Existe um livro chamado "A arte da entrevista". Já tem até dois volumes. O primeiro é de 1995 e o segundo de um ou dois anos atrás. Não é nenhum livro didático nem nada. São apenas coletâneas de entrevistas históricas no Brasil e no mundo. É uma excelente leitura para quem é jornalista e para quem gosta de história. Tem entrevistas com Oscar Wilde, Gilberto Freire, Winston Churchill, Ullisses Guimarães e por aí vai.
Mas entrevistar, realmente, é uma arte.
Nem todo mundo consegue respostas sensacionais. Dia desses, soube que a Globo fez uma matéria sacaneando os jogadores de futebol que só respondem "com certeza", independentemente da pergunta.
- O jogo vai ser fácil?
- Com certeza...
- E se for difícil?
- Ah, com certeza...
Tudo bem que repórter de esporte tem a horrível mania de fazer sempre as mesmas perguntas. Já viu entrevista após conquista de um título?
- Estamos ao lado do jogador Zé Galego. Zé Galego, é muita emoção?
- Com certeza, é muita emoção...
É ridículo, mas é a realidade.
Tem um narrador de rádio aqui em Brasília que chega ao cúmulo de pedir para os repórteres de pista fazerem a seguinte pergunta:
- Você agradece a Deus por esse título?
- Agradeço a Deus todo poderoso, criador do céu e da terra...
Parece aqueles programas da TV Record que passam de madrugada.
A arte da entrevista, na minha modesta, opaca e pálida opinião, está na malícia do entrevistador. No post "Um dia de paparazzi", sobre a visita de Maradona a Brasília, comentei algo sobre isso. Eu não sou nada malicioso, mas gosto de fazer mais ou menos assim.
1 - Converso amenidades com o entrevistado;
2 - faço perguntas óbvias (tipo: "é muita emoção?");
3 - Tento conquistar a "amizade" do entrevistado;
4 - Dou a "facada", ou seja, entro no assunto espinhoso.
Aconteceu quando fui falar com a mala-sem-alça da Daiane dos Santos. Ela é uma excelente atleta, mas péssima de entrevista. Por meio da assessoria de imprensa do patrocinador dela, tivemos uma rápida entrevista com ela pelo telefone, minutos antes de ela conversar com Condoleezza Rice, secretária de estado dos EUA. A Sr. Rice estava de visita em Brasília e queria conhecer "young winners from Brazil". Entre eles, Daiane.
Bom, a história é muito longa, mas deixa eu tentar resumir pq ainda tenho duas histórias para contar. A ginástica brasileira estava no meio de um furacão porque DAnielle Hipóllyto acabara de brigar com o técnico da Seleção Brasileira de ginástica. Claro que a conversa com DAiane seria sobre isso e não sobre o aperto de mão e a troca de sorrisos amarelos que teria com a Sr. Rice.
Tinha que conquistar Daiane em três minutos, o tempo que me deram para entrevistá-la. Comecei dando os parabéns pelos resultados, contando que assisti às apresentações dela com minha família (mentira!) e queria saber como ela se sentia como grande exemplo para jovens atletas brasileiros.
- Normal. Faz parte do trabalho, respondeu ela
Puxei outra pergunta sobre o calendário dela para a temporada, se os brasileiros poderiam vê-la no pódio outra vez, se as competições eram difíceis ou o quê:
- Normal, cortou
Sabendo que meu tempo estava esgotando, parti -- com raiva -- para a pergunta que me renderia tudo que queria.
- Daiane, o que você achou da confusão entre DAnielle Hipóllyto e o técnico da Seleção Brasileira de Ginástica?
SAbe o que ela respondeu?
- Normal, faz parte do trabalho....
piiiiii
piiiiii
piiiiii
fim de "conversa"
Ainda tive que escrever 40 centímetros sobre esse acrescentador bate-papo para edição do jornal do dia seguinte.
Nessa história de "conversar amenidades" no começo, quase que eu arrumo uma confusão com auxiliar técnico do time do Chelsea, campeão inglês de futebol. Isso está contada no post "Ficha Extensa", de janeiro, neste blog.
Dizem que Romário e Bernardinho são da mesma família: objetivos. Nunca entrevistei Romário. Mas sei (um pouco) como é Bernardinho. É bom você ter todas as perguntas na ponta língua, porque ele está sempre um passo à frente para sair da entrevista o mais rápido possível. Responde tudo com objetividade, sem firulas, nem piadas.
Robert Scheidt, velejador brasileiro, bicampeão olímpico, é o segundo cara mais chato que já entrevistei. Se o repórter demonstrar que não entende de vela, ele fecha a cara e não responde direito mais...
O presidente da Confederação Brasileira de Futsal, um senhorzinho de 80 e muitos anos chamado Aércio de Borba, me parecia simpático. Mas ele entrou em uma briga política na Confederação e fui entrevistá-lo pelo telefone.
Usei da minha tática. Não deu certo.
Depois de quase 45 minutos de briga no telefone (ele reclamando que as perguntas estavam muito bestas e eu insistindo), a conversa se encerrou assim:
- Olhe, se você não tem pergunta inteligente para fazer, não tem a mínima condição de a gente manter um diálogo....
piiii
piiii
piiii
Acontece que o véi tava se sentindo perseguido. Uma das denúncias dos opositores dele era de que ele tava na confederação a contragosto da família. Então fiquei perguntando o que a família achava de ele ainda estar no batente já na casa dos 80 anos de idade. Ele pensou que fosse provocação e respondeu no tom irônico:
- Eles querem que eu morra trabalhando...
Sabia que jamais poderia publicar tal coisa, por mais que fosse uma "aspa" sensacional!
Mas o cara mais chato que já entrevistei na minha vida é, sem sombra de dúvida, Ricardo Teixeira, presidente da Confederação Brasileira de Futebol (CBF). Ele esteve na semana passada em Brasília para se encontrar com o presidente Lula.
Lá fui eu entrevistá-lo.
Me lembro que meu pai havia me contado uma célebre história entre eles (meu pai e Teixeira).
Aconteceu em uma entrevista coletiva em Brasília, lá para as bandas de 1992, 1993. Meu pai tinha feito algumas críticas a Ricardo Teixeira no Correio Braziliense. Ele, certamente, deve ter lido e guardado o nome do meu pai (que não é um nome comum: marcondes).
Meu pai se dirigiu ao microfone para fazer a primeira pergunta, mas antes se identificou, como é de praxe em coletivas:
- Marcondes Brito, Correio Braziliense
- Peraí... De onde?
- Correio Braziliense!
- PAra este jornal eu não falo
Ah, tá...
Ricardo Teixeira é um chato.
Já de volta a 2006, veja o que aconteceu comigo.
Em Brasília, ele veio entregar uma carta que o presidente da Fifa mandou a Lula. Sabia que ele não era muito adedpto de respostas bombásticas, então formulei duas perguntas intrigantes:
1 - Qual a opinião do senhor sobre a idéia da Argentina de querer sediar a Copa de 2014 conjutamente com o Brasil, conforme foi noticiado em Buenos Aires?
2 - Parreira disse a uma revista inglesa que liberaria o sexo para os jogadores antes do jogos da Copa de 2006, o senhor concorda?
Veja o que eu escrevi no Correio Braziliense do último dia 4:
O presidente da Confederação Brasileira de Futebol (CBF), Ricardo Teixeira, não acredita na imprensa internacional. Principalmente a argentina e a inglesa. Publicações dos dois países divulgaram na última semana notícias sobre o Brasil que Teixeira classificou como mentirosas. O dirigente esteve em Brasília ontem para visitar o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, no Palácio do Planalto.
(...)
Teixeira falou rapidamente com a imprensa antes de deixar o local e classificou como mentirosa a notícia segundo a qual a Argentina proporia ao Brasil a divisão da sede da Copa do Mundo de 2014. A informação foi divulgada em sites de esportes da Argentina e republicada no Brasil. A proposta teria partido de Julio Grondona, presidente da Associaçãodo Futebol Argentino (AFA).
“É mentira. O próprio Grondona anunciou que o Brasil fazia por merecer o direito de sediar o Mundial de 2014”, rebateu Teixeira, no saguão de entradado Palácio do Planalto.
(...)
Sobre a entrevista concedida pelo técnico da Seleção Brasileira, Carlos Alberto Parreira, à revista inglesa Maxim — o treinador teria afirmado que o sexo será liberado para os jogadores antes dos jogos na Copa da Alemanha —, Teixeira reagiu da mesma maneira. “Parreira já afirmou que era mentira. Minha opinião é a mesma dele”, disse.
Engraçado nessa história é que quando fiz a segunda pergunta, sobre o sexo, ele ficou vermelho e nervoso e me desafiou:
- Você só faz perguntas baseadas em mentira???
- Mas, presidente, não fui eu que disse. Foram os ingleses
- Os ingleses mentiram
- Então tá. Vai sair assim no jornal amanhã. Qual a opinião do senhor sobre essa história do sexo?
- A mesma do Parreira.
Teixeira, definitivamente, não tem o dom da "Arte da Resposta".
Trem bala (cover)
Há 8 anos
Um comentário:
Ótimas histórias gente, parabéns!
A da Daiane foi incrível. Como é que uma pessoa que é exemplo pra tanta gente responde com essa "profundidade" toda?
Li numa revista sobre o Ronaldo fenômeno, logo que ficou famoso. Era terrível para dar entrevistas também. Sabem de algo a respeito?
E eu estava procurando alguma coisa que pudesse me ajudar a entrevistar e encontrei o blog de vocês.
Adicionei no favoritos e com certeza vou voltar.
Grande abraço!
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