Como bem descreveu Daniel no post anterior, a profissão de jornalista tornou-se perigosa. Se é que um dia ela deixou de ser. Basta olhar um pouco para história.
Muitos colegas foram agredidos, torturados, mortos. Wladimir Herzog, Tim Lopes, que foi assassinado por traficantes, Verônica Guerin, repórter irlandesa vítima de traficantes depois de publicar uma série de reportagens que denunciava os criminosos.
Os exemplos são muitos. Prefiro parar por aqui para não assustar ninguém.
Não é apenas a cobertura policial que oferece riscos. Quem trabalha no esporte sabe bem o que é ter que encarar torcedores apaixonados e enfurecidos. Para o repórter de tevê (o meu caso) é ainda pior. Nunca cheguei a ser agredido. Mas já perdi as contas das vezes que me chamaram de filho da puta, fresco, ‘viado’, safado, marginal, ladrão e b...
Basta ter um lance polêmico no jogo que todo mundo se vira pra cabine de tevê e diz logo: “mostre o lance viu seu safado senão a gente te pega”. É assim mesmo. Como se o repórter fosse culpado de o time dele perder. Nessas minhas andanças pelos caminhos do esporte na Paraíba, tive que me fingir de surdo várias vezes.
Domingo passado fui a Sousa. O Treze ganhou por 3 a 0. No final, quando nossa equipe saía, uns torcedores gritaram: “mostra o roubo da arbitragem viu”. Quase que eu dizia: “meu amigo, o Sousa perde por 3 a 0 e ainda teve roubo da arbitragem?”.
Certamente teria levado pelo menos um pontapé. Em certos momentos é melhor ficar calado (e eu era doido de falar pra apanhar?). Por aí você sente como tudo recai sobre a imprensa.
Historicamente, onde os torcedores criam mais problemas com a imprensa é em Patos. Daniel relatou no post anterior a raiva da torcida com Humberto de Campos. Um outro cara que não tinha nada a ver com a história acabou levando um soco, como forma de recado pra Humberto.
Por falar nele, o comentarista esteve em Patos pela Rádio Tabajara (ou foi Caturité?) para transmitir a primeira partida da semifinal do turno. No comentário do outro dia disse que passaria pelo menos mais vinte anos sem voltar lá. O clima nesse jogo (Nacional 3 x 3 Treze) foi quente.
No intervalo uns torcedores se viraram pra cabine e ameaçaram nossa equipe. A mesma história de sempre: “o roubo da arbitragem”. Pior para os colegas da TV Correio que foram cercados por torcedores. A coisa só se acalmou quando a polícia apareceu. Nem por isso eles deixaram de levar uns empurrões.
Há uns quinze dias, o companheiro Marcos Vasconcelos foi fazer o jogo entre Esporte de Patos e Treze. Voltou com a mesma história. Foi ameaçado por torcedores que prometeram “pegá-lo” se não mostrasse "o roubo da arbitragem" . O interessante é que nesse jogo o Treze é que foi roubado. O árbitro marcou um pênalti contra o Galo que não existiu. Quando o Esporte vencia por 2 a 0 ninguém se lembrava da imprensa. Mas quando o Treze empatou no final (o jogo foi 2 a 2) começou tudo novo. Haja xingamento.
Em Campina Grande, a paixão (o fanatismo) dos torcedores também chega ao extremo. Se o repórter é setorista de um clube é odiado pela torcida rival. Ninguém entende que o cara está fazendo seu trabalho. Hoje ele cobre o Treze, amanhã pode estar cobrindo o Campinense. Quando o repórter muda de lado, o ódio da torcida também muda.
Outro problema é quando você faz uma reportagem que não agrada. Se for contra o Treze, é tachado de raposeiro. Se for o contrário, é trezeano. A paixão do torcedor não o deixa enxergar que o compromisso do jornalista é com a verdade. A besteira (não encontro outro termo para definir a atitude do torcedor) é tão grande que enche o saco.
Em dias de treino, a alegria dos torcedores nas arquibancadas é descobrir quem é trezeano e quem é raposeiro. O que mais escuto é: “qual o time que você torce?”, “você é trezeano ou raposeiro?. A resposta é a mesma: “sou profissional”. E deixo a dúvida no ar.
Aliás, evito até falar de futebol fora do trabalho. Quando estou tomando uma cerva com os amigos e a galera puxa pro futebol eu me calo. Fico só ouvindo. Quando alguém insiste em ouvir minha opinião, educadamente, eu digo: “não gosto de falar de futebol fora do trabalho porque aquele é um momento de lazer pra mim”. Tenho certeza que muita gente me acha chato. Prefiro assim. É melhor que comentar algo que desagrade um fanático que está à mesa e inicie uma discussão. Pode parecer radical.
Mas é assim mesmo, o cara quer ouvir minha opinião à espera de um elogio do time e do jogador preferido dele. Se for diferente não vai gostar. Às vezes eles querem que eu fale pra descobrir se sou trezeano ou raposeiro. Até em momentos de lazer a profissão se torna perigosa.
Há uns dois anos, ouvi o narrador Luciano do Vale dizer, em entrevista, que não é feito nada para proteger os jornalistas. Não sei se é verdade, mas dizem que Luciano havia deixado de transmitir jogos por causa das constantes ameaças que sofria nos estádios. Ele disse que o torcedor tem seu Estatuto, o Tribunal de Justiça está de olho nos jogadores brigões, a polícia protege os árbitros quando eles saem. E nós jornalistas?
Luciano tem razão. Quando os jornalistas saem do trabalho, em quase todos os estádios, são obrigados a passar no meio dos torcedores. A polícia (muitas vezes) nem está por perto. A preocupação dela é proteger as delegações dos times e os árbitros. Os jornalistas que se virem.
Nos locais que dão acesso às cabines de rádio e tevê não existe policial. Às vezes não tem nem porteiro, entra quem quiser. É comum na hora do trabalho aparecer um desconhecido na cabine. Da mesma forma pode aparecer por lá torcedores revoltados.
E se isso acontecer “quem irá nos defender?”
Só se for o Chapolin Colorado.
Trem bala (cover)
Há 8 anos
7 comentários:
Dia desses ouvi uma frase sensacional sobre futebol: "Se o brasileiro encarasse os assuntos do dia-a-dia tão seriamente quanto como o faz com o futebol, o país estaria em outra situação". Porque a pessoa pode trocar de emprego, que está tudo bem; pode trocar de bairro, que está tudo ótimo; trocar de esposa, que está tudo perfeito. Mas se trocar de time de futebol é o pior filho da p*ta do planeta...
Francamente!
Houve um caso aqui em Santa Cruz do Capibaribe. O comentarista Zé do Carmo (ex-jogador)quase foi linchado na saída do jogo Ypiranga 2 a 0 sobre o Santa Cruz. A torcida o cercou durante 5 minutos, e ele só escapou quando a polícia de choque chegou.A torcida alegava que ele só fazia comentários a favor dos times da capital. Parece que esse fanatismo é mesmo generalizado.
POR ISSO É QUE O TERMO "TORCEDOR" TEM SENTIDO: ELE "TORCE" OS FATOS E AINDA QUER "TORCER" O PESCOÇO DOS JORNALISTAS QUANDO O TIME DELE TENTA "TORCER" A BOLA. SÓ O CHAPOLIN MESMO!!! ABRAÇOS E BOA SORTE.
kkkkkkkkkk Não contavam com a astúcia dele hein Leozinho? Tem que apelar assim mesmo. Mas vc imagina qd o jornalista deixa de ser profissional e leva o futebol pra casa hein? Sabemos bem disso e vemos que não dá nada certo... Problema sério!!!
Mas é assim mesmo, cada um com suas escolhas, e a gente respeita, até quando não atrapalhar a vida de ninguém! =) Bjsssss
Givanildo Santos:
Realmente a profissão é um perigo. Agora imagine só. Além de cursar jornalismo, ser árbitro de futebol amador nas horas vagas e ainda coordenar torneios, inclusive na zona rural (nada contra a zona rural).
Não vou descrever nenhum fato. Deixarei a imaginá-los.
Não tem Chapolin que resista.
Realmente Leo, devido ao fanatismo dos brasileiros pelo futebol, toda profissão envolvida nessa paixão, acaba mesmo sendo ameaçada e ameaçadora.
Já pensou se não existisse o chapolin pra nos defender? rsrsrs
abraçoss:)!
Leo e DBrito
O comentário de cima é meu;
houve um erro no compu :)!
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