Por Daniel Brito
Entre os repórteres de jornal e rádio (e agora também internet) existe um estigma de que os companheiros de profissão que trabalham em televisão são os menos esclarecidos da classe.
Opa!
Não quero ofender minha eterna chefe Neide Nascimento, que lê este blog; meus saudosos companheiros de TV Borborema; meu grande amigo, Da Silva, produtor da TV Paraíba/Globo, em Campina Grande (PB), e os demais repórteres de TV que, por acidente, venham a ler este texto. O que vou escrever agora não acontece por culpa deles.
Já fui repórter de TV e posso voltar a ser a qualquer momento da minha carreira. (Basta um convite...)
Já percebeu que (quase) tudo que é exibido no telejornal à noite você já leu de manhã cedo no jornal impresso?
Repórter de televisão acabou se transformando em um repassador de informações. Geralmente, a redação de uma TV de médio a pequeno porte é composta pelo editor-chefe, três ou quatro produtores e dois ou três repórteres por turno. Ao todo, são 15 a 20 jornalistas.
Os produtores fazem toda a apuração da história e repassam tudo mastigadíssimo para os repórteres. Eles vão ao local, fazem as perguntas recomendandas na pauta, pedem esta ou aquela imagem ao cinegrafista, grava uma passagem que explique alguma coisa que NÃO está nas imagens e corre para outra pauta.
Ao final do dia, escreve três textos sobre histórias diferentes e corre para a TV para gravá-los o mais rápido possível.
Eu mesmo já fiz seis pautas em um único dia. Assassinato, entrega de casa populares por políticos, futebol, doação de sangue para o hemocentro, recadastramento de CPF e greve de professores.
Detalhe: todas as pautas já haviam sido destacados do jornal impresso, de manhã. É difícil criar especialistas em televisão. Os únicos especilistas que existem são os apresentadores, sempre metidos a estrela maior que a própria informação que ele repassa.
Neste dia citado acima, por exemplo, eu tive que tirar dúvidas com um repórter de jornal que cobre economia sobre a greve, um de política sobre as casas entregues pelo prefeito. Só não precisei conversar com especialistas em futebol...
Pelo tanto de trabalho que têm, o repórter de TV nem tem tempo para se dedicar a alguma área específica. Em emissoras de médio e pequeno portes, sobre quem estou falando aqui, existem casos isolados de repórter policial ou de esportes. Mas, como eu disse, são isolados.
Nem todo mundo quer fazer polícia.
Não é todo mundo que quer fazer esporte.
Já perceberam que poucas emissoras exibem reportagens exclusivas?
Exatamente por causa disso tudo.
Eu defendo esta tese: tudo bem, os repórteres têm que fazer todas essas matérias, mas os produtores tinham que ser setorizados.
Fulano fica só na parte policial e de olho no diário oficial da Justiça.
Sicrano é o responsável pelas companhias de serviço público: água, luz, telefone...
Beltrano faz a parte do governo.
Assim, os telejornais não repetiriam as informações dos jornais impressos, poderiam fazer alguma coisa de diferente e, por fim, inverteriam a ordem atual e passar a pautar os jornais impressos.
Trem bala (cover)
Há 8 anos
8 comentários:
Só passei por aqui pra dar uma força e contar aí uma visita dos eua!
Desde que fui para produção o meu principal desafio tem sido descobrir "novas" pautas, fugir um pouco dos jornais impressos. É lógico que não dá para ter assuntos exclusivo da tevê. Mas acredito que a tevê é que deve pautar o jornal. Na as últimas semanas a equipe tem conseguido algumas pautas, que foram republicadas pelos jornais impressos. Como bem disse DB, o nosso número de profissionais é bem menor que um jornal impresso, onde a maioria é setorizada. Além do esporte hoje tenho que estar ligado num monte de coisa. Porém a experiência de repórter tem ajudado um monte.
É por essa e outras que os telejornais já não tem mais tanta audiência como antes. O telespectador quer saber de noticias quentes.
A televisão tinha tudo para fazer o melhor Jornalismo, afinal, nela a informação vem colorida e audível, enquanto no rádio temos apenas o som e no jornal textos e imagens estátícas. Isso é lógico. Porém, fazer televisão é muitoooo mais complexo e, principalmente, caro. Como vc bem disse, as equipes de Jornalismo, particularmente nas empresas de pequeno e médio porte, são muito pequenas, de modo q o repórter se torna um cumpridor de pautas, muita pautas diárias. Somemos a isso também o comodismo, preguiça e inaptidão de alguns q fazem telejornalismo, e teremos o caldo perfeito dessa prática copista q literalmente assistimos hoje. abs
É Daniel infelizmente a TV se comodou.
Esse é o novo blog que participo, ele busca divulgar o Jornal que sou editor, o Correio (Gilberto Silva)
Essa é a nossa realidade.
Tempo e dinheiro, ou seria o inverso. Na verdade, tempo é dinheiro.
É a partir desta proposição que se faz a TV brasileira.(sem falar de outras coisas mais).
Se bem que, o Rádio pela sua mobilidade, seria realmente o meio pelo qual a mídia se pautaria. Nem isso acontece.
Mas não percamos as esperanças.
Acho que as pessoas são e estão acomodadas, não os repórters de TV. Não mostrar o que foi escrito nos jornais deixaria o público à parte do que acontece pelo mundo afora. A grade das emissoras e o tempo não permitem que a TV se aprofunde mais no assunto ou busque novidades que não foram mencionadas nos jornais. O fato é que as TVs estão cheias de baboseiras, o que impede a busca por novas informações. Essa é a realidade, atualmente e infelizmente.
Talvez a grande sacada da arte do jornalismo (tv, net, impresso) atual é tentar buscar o novo no velho. Hoje se percebe uma fragmentação das notícias, notas curtas (tijolinhos), sem aprofundamento e tratamento merecidos.Os jornais/web/tv se preocupam mais com os furos de reportagens do que com a própria qualidade da notícia. Embora a televisão tenha ofuscado o jornais- e agora a internet, que alterou a produção e distribuiçao das notícias- ele continua sendo a principal via entre o grande e o pequeno mundo. Percebe-se, contudo, uma lacuna entre o que o leitor/telespectador quer ver/ler e o que a mídia valoriza.
O resultado é que cada vez mais temos mais mídias e menos notícias.
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