20 abril 2006

Ainda sobre 'herros'

Léo Alves

Acredito que não exista nenhum jornalista na face da terra que nunca tenha cometido um erro na profissão. Eu já cometi e sei que ainda vou cometer. Por mais que tente não errar, a profissão exige pressa. É nesse ponto que a gente se ferra.
Existem dois casos para mim inesquecíveis.
O primeiro foi logo que comecei a trabalhar na rádio. Inexperiente, lá fui eu apresentar uma resenha noturna sozinho. Cheguei um pouco atrasado. Entrei no estúdio em cima da hora. Na abertura do programa li algumas manchetes do jornal. Em seguida, li as notícias (achando que estava abafando). Veio o intervalo. E um monte de ligações dizendo que vários jogos já tinham acontecido. Foi aí que vi que o jornal era do dia anterior. Desde então passei a olhar as datas dos jornais antes de ler alguma coisa.

A outra gafe foi mais recente. Num final de ano, estava apresentando o Esporte no 9, na TV Borborema. Quando programa terminou, pelo som interno, o pessoal da técnica começou a gritar (nem me lembro porquê) e eu, achando que já havia encerrado, passei a bater na bancada de apresentador. Quando a galera me avisou que ainda estava no ar tive vontade de desaparecer. Olhei a gravação e quase entro em depressão. Mas não tinha mais o que fazer. O pior foi ter que explicar a um monte de gente porque eu estava parecendo um doido no fim do programa.

Os erros que podem parecer bestas pra gente têm muita importância para o leitor, telespectador e ouvinte. Lembro que recebi inúmeras ligações, na época que trabalhava no Diário da Borborema, de pessoas reclamando que o horóscopo estava repetido (tem gente que se preocupa muito com isso), que o capítulo da novela estava errado e até de pessoas que reclamavam da programação das tevês que estavam publicadas erradas. Tem uma história (que não sei se é mito) que um cara queria processar um jornal porque a programação de tevê estava errada e ele havia perdido o programa que queria assistir.

O caso de erro mais clássico aqui de Campina Grande é o que resultou na quebra do parque gráfico do Diário da Borborema, em 1968. Segundo me contaram, o empresário Edson Gaudêncio era casado com a Secretária de Educação de Campina Grande. Na época, a Prefeitura tinha comprado uma “Vaca Mecânica” (aquele equipamento que transforma grão de soja em leite).
No dia seguinte, estavam na capa do DB as fotos da Vaca Mecânica e da Secretária de Educação. Porém, na hora de colocar a legenda alguém se enganou ou fez por maldade. A foto da secretária saiu com a legenda: “A vaca leiteira da Prefeitura de Campina Grande”. O marido se revoltou.
Dizem que ele tomou umas e outras num bar perto do jornal. Depois, pegou uma marreta, arrombou a porta e quebrou o parque gráfico. Quando voltou para o bar contou o feito. Alguém perguntou: “quebrasse a redação também?”. Tem sempre alguém que quer a desgraça maior.
Não deu outra, Edson Gaudêncio voltou e quebrou a redação. Até hoje o DB não é mais impresso em Campina Grande. Atualmente o jornal é rodado em Recife.

A preocupação em acertar deve ser de todas as pessoas envolvidas no processo jornalístico. Já trabalhei (trabalhei, não trabalho mais, viu?) com pessoas na produção de tevê que não se preocupavam muito com o que escreviam na pauta.
Certa vez recebi uma pauta sobre um filme que seria exibido na Sexta-feira Santa no Parque do Povo. Era Jesus de Nazaré. A produção pedia para que fosse até o local para saber a programação. E quando foi se referir ao filme escreveu que o diretor era Zé Firelli. Eu sei que é difícil de entender logo de cara.
Deixe-me explicar.
O filme é dirigido pelo italiano Franco Zefirelli. Eu imagino (nunca vou ter certeza) que o organizador da sessão deve ter dito. “vamos exibir o filme Jesus de Nazaré de Zefirelli”, supondo que a produção sabia de quem se tratava.
Enganou-se.
Eu tive que decifrar o que a produção queria. Ainda bem que era Semana Santa, tempo de silêncio.

Um comentário:

DB disse...

Da Silva, MB já riu muito com essa história do cara ("já quebrasse a redação?")...
Nessa história de "Ze Firelli" há todo um contexto que explica o erro. A pessoa que fez essa pauta para você já era um erro. O maior problema do erro é não assumir que errou. Não só no jornalismo, mas em todos aspectos da vida!!!