17 agosto 2006

Ah! se eu tivesse gravado...

Pedro Henrique Freire

Jornalista adora bloquinho. Parece uma extensão do braço. O mais comum é fazer entrevista, de pé ou pelo telefone, anotando os dados mais importantes no famoso bloquinho. Eu tenho o meu. Ou melhor, os meus (sempre guardo aqueles já preenchidos). Mas muitas vezes incido num erro comum. Nem sempre gravo entrevistas. E isso nos faz perder informações importantes.

Alguns jornalistas discordam do gravador. Dizem que intimida o entrevistado e tudo mais. Sim, tenho certeza que intimida. Mas entrevistar governador, presidente, deputados ou qualquer outra pessoa, acostumada a conviver com jornalistas, já não se intimida mais. Os caras sabem o que falar antes mesmo de você perguntar. Além do mais, gravar é importante porque é preciso escrever exatamente o que o entrevistado fala, sem vírgula a mais ou a menos.

Mesmo assim, até os políticos perdem as estribeiras e se danam a falar bobagens. É nessa hora que entra o gravador.

Um outro dia perdi aquela que poderia ter sido, até aqui, a matéria da minha vida. Aconteceu quando entrevistava um deputado acusado de participação na máfia das sanguessugas (já contei a história dele no artigo Bom Senso “Empresialístico”).

Trabalho em Brasília, no Correio Braziliense, mas escrevo também para O Imparcial, no Maranhão. Enviei várias matérias sobre este deputado maranhense que estaria envolvido com a máfia. Ele andava muito puto com a cobertura, feito somente por esse jornal do Maranhão. Reclamou várias vezes. Disse que me processaria e tal.

Até aí tudo bem. O pior foi quando liguei pro tal deputado e perguntei o que ele achava de ter seu nome incluído entre os 72 acusados pela CPI das Sanguessugas de falcatruas na compra de ambulâncias. Assim que me identifiquei na ligação, ele foi logo me esculhambando. “Rapaz, tu é muito cara-de-pau. Como tu tem coragem de me ligar depois de campanha sistemática que vocês estão fazendo contra mim”, disse, cheio da irritação.

Deixei ele falar e depois tentei convencê-lo que eu só queria sua defesa – afinal, ele foi incluído na lista. E, como diria a máxima, contra fatos não há argumento.

Mas o argumento usado foi o mais “coronelístico” possível. Passados alguns segundos de conversa, fui ameaçado de morte. “Olha, Pedro”, disse o deputado, “honra de homem se lava com sangue. Tu toma cuidado”.

Calei por um instante. Não tive muito tempo para me recompor da declaração. Só soltei um tímido: “Quê isso, deputado!”. A única coisa que conseguia pensar era num gravador. Que droga! Se eu tivesse gravado essa conversa...

Continuei o diálogo e tentei argumentar da mesma forma. Disse que queria ouvir sua defesa, que faríamos a matéria mesmo assim e tudo mais. Não adiantou. Depois de repetir duas vezes a história de lavar a honra com sangue, desligou o telefone na minha cara.

Fiquei chateado por só ter feito anotações. Se eu tivesse gravado essa conversa, com certeza o jornal daria manchete e a honra do tal deputado estaria nas “cucúias” uma hora dessa. Que droga! A matéria, sobretudo, serviria para mostrar que o cara não está acima do bem e do mal. Jornalista se respeita.

A lição
Aprendi uma lição. Use bloquinho. Mas use também um gravador. Principalmente quando for fazer matérias que exigem as declarações transcritas exatamente como foram ditas ou aquelas matérias de denúncia, que podem render umas declarações mais enérgicas.

No meu caso, a entrevista foi feita pelo telefone. Então, é preciso instalar o “jacaré” no telefone e gravar. Não faça como eu!

Concordo que gravador intimida. Concordo que, se ele soubesse que estava gravando a conversa, não faria ameaças. Mesmo assim, não é todo dia que um deputado nos ameaça de morte. Eu teria que ter gravado! Quando terei outra chance de ter meu trabalho reconhecido dessa forma, tão “singela”?

Não sei. Mesmo assim, até lá, sempre usarei gravador. Ou então irei perder a matéria da minha vida. Ou da minha morte.

12 comentários:

Anônimo disse...

Concordo com você amigo Pedro, tudo deve ser gravado. Quanto ao parlamentar em questão, não é novidade que esses políticos se irritem com um jornalista fazendo seu trabalho de forma digna e competente. É que eles estão acostumados a fazer todo tipo de "mirabolâncias" sob a proteção do poder, e sairem impunes por isso. Parabéns pela coragem e continue assim, pois só quem faz a diferença é ameaçado de morte. Abraços

Anônimo disse...

Absurdo! já passei por uma situação parecida, há alguns anos, quando estava na TV, na ocasião da CPI das cargas roubadas, mas foi uma ameaça velada...
Mas nesse caso, Pedro Henrique, não tem como solicitar a gravação da operadora? Cara, seria A MATÉRIA!
p.s.: este espaço está maravilhoso, parabéns.

Léo Alves disse...

Sinceramente não sei como teria reagido. O pior é que esses caras roubam muito e se sentem com a honra manchada. Aliás, esse cara num pode nem falar de honra. Já imaginou Pedro se você tivesse comentado: "deputado acho que o senhor não pode falar muito de honra não". Certamente teria levado um tiro. De qualquer forma fica atento. Quem ameaça tem intenção de fazer. Pode não ter coragem. Acho que não custa nada tomar algumas providências.

Anônimo disse...

Sem dúvida seria A MATÉRIA, mas tenha cuidado. Esse tipo de gente é capaz de qualquer coisa, mas valeu muito pela dica. Sou estudante de jornalismo, aluna do Léo, e se antes já dava importância a gravação, agora dou mais ainda.

Toty Freire disse...

Com certeza, grande Léo... Precisaria dessa gravação também para comprovar que corria perigo. Na hora senti que estava em maus lençóis. Mas, de qualquer forma, prefiro acreditar que foi uma declaração irresponsável, sem pensar.

Pessoal, obrigado pela força. Espero ter colaborado com alguma coisa. Dessas coisas que a gente tira grandes lições.

Abçs para todos

Lenildo Ferreira disse...

Esse caso me fez lembrar um que ocorreu nos Estados Unidos - não lembro quando, nem os nomes dos envolvidos, porque não lembro onde li - onde um jornalista que desenvolvia uma investigação foi assassinado. Como reação, houve um forte movimento dos jornalistas de todos os estados e veículos daquele país, até que os fatos que estavam sendo apurados pelo colega morto fossem comprovados e os culpados assassinos presos. Isso serviu de lição para quem intentasse contra a vida de um jornalista, pq sabia-se q a revanche seria pesada e nao havia como matar todos os jornalistas. Espero q nao seja preciso outro caso Tim Lopes p q o mesmo tipo de compromisso seja adotado pela imprensa brasileira. Abraços, Pedro, estamos juntos nessa! (Perdoem pelo comentário extenso.)

Gilberto Silva disse...

No jornal que sou editor-chefe, passamos por algo semelhante, salvo suas devidas prporções. Fizemos uma matéria denúncia e os envolvidos queriam nos calar e nos ameaçar, mas o repórter que fez a matéria gravou tudo. Provas, trabalhamos com provas concretas.

Toty Freire disse...

É amigos... os casos de ameaça contra jornalistas são muitos mesmo. No início deste ano, quando estourou os "sanguessugas", publicaram gravação que ameaçava de morte Lúcio Vaz, repórter do Correio e primeiro jornalista a publicar coisas sobre a máfia. Na ocasião, ele ficou tranquilo, sem medo nenhum. Mesmo tendo uma filha pequena e uma carreira de sucesso, ele não se amedrontou e continuou denunciando a máfia. Agora, eu pergunto: Será que vale a pena morrer por denunciar deputados ladrões?

Abçs

Lenildo Ferreira disse...

Boa pergunta, Pedro. Principalmente por um fato: a imprensa denuncia, o deputado safado renunncia e o povo o reelege. Esse é o grande problema. Mas, sinceramente, acho que cada um de nós - vc, inclusive, que recentemente passou por uma experiencia desse tipo - acaba por concluir que SIM, vale a pena. Abraços

DB disse...

Grande Predo, desculpe a demora para comentar, mas realmente seria manchete de jornal. Cachorro que late nao morde. Ele pode até ter ameaçado, era o que ele tinha em mãos para se defender das acusações, comprovadas em seguida. Se ele fosse inteligente, ele teria respostas na ponta da língua.
mas como está enfiado até o pescoço no mar de lama, atacou quem estava mais proximo. Voce...
A matéria da tua vida ainda está por vir. E não será sobre ameaças de morte, tenho certeza!!
Valeu

Anônimo disse...

Bah, muito boa a história! Mas sempre lembro do que um colega sempre me fala: "Quem mata não ameaça".

Anônimo disse...

é isso aí!