04 agosto 2006

Bom senso “empresarialístico”

Pedro Henrique Freire

Nos últimos dias, eu e um grande amigo do jornal O Imparcial (MA), o editor de política Marco Aurélio Oliveira, ditamos os rumos da cobertura sobre sanguessugas. Lá existiam dois deputados investigados e um citado. Dois foram inocentados.

A cobertura funcionava assim:
- levantávamos as pautas;
- eu fazia as matérias daqui (Brasília);
- ele dava a pincelada de lá (São Luís);
- Em alguns dias, um repórter de política ajudava.

Contra um deputado em especial – o mais enrolado dos maranhenses no caso – tínhamos provas extremamente comprometedoras. Demos uma matéria, outra e mais outra. O deputado resolveu convocar uma coletiva para se explicar. A segunda desde o início do escândalo.

Falou, falou e não disse muita coisa. “Nunca vi esse tal de Vedoin! Não sou bandido! Vou processar a Câmara, os jornais, todo mundo”, bradou feito louco.

No dia seguinte, tive acesso ao depoimento do Luiz Antônio Vedoin, chefe da Planam, com ajuda do pessoal do Correio Braziliense. Ele dizia que o tal deputado tinha recebido propina por meio da conta de seu assessor e ainda R$ 10 mil em espécie, entregue dentro do seu gabinete.

E disse mais: “Paguei a comissão pelo encaminhamento das emendas antecipado e o deputado acabou não direcionando”, disse o sanguessuga à PF. Quer dizer, o tal cara recebeu pelo esquema, mas deu um bolo no chefe da máfia.

É mole?

A manchete
Bingo! Tínhamos, de fato, novidades.

Resultado: foi manchete do jornal no sábado.

No domingo, tínhamos mais informações para dar: como eles se conheceram, quando foi a tratativa entre os dois, quais as emendas deveriam ser direcionadas, além de reiterar a defesa do deputado.

As informações eram igualmente fortes.

E aí, manchete de novo?

- Não. Vai ficar parecendo perseguição, disse Marco Aurélio.
- Também acho, respondi. Vamos dar só uma chamadinha de capa para satisfazer os leitores e esperar as novidades.

Agimos sob o comando da verdade jornalística. Demos a justificativa do cara, publicamos todos os depoimentos divulgados pela polícia e pela justiça e, em nenhum momento, noticiamos depoimentos de adversários que pudessem transformar a cobertura em palanque político. Além disso, publicamos matérias “favoráveis” a ele: o conteúdo da defesa que entregaria à Corregedoria da Câmara, além de registrar o dia que entregou a defesa.

O tiro
Mesmo assim, o deputado foi à tribuna da Câmara e disparou contra o jornal. Disse que O Imparcial estava agindo “a serviço de alguém” e que “enviou um repórter especialmente a Brasília” para difamar sua imagem.

Falou que já tomou as providências judiciais para me processar, além dos editores e o do diretor do jornal, no caso o meu pai. (Eu, o tal repórter enviado, moro em Brasília há três anos. O pior é que o deputado sabe disso.)

Seu discurso foi baseado no fato da atual “verdade empresarial” do veículo maranhense favorecer o governador do Estado, contra quem faz oposição ferrenha. Muitas vezes, O Imparcial é sim PARCIAL. E como ele, no Nordeste e em outras regiões existem muitos jornais.

Mas nesta cobertura fomos isentos, tenho certeza.

Duas provas:
1 - O fato de publicarmos o envolvimento de um aliado do governador no esquema das sanguessugas;
2 - Noticiamos quando aquele deputado apenas citado foi inocentado pelo chefe da máfia. Ele é aliado do grupo da Roseana Sarney - contrário ao do governador -, dentro do qual está inserido esse “parlamentar mais enrolado”.

Demos uma página quase toda para este terceiro. Em maio, ele deu explicações sobre seu envolvimento em coletiva conjunta com o que quer me processar. Portanto, são aliados.

Bom, o fato é que este tal deputado é o único maranhense enrolado e é o mais histérico de todos. Além das provas que publicamos, temos ainda mais coisas sobre as sanguessugas que complicam de vez sua situação. Deixaremos para publicar depois, quando ele estiver preste a ser submetido à degola da Câmara.

Por enquanto, para não abrir brecha para acusações de perseguição, não fritaremos ele mais ainda nas páginas dos jornais, embora aqueles favorecidos pela “verdade empresarial” estejam torcendo para isso.

Nos dias de hoje, na minha opinião, a verdade, infelizmente, nem sempre é jornalismo.

Jornalismo é bom senso: aquele bom senso com características empresariais e jornalísticas.

Ou, “empresarialístico”.

3 comentários:

Léo Alves disse...

Um ótimo texto que revela que quem está atolado até o pescoço tenta desviar o foco para passar de réu à vítima. E revela também que não é fácil ter equilíbrio jornalístico nessas horas. Confesso que estou ansioso para saber um pouco mais sobre esse político. Tomara que ele não leia o blog (que pretensão a nossa hein?) para não se preparar pra chumbo grosso que ainda vem pela frente.

DB disse...

Ideologia e dinheiro nunca andaram juntos.

Quem quer faturar, não tem ideologia política, mas financeira.
É o caso dos deputados sanguessugas e da maioria dos jornais do Nordeste.

Infelizmente!

Anônimo disse...

best regards, nice info » » »