20 setembro 2007

Os limites do jornalista

Por Daniel Brito

Diante do chocante caso de tentativa de assassinato ao jornalista Amaury Ribeiro Jr., na noite desta quarta-feira, na Cidade Ocidental, ainda me pergunto até onde um jornalista pode ir?

Para quem não está sabendo da história ainda, Amaury é colega de Correio Braziliense (não me conhece porque eu faço o miolo do jornal, ele apura manchetes de primeira página) e havia mais de um mês percorria as cidades mais perigosas do Entorno relatando os casos de violência dignos da Favela Santa Marta ou Complexo do Alemão, no Rio.

O Entorno tem esse nome porque cerca o Distrito Federal com várias cidades-dormitórios (lá embaixo eu explico isso) pertencentes ao estado de Goiás. Os governos goianos, contudo, não mexem uma palha para mudar a situação de pobreza da região.

A diferença entre o Entorno e o Rio de Janeiro é que lá o crime é "organizado".
Na Cidade Ocidental, aqui no Entorno, é exatamente o contrário.

É uma terra sem lei, com várias gangues inimigas - diferentemente das grandes facções, como ocorre no Rio -, alto consumo e tráfico de drogas. A maioria dos moradores da região é imigrante que trabalha em Brasília, mas volta todos os dias, às 18h para o Entorno, onde o custo de vida é muito mais baixo. A cidade mais próxima do centro do Plano Piloto fica, no mínimo, a 45 quilômetros. Daí o nome de cidade-dormitório. Daí, também, o motivo dos governos goianos não atuarem na região. Muita gente vota no DF, mas mora em Goiás.

Não precisa ir lá para saber que mata-se por um pingo no i.
Rouba-se para sustentar o tráfico e a própria vida.
Vive-se com medo da própria sombra.

Grande repórter investigativo, Amaury reuniu informações suficiente para mergulhar de cabeça na denúncia de que a região está para Brasília como a Baixada Fluminense está para o Rio de Janeiro. O governo federal, após as reportagens do Correio, anunciou um pacote de medidas de segurança com a Força Nacional no meio para diminuir os índices de criminalidade.

A história de Amaury, contudo, não acabava ali. Ele tinha conteúdo para reforçar a tese de que o Entorno está repleto de cães ferais, o que transforma a "nova capital" em uma bomba relógio. A aparente tranqüilidade da cidade planejada está com os dias contados.

O repórter rodou os locais mais perigosos com táticas diferentes para não ser descoberto pelos marginais. Até porque, não há delegacia de polícia na Cidade Ocidental, por exemplo. Até o fim da tarde desta quarta-feira seu plano de apuração dava certo.

Durante uma entrevista em um bar, no final da tarde desta quarta-feira, um adolescente de 16 anos, armado com um 38, disparou três tiros na direção do repórter e fugiu. Até o começo da madrugada de quinta, momento em que publico este post, no calor dos acontecimentos, a informação que me foi repassada é que o garoto foi detido.

O atentado teria sido armado pelos bandidos acusados nas reportagens.
Amaury está consciente e o quadro é estável.
Por um milagre, até onde eu sei, apenas uma bala perfurou seu abdômem, mas não corre o risco de perder a vida.

Sei, também, que Amaury chegou a um ponto em que nem a polícia costuma ir.

Para mim, ficou comprovado que o tamanho da emoção de se fazer o jornalismo investigativo bem feito é proporcional ao risco que se corre.

5 comentários:

Léo Alves disse...

O jornalismo investigativo é tão atraente quanto arriscado. Por mais cuidado que se tenha o jornalista é sempre um alvo fácil. O pior é que em qualquer situação querem logo apagar o jornalista. Há bem pouco tempo vimos que o Lúcio Vaz (tb do Correio) era alvo para um político. E ele só soube depois que as gravações das conversas foram reveladas. É preciso saber os limites, pois nenhum jornalista é Super-homem. Todos são Clark Kent. Mortais.

Unknown disse...

Daniel,

Sei bem como é essa região do entorno, morei dois anos no Valparaiso de Góias, e tenho parentes em Luziânia. Amigo a situação no entorno e perigosa, brigas de gangues constantes, tráfico de drogas em escolas e ruas abertamente. Nós como jornalistas devemos medir o limite de apuração e investigação da notícia com o risco, pois segurança nesse país pode ser considerado artigo de luxo, e de uso exclusivo de pouca gente. Mas espero que esse caso tenha a repercussão necessária para os governantes desse país abram os olhos para essa questão tão séria e que assusta a população do nosso Brasil

Rosildo Brito disse...

Olá Daniel,

A convite do Leo, visitei este blog e tenho de dizer que estão de parabéns pelas discussões levantadas!. No tocante a esta última, trata-se, de fato, de algo extremamente delicado mas crucial para a sobrevivência do bom jornalismo. Costumo dizer em sala de aula, que o jornalismo investigativo é o jornalismo levando a sério e até as últimas consequências. Em seu texto publicado na CAros Amigos, Fernando Evangelista discute isto e levanta a questão: "até que ponto vale a pena ser jornalista?". E a resposta para isto, diz ele de maneira sucinta, só vale a pena ser jornalista, se for para "desafinar o coro dos contentes", parafraseando Toquato NEto.

João Paulo Medeiros disse...

Certamente o 'Jornalismo Investigativo' é uma das maneiras mais singelas, autênticas e louváveis de se fazer Jornalismo.

Não há Jornalismo sem investigação, e as matérias publicadas por Amaury devem seguir de exemplo para aqueles que praticam somente a propagação de releases e/ou simples repetições de boletins de ocorrências.

No entanto, é preciso considerar a realidade ao tratar dessa temática, e até que ponto a exposição ao perigo trazido pela investigação garante a sobrevivência do profissional. Nunca se pode pôr em risco a própria vida em nome de conceitos e ideologias cultivadas em salas de aula.

É necessário avaliação e equilíbrio na hora de desvendar os fatos que servirão de notícia no outro dia...

O Jornalismo "CTRL C x CTRL V" é inconcebível, assim como se fazer Jornalismo com profissionais mortos...

Graças a Deus que no caso de Amaury não aconteceu o pior. Ainda bem que ele está vivo para contar a história, e continuar cumprindo com sua brilhante função social.

Ciléia Pontes disse...

Bom, acrescentando ao que já foi dito: tomara que o Amaury possa se recuperar logo para contar o que pôde investigar até a tragédia.
É lamentável o que acontece no Entorno e lamentável que somente uma crime como esse possa fazer os moradores da cidade (inclusos sociedade, governo e etc) pensarem que, apesar de aparecer, não vivemos na Disneylândia. Pq o plano piloto parece a Ilha da Fantasia, mas baixar avançar 50 quilômetros para descobri que a realidade é semelhante e, às vezes, pior que em muitas zonas de guerra.