08 agosto 2006

É preciso ser especialista (até no esporte)

Léo Alves

O preconceito com o jornalismo (e o jornalista) esportivo vem de muito tempo. Nos primeiros anos de cobertura esportiva (no início do século XX), ninguém acreditava que o esporte pudesse estar nas primeiras páginas dos jornais. Era considerado um assunto sem importância. Hoje, o esporte ocupa as primeiras páginas de jornal. A edição de segunda-feira, por exemplo, é recheada de matérias esportivas.

A mudança aconteceu.
Mas o preconceito permanece.

É encarada por alguns colegas como a editoria onde se encaixam aqueles jornalistas despreparados, que não sabem fazem outra coisa. Na maioria das redação a editoria de esportes é discriminada.

Esses nossos colegas acreditam que o jornalista esportivo é ‘sem cultura’ que não consegue enxergar nada além de uma disputa. Ou melhor, não consegue relatar nada além disso. Não é preciso, acreditam, conhecimento para fazer esse tipo de matéria.

Para muitos, o esporte não é nem jornalismo. Lembro que na minha época de faculdade um professor, hoje meu colega de trabalho, disse que jornalismo esportivo não era jornalismo. Tentei provar o contrário. Não o convenci.

Essa discriminação fez muitos colegas seguirem outro caminho. Para ganhar ‘respeito’ (da sociedade e de outros jornalistas) mudam de editoria. A maioria se dá bem. E diz: “agora as pessoas viram que eu sei fazer outra coisa além de esporte”.

A idéia que se tem é que jornalismo esportivo é tão fácil que qualquer um pode fazer. Não precisa ser especialista na área. Boa parte das empresas de comunicação (no caso, os editores) pensa assim. “Esporte, qualquer um faz. Quem for desenrola”, é uma frase típica. E mentirosa.

É nessa onda de que qualquer pode fazer que já vi muito colega ‘sobrar na curva’. Achando que não precisa se especializar (e cultivando o mito que treinador e jogador de futebol são todos burros) faz perguntas fora de contexto. O pior é que o jornalista pensa que o boleiro não saca que ele não entende do assunto. Tanto saca que o repórter é motivo de piada.

Alguns esportistas não admitem perguntas estúpidas, principalmente de quem não é da área. Quando o repórter é da área o cara até releva. Porque conhece o repórter. Falo por experiência própria. Já fiz perguntas imbecis, mas tive respostas pelo menos educadas.

Bem diferente de um aprendiz que chegou ao treino do Treze em um certo mês de janeiro perguntando ao técnico Maurício Simões (hoje no Santa Cruz-PE) quais os jogadores já tinham sido contratados. Em tempo: o elenco havia começado a treinar em dezembro. O Treze já tinha contratado uns 15 jogadores.

- Caba véi, tu tem que se informar. A gente está treinando há mais de um mês e tu vem me perguntar hoje quantos jogadores a gente já contratou. Se informe. Leia pelo menos o jornal, respondeu Simões.

Eu que fiquei envergonhado.

A princípio a atitude é encarada como grosseria. Mas é preciso ver o meio termo. Não se pode negar que uma pergunta daquelas é uma afronta a inteligência do treinador. Em mais de um mês de treino o repórter ainda não sabe quais jogadores foram contratados.

Paciência.

O próprio Simões me relatou uma vez que tanto os técnicos como os jogadores sabem “quem entende do traçado”. Disse-me também que é engano pensar que eles (jogadores e técnicos) não percebem quando o repórter não é da área.

- Muitas vezes a gente responde para não ser mal educado. Mas tem hora que falta paciência, confessou.

A mesma revelação me foi feita por Washington Lobo, ex- treinador do Botafogo (PB) e do Nacional de Patos (PB). Segundo ele, “tem umas meninas (repórteres) que fazem perguntas que dão pena”. Aqui não vai nenhum preconceito contra mulheres no esporte. Perguntas sem sentindo independem do sexo.

Simões e Lobo têm razão.

Este ano mesmo uma colega perguntou, no segundo jogo do Campeonato Estadual, ao treinador do Esporte de Patos (no sertão paraibano) “como ele estava encarando aquele jogo decisivo?”

- É, minha filha, a gente encara com muita seriedade, mas é apenas o segundo jogo do campeonato. Não tem nada de decisão ainda. Muita bola ainda vai rolar, respondeu educadamente o treinador Sérgio Oliveira.

Pior são aqueles que pensam ‘entender do traçado’. Nos textos usam termos obsoletos tipo “tapete verde”, se referindo ao gramado, “corner”, pra falar em escanteio, “beque”, o zagueiro.

Quem não é da área não entende a diferença entre o esquema 3-5-2 e o 4-4-2. Não sabe o que muda num time com a saída de um volante e a entrada de um atacante.

E vice-versa.

Alguém pode dizer que para escrever sobre esporte não precisa entender de esquema tático. Isso é coisa de treinador. Será?

Esses pequenos detalhes mudam completamente a construção do texto. Mas quem não é da área só consegue enxergar 22 caras correndo atrás de uma bola.

Nos outros esportes a necessidade de especialização é ainda maior. Na maioria das vezes o repórter entrevista atletas com alto nível cultural. Meu amigo DB, por exemplo, já foi chamado de desinformado por Robert Scheidt (foi ele mesmo?). Todos lembram que Nelson Piquet era considerado chato porque odiava responder a perguntas óbvias sobre a Fórmula 1.

No futebol você ainda encontra um ou outro técnico que responde apenas para não ser mal educado. Em outros esportes isso não acontece. Os atletas não estão nem um pouco preocupados em não ser chato. Eles querem qualidade nas perguntas.

O preconceito vai durar por muito tempo.

Ainda bem que os atletas estão mostrando, com respostas mal educadas, que para se fazer jornalismo esportivo é preciso conhecimento, especialização. Como em qualquer outra área. Enquanto cada “macaco não ficar no seu galho”, alguns jornalistas (aqueles que pensam que sabem) vão continuar servindo de piadas para jogadores e técnicos.

9 comentários:

DB disse...

DA Silva, realmente o nosso Robert Scheidt costuma tratar mal quem faz perguntas de principiantes. Eu já sofri com isso. Pedi desculpa e procuro me informar mais sobre este popular esporte que é a vela... Descobri até coisas que Scheidt não gostaria de reposnder!

Mas esse teu post me deu a idéia de escrever alguma coisa sobre manter-se informado. Na próxima semana eu escrevo sobre isso...
Antes, porém, bateremos aquele papo pessoalmente, eu espero!
Valeu

Anônimo disse...

"Ou entende ou procura se especializar. O meio termo é que não dá". Já escutei uma vez um professor meu falando isso. E é verdade. É por isso que o jornalista esportivo é considerado incompetente. Que basta meia-dúzia de perguntas óbvias e idiotas para fechar uma matéria. Da mesma forma que um cara de economia tem que enteder de cifras, juros, etc., o cara que se mete a falar de futebol tem que saber, ao menos, quando acontece o impedimento. As redações dos jornais, ou até mesmo os editores de esportes, deveriam fazer um teste específico pra cada segmento do esporte, evitando assim, as asneiras que são perguntadas aos entrevistados e colocadas nos jornais. Aliás, deveria ter também esse teste com editores. Pelo menos aqui em Pernambuco tem casos incríveis. Tem cada "pecinha boa". Às vezes, fico envergonhado, porque gosto de esportes e pretendo seguir na área. Aí vem um sujeitinho que fala: "esses jornalistas esportivos são dose pra leão. É por isso que ganham pouco. Olha pra isso, qualquer um faz esse tipo de apuração". Fico revoltado, mas não tiro a razão. Tem cada coisa trash que nem vale a pena defender.

Anônimo disse...

Valeu, professor, pelo texto publicado. Considero este blog uma extensão de suas aulas na faculdade de jornalismo da UEPB. Reconheço a importância da cobertura jornalística em relação aos esportes, notadamente o futebol. Essa é a área em que muita gente boa começou sua carreira, dentre os quais o apresentador Fausto Silva, por exemplo. Até fiz, 10 anos atrás, umas reportagens de campo pela Rádio Tropical AM de Paragominas, no Pará. Mas desisti. Aprendi, com Nelson Rodrigues, que o futebol é a coisa mais importante das coisas menos importantes.

Anônimo disse...

A série "Respostas cretinas para perguntas imbecis" ocorre em qualquer área. Não é um "privilégio" da editoria de esporte, mesmo que o problema seja mais frequente. Já o preconceito sofrido pelos jornalistas esportivos dentro das redações tem relação com o menor potencial de mobilidade do repórter dentro do jornal. Existe ainda aquela idéia de que o jornalista de esportes vai "morrer" na própria editoria. A idéia existe. A prática também, salvo os casos excepcionais. Ah, o preconceito também existe na editoria de Polícia. Parece fácil contar uma história de crime. Só parece. Contar a historinha do sujeito que matou a ex-mulher a facadas exige vocabulário e texto muito claro. Se o repórter escreve bem, os textos de polícia acabam deliciosos para a leitura.

Anônimo disse...

Fausto Silva pode até ter sido jornalista em alguma época da vida, mas enquadrá-lo no quesito "muito gente boa" é forçação de barra. Ele, sim, faz a coisa menos importante entre as menos importantes...

Anônimo disse...

Putz...me senti a pior das criaturas agora... kkkkkkkkkkkkk
É quase isso que eu penso de futebol =) 22 caras correndo atrás da bola. e não entendo nada de esquema nenhum kkkkkkkkkk
Agora que eu tô sentindo na pele ter que escrever sobre futebol e outros esportes, mas as pautas do meu amigo leo estão me salvando... =)
Obrigada viu leozinho!!!! =)

Lenildo Ferreira disse...

É tão fácil que tem um bocado de burro por aí cagando à beira dos campos.

Anônimo disse...

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ayne disse...

Olá. Estou indicando seu blog para meus alunos de Jornalismo. Seus testemunhos são muito importantes. Parabéns.