Pedro Henrique Freire
Há três semanas, se não me engano, a praia de Botafogo, na zona sul do Rio de Janeiro, transformou-se em palco para 650 mil evangélicos – segundo organização – se livrarem dos espíritos e sentimentos malignos. Lá, ocorreu “a maior sessão de descarrego do mundo”. Quem comandou a farra religiosa foi a Igreja Universal do Reino de Deus (Iurd), orientada pelo seu líder, bispo Edir Macedo.
Nas areias da praia, além de fé, enquanto fiéis oravam, carnês bancários foram distribuídos, com 12 boletos de R$ 20 reais cada. O dinheiro, segundo a Universal, vai ajudar na ampliação da rede de rádio da igreja no país. É bom lembrar que a Universal hoje é dona da TV Record, Rede Mulher, Rede Família, Rede Guaíba, Rede Aleluia e controla uma rede nacional de rádios em FM, além de várias emissoras locais, em AM e FM. E há pouco lançou um novo canal de TV.
Essa é uma manobra da Universal para incrementar seus cofres e aumentar seu poder de persuasão. A justificativa está no próprio carnê: "A mídia é um canal valioso que a Iurd tem usado na propagação da Palavra de Deus, e o rádio é a principal ferramenta capaz de alcançar aqueles que moram nas mais distantes regiões", diz o texto na contra-capa do "carnê dos Auxiliares", publicado, um dia ai, no jornal Folha de São Paulo.
Disso pode-se tirar uma gama de conclusões. Ser contra ou a favor. Mas é preciso ir além. É fundamental saber, por exemplo, que algumas igrejas evangélicas misturam religião com política. Não é a toa que na Câmara dos Deputados existe a bancada dos evangélicos, que, no ano passado, contava com 64 parlamentares. E é ingênuo se pensar que essas rádios e TVs não são usadas para agradar “os seus”.
Outro dado: segundo matéria de O Globo, publicada em 1º de agosto de 2006, quase metade dessa bancada (29 deputados e um senador) foi acusada pela CPI dos Sanguessugas de receber propina de empreiteiro. Alguns foram inocentados e outros renunciaram para não ficarem inelegíveis e hoje respondem a processos. Os ex-deputados Bisbo Rodrigues e Valdemar Costa Neto, ambos do antigo PL, são bons exemplos.
Recentemente, o Brasil assistiu com atenção o caso dos bispos Sônia e Estevam Hernandes, donos da Renascer em Cristo. Eles estão presos nos Estados Unidos por contrabando de dinheiro e conspiração para contrabando de dinheiro. Pra completar, a matéria da Folha de S. Paulo lembra também que o líder máximo da igreja Universal, Edir Macedo, responsável pelos carnês, foi preso em 1992, sob acusação de charlatanismo, curandeirismo e estelionato.
Esses são apenas alguns exemplos de disfunções que pesam sobre líderes religiosos. Existem outros. Cabe ao leitor reuni-los e tirar suas próprias conclusões. Mas o escritor e pastor evangélico Ricardo Gondim já tem as suas. Ele é dono do livro O Que os Evangélicos (não) Falam (Ed. Ultimato). E discorre sobre a busca das igrejas por poder absoluto. Num trecho, questiona: “Quem poderia imaginar que as igrejas se transformariam em mega-empresas, movimentando somas astronômicas, conspirando pelo poder político e disputando, em pé de igualdade, a hegemonia da mídia?” Boa pergunta.
Um comentário:
Pedro o tema é palpitante e sugere várias interpretações. A primeira delas a respeito do desvio de muitas igrejas, que passaram a vender em seus programas de tevê uma vida melhor, cheia de realizações materiais. Entra em tal igreja e você fica rico. E muitas pessoas são atraídas por isso e pagam qualquer preço. Esquecem do lado espiritual. Outro ponto é que se no passado a igreja que detinha o poder, hoje a história começa a se repetir. Com uma diferença: as sessões de descarrego são feitas por certas igrejas. E com o poder da mídia na mão, certas igrejas começam a colocar os seus em lugares estratégicos da sociedade, como vc citou, na câmara dos deputados. Dai a pouco o judiciário e por ai vai. É lamentável ver que muitos estão usando a religião para benefício próprio. Mas como bem disse Aquele que morreu pregado na cruz: "Pai, perdoa-os eles não sabem o que fazem".
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