegas que, além de receber de muito bom grado, fazem questão de anunciar. Tem coisa mais desagradável? Como disse o Daniel, estão nessa profissão para isso. Triste, lamentável. Só compareço a festas-jabá se for obrigada!
Beijos.

Mário Coelho disse...

Mr Campbell! Em cultura rola uma quantidade incrível de presentes, que não as cabines para o cinema, a credencial para show e por aí vai. Quando fui estagiário de cultura em Florianópolis, as coisas que via chegar para a editora eram impressionantes.

Eu nem entrei na questão das outras editorias. Afinal, os casos que eu queria comentar eram os dos iPods. Eu mesmo já viajei para fazer uma coletiva de economia onde a empresa de marketing colocou a gente em uma pousada à beira-mar durante o fim de semana, pagou jantares incríveis, balada com cerveja e uísque liberado... tudo para "divulgar" um fogão.

Concordo plenamente contigo, DB. Os jornalistas que vivem para o jabá, tipo o povo da Abrajet, é que fazem a má fama da profissão. Só não esqueçam que isso melhorou um pouco no decorrer dos anos. Antes todos faziam isso. Com salários baixos, o jeito era aceitar os presentinhos mesmo...

Valeu pelas boas vindas, galera!

=)

Léo Alves disse...

Boa estréia Mário. Seja bem-vindo a este humilde espaço. O tema é bastante palpitante porque o jabá existe em toda área do jornalismo. Lembro que na época que trabalhei no Banco do Brasil, uma norma dizia que "qualquer presente acima de R$ 20,00 (acho que esse era o valor) deveria ser comunicado a gerência". Acho que essa norma existe no BB para que algum cliente não agrade muito o funcionário e ele ajeite o atendimento. Algo como fazer com o cliente não enfrente filas. No tempo que trabalhei no BB acho que a única coisa que ganhei foi um quilo de queijo de coalho (R$ 7). E ainda dividi com o gerente.

Toty Freire disse...

Ótima estréia, grande Mário. Assunto polêmico e intessante. E o desfecho disse tudo: "O valor nem sempre será determinante para saber se o presente é abusivo ou não. Fica da consciência de cada um."

Seja bem-vindo!

Taty Valéria disse...

Eu queria pelo menos ter a chance de rejeitar um iPod, ou uma super viagem. Aqui na Paraíba, o máximo que se oferece é uma caneta com um bloquinho de anotações no fim do ano.