O texto foi publicado segunda-feira (24/04) no Correio Braziliense. O colunista Eumano Silva faz uma análise da relação entre o presidente Lula e a imprensa. Ele relata que os jornalistas são acusados de muito rigor na cobertura do governo Lula. Porém aponta elementos que mostram que as acusações contra a imprensa parecem ser falta de habilidade dos integrantes do governo em não saber lidar com as críticas.
Lula e a imprensa
Eumano Silva
Eumano Silva
Correio Braziliense
As relações entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e a imprensa nos primeiros 40 meses de governo revelaram-se uma decepção. Ficaram muito distantes da expectativa criada em torno da primeira experiência de um trabalhador no Palácio do Planalto. Em vez de contatos amigáveis e respeitosos, os brasileiros assistiram a seguidas demonstrações de intolerância.
Em defesa de Lula, deve-se dizer que a imprensa erra. Erra muito. Na maioria das vezes, por pressa em publicar uma informação mal checada. Outras, por dar crédito a investigações em andamento, nem sempre confirmadas. A mentira proposital, felizmente, é um dos caminhos mais curtos para o fim de carreira de um jornalista. Para todos os casos, a legislação brasileira prevê punição, como acontece também com as autoridades envolvidas em irregularidades.
As falhas, muitas vezes graves, não justificam as freqüentes acusações de que a imprensa abusa do rigor na cobertura do governo Lula. Quem diz isso ignora o papel dos jornalistas na descoberta da rede de corrupção no governo Fernando Collor de Mello. Também não se lembra quando Eliseu Resende, o então ministro da Fazenda de Itamar Franco, caiu por manter relações indevidas com um empreiteira depois de uma denúncia publicada por uma revista semanal.
Nos oito anos do presidente Fernando Henrique Cardoso, a imprensa divulgou uma série inquestionável de escândalos. O primeiro, sobre tráfico de influência na licitação de implantação do Sistema de Vigilância da Amazônia (Sivam). Muitos outros vieram em seguida. Foi o caso, por exemplo, da denúncia de compra de votos na emenda da reeleição. Teve também a divulgação das gravações relacionadas com irregularidades no processo de privatização das empresas estatais.
Quem conviveu com Lula em campanhas acostumou-se com um político informal e brincalhão. Demonstrava boa vontade diante das perguntas dos repórteres e sabia muito bem usar o poder da mídia para levar propostas e opiniões aos eleitores. Numa viagem de dez dias pelo rio São Francisco, por exemplo, na eleição de 1994, Lula dedicou boa parte do tempo a prolongadas e informativas conversas com os jornalistas que acompanhavam a caravana.
Em novembro do ano passado, repórteres responsáveis pela cobertura diária do Palácio do Planalto conheceram um outro lado do presidente enquanto aguardavam a chegada do primeiro-ministro da Jamaica, Percival Patterson, para uma solenidade. Os jornalistas quiseram saber a opinião de Lula sobre a denúncia, publicada pela revista Veja, de uso de dinheiro proveniente de Cuba na campanha eleitoral de 2002. "Que falta de educação", reagiu o presidente.
Na ocasião, Lula reclamou de inconveniência do autor da pergunta. Considerou o tom de voz muito alto e inadequado. Em outras circunstâncias, poderia ter razão, mas entrevistas improvisadas, mesmo no Itamaraty, eram prática corriqueira até aquele dia. Com a reação inesperada, ficou a impressão de que o presidente não queria responder a pergunta.
As origens da dificuldade de relacionamento remontam ao tempo do sindicalismo. O então líder operário acostumou-se a enxergar a imprensa como um bloco homogêneo e uniforme a serviço da burguesia. Não se pode negar que os donos dos meios de comunicação são patrões, mas também foi por meio de jornais, revistas, rádios e canais de TV que Lula tornou-se conhecido em todo o país ainda durante a ditadura militar.
A primeira crise relacionada à imprensa no governo aconteceu quando Lula resolveu expulsar do Brasil o jornalista Larry Hotter, do The New York Times, autor de uma reportagem exagerada sobre o hábito do presidente de tomar bebidas alcoólicas. A reação mostrou-se autoritária, despropositada e ineficaz. O assunto virou notícia em jornais dentro e fora do país e o presidente ainda teve de recuar da intenção de mandar Hotter de volta para os Estados Unidos.
As críticas ao comportamento da imprensa seriam menores se os integrantes do governo levassem em conta o fato de jornalistas hoje envolvidos nas investigações terem feito o mesmo nos governos anteriores, quando o PT era oposição. Alguns parlamentares petistas se notabilizaram pela quantidade de denúncias produzidas para alimentar as páginas da imprensa burguesa contra os poderosos daqueles tempos. Os jornalistas profissionais que aprenderam a trabalhar dentro daqueles parâmetros não têm por que mudar os critérios agora.
A resistência à imprensa, porém, não é uma característica comum a todos os petistas. Mesmo durante a crise, muitas relações entre repórteres e fontes de informação foram criadas e, em alguns casos, se fortaleceram. Um bom conselho para Lula sobre como se comportar diante de jornalistas poderia ser a comparação bem-humorada feita pelo presidente do PT, deputado Ricardo Berzoini (SP): "Imprensa é como dentista, pois ninguém gosta, mas todos precisam dela".
As relações entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e a imprensa nos primeiros 40 meses de governo revelaram-se uma decepção. Ficaram muito distantes da expectativa criada em torno da primeira experiência de um trabalhador no Palácio do Planalto. Em vez de contatos amigáveis e respeitosos, os brasileiros assistiram a seguidas demonstrações de intolerância.
Em defesa de Lula, deve-se dizer que a imprensa erra. Erra muito. Na maioria das vezes, por pressa em publicar uma informação mal checada. Outras, por dar crédito a investigações em andamento, nem sempre confirmadas. A mentira proposital, felizmente, é um dos caminhos mais curtos para o fim de carreira de um jornalista. Para todos os casos, a legislação brasileira prevê punição, como acontece também com as autoridades envolvidas em irregularidades.
As falhas, muitas vezes graves, não justificam as freqüentes acusações de que a imprensa abusa do rigor na cobertura do governo Lula. Quem diz isso ignora o papel dos jornalistas na descoberta da rede de corrupção no governo Fernando Collor de Mello. Também não se lembra quando Eliseu Resende, o então ministro da Fazenda de Itamar Franco, caiu por manter relações indevidas com um empreiteira depois de uma denúncia publicada por uma revista semanal.
Nos oito anos do presidente Fernando Henrique Cardoso, a imprensa divulgou uma série inquestionável de escândalos. O primeiro, sobre tráfico de influência na licitação de implantação do Sistema de Vigilância da Amazônia (Sivam). Muitos outros vieram em seguida. Foi o caso, por exemplo, da denúncia de compra de votos na emenda da reeleição. Teve também a divulgação das gravações relacionadas com irregularidades no processo de privatização das empresas estatais.
Quem conviveu com Lula em campanhas acostumou-se com um político informal e brincalhão. Demonstrava boa vontade diante das perguntas dos repórteres e sabia muito bem usar o poder da mídia para levar propostas e opiniões aos eleitores. Numa viagem de dez dias pelo rio São Francisco, por exemplo, na eleição de 1994, Lula dedicou boa parte do tempo a prolongadas e informativas conversas com os jornalistas que acompanhavam a caravana.
Em novembro do ano passado, repórteres responsáveis pela cobertura diária do Palácio do Planalto conheceram um outro lado do presidente enquanto aguardavam a chegada do primeiro-ministro da Jamaica, Percival Patterson, para uma solenidade. Os jornalistas quiseram saber a opinião de Lula sobre a denúncia, publicada pela revista Veja, de uso de dinheiro proveniente de Cuba na campanha eleitoral de 2002. "Que falta de educação", reagiu o presidente.
Na ocasião, Lula reclamou de inconveniência do autor da pergunta. Considerou o tom de voz muito alto e inadequado. Em outras circunstâncias, poderia ter razão, mas entrevistas improvisadas, mesmo no Itamaraty, eram prática corriqueira até aquele dia. Com a reação inesperada, ficou a impressão de que o presidente não queria responder a pergunta.
As origens da dificuldade de relacionamento remontam ao tempo do sindicalismo. O então líder operário acostumou-se a enxergar a imprensa como um bloco homogêneo e uniforme a serviço da burguesia. Não se pode negar que os donos dos meios de comunicação são patrões, mas também foi por meio de jornais, revistas, rádios e canais de TV que Lula tornou-se conhecido em todo o país ainda durante a ditadura militar.
A primeira crise relacionada à imprensa no governo aconteceu quando Lula resolveu expulsar do Brasil o jornalista Larry Hotter, do The New York Times, autor de uma reportagem exagerada sobre o hábito do presidente de tomar bebidas alcoólicas. A reação mostrou-se autoritária, despropositada e ineficaz. O assunto virou notícia em jornais dentro e fora do país e o presidente ainda teve de recuar da intenção de mandar Hotter de volta para os Estados Unidos.
As críticas ao comportamento da imprensa seriam menores se os integrantes do governo levassem em conta o fato de jornalistas hoje envolvidos nas investigações terem feito o mesmo nos governos anteriores, quando o PT era oposição. Alguns parlamentares petistas se notabilizaram pela quantidade de denúncias produzidas para alimentar as páginas da imprensa burguesa contra os poderosos daqueles tempos. Os jornalistas profissionais que aprenderam a trabalhar dentro daqueles parâmetros não têm por que mudar os critérios agora.
A resistência à imprensa, porém, não é uma característica comum a todos os petistas. Mesmo durante a crise, muitas relações entre repórteres e fontes de informação foram criadas e, em alguns casos, se fortaleceram. Um bom conselho para Lula sobre como se comportar diante de jornalistas poderia ser a comparação bem-humorada feita pelo presidente do PT, deputado Ricardo Berzoini (SP): "Imprensa é como dentista, pois ninguém gosta, mas todos precisam dela".
Um comentário:
A comparação entre dentista e jornalista é incrível mesmo. Além de estar sensacional, o texto, até onde entendi, serve de cutucão em Diogo Mainardi, para quem os jornalistas não precisam prestar contas a ninguém!!!
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